Críticas a Noah Wyle, teorias sobre os bastidores e debates nas redes sociais transformaram a série num fenómeno que vai muito além do que acontece no ecrã
Quase todos os episódios da premiada série médica "The Pitt" seguem a mesma fórmula: médicos das urgências tratam pacientes, trocam comentários entre si e revelam partes das suas histórias pessoais. Com a ação a desenrolar-se praticamente em tempo real - 15 episódios de uma hora para retratar um único turno de 15 horas - os doentes, com ferimentos graves e histórias trágicas, entram e saem mais depressa do que os profissionais de saúde conseguem processar cada caso. Há um ligeiro suspense no final. E a história repete-se na semana seguinte.
Poucas séries são tão simples de acompanhar como "The Pitt" - talvez apenas os dramas policiais em que um caso começa e termina no mesmo episódio. "The Pitt" é televisão à moda antiga, direta e linear, que não exige aos espectadores que procurem pistas para desvendar mistérios que se prolongam ao longo de toda a temporada.
Ainda assim, na ausência de grandes enigmas narrativos ou mensagens escondidas nas entrelinhas, uma pequena mas ruidosa parte dos espectadores tornou-se conhecida por procurar significados escondidos - e, sobretudo, conflitos - em tudo o que acontece fora do ecrã: escolhas de elenco, respostas dadas em entrevistas ou publicações no Instagram. E encontrou um alvo para as suas críticas na principal figura da série: Noah Wyle, ator, produtor executivo, argumentista ocasional e realizador. A sua personagem, o experiente médico Dr. Robby, passou grande parte desta temporada a afundar-se numa depressão com tendências suicidas e a descarregar a sua frustração sobre as mulheres da equipa.
Enquanto, na ficção, Robby se transforma progressivamente num anti-herói, fora do ecrã alguns fãs acusam Noah Wyle de desculpabilizar ou atenuar a crueldade da personagem. Entre as críticas, surgem ainda outras acusações, incluindo a alegação de que sente inveja do percurso profissional dos colegas de elenco.
As polémicas e interpretações levadas ao extremo são tantas que alguns espectadores chegam a questionar se estarão a ver a mesma série. E isso acabou por gerar uma nova polémica: a polémica em torno das próprias polémicas. Por cada fã que parece convencido de que o Dr. Robby é um autêntico vilão, há pelo menos dois outros prontos a acusá-lo de não ter capacidade para compreender uma série de televisão. (“The Pitt” está disponível na HBO Max, que pertence ao mesmo grupo empresarial da CNN, a Warner Bros. Discovery.)
"Acho que "The Pitt" não foi concebida, do ponto de vista narrativo, para ser vista como séries como "Lost" ou "Westworld", ou outras produções construídas em torno de enigmas que os espectadores tentam decifrar", afirma Suzanne Scott, professora associada da Universidade do Texas em Austin e especialista em cultura de fãs. "Mas muitos fãs retiram prazer precisamente desse tipo de abordagem, participando em interpretações coletivas e discutindo teorias com outros membros da comunidade."
Muitos fãs de "The Pitt" veem a série exatamente pelo que ela é: um drama médico realista, na linha das primeiras temporadas de "ER", povoado por médicos exaustos que dominam tanto a ironia e o humor quanto o bisturi. Para os espectadores que procuram temas mais amplos, os pacientes trazem consigo histórias que espelham problemas sociais contemporâneos - desde o peso dos custos dos cuidados de saúde para quem não tem seguro até ao papel dos serviços de urgência como principal porta de entrada no sistema de saúde para pessoas em situação de sem-abrigo. Ainda assim, "The Pitt" aborda estas questões de forma bastante direta, deixando pouco espaço para interpretações divergentes. É o caso de Orlando, um doente diabético que acumula vários empregos e não tem condições financeiras para permanecer internado e recuperar de uma emergência médica. Trata-se de uma personagem trágica, vítima das falhas do sistema de saúde norte-americano.
A história ficcional que mais gerou conversa nesta temporada aconteceu quando dois agentes do ICE - a agência responsável pela fiscalização da imigração nos Estados Unidos - chegaram ao hospital com uma mulher que tinha ficado ferida durante uma detenção. Mais tarde, os mesmos agentes detiveram uma enfermeira branca que entrou em confronto com eles enquanto tentava prestar cuidados à mulher detida. Mas os fãs pareciam mais interessados em discutir outra notícia: a saída de Supriya Ganesh, intérprete da cuidadosa e empática Dra. Mohan, que não regressará para uma terceira temporada. Alguns espectadores salientaram que a saída de Ganesh representa a segunda vez que "The Pitt" afasta uma personagem importante interpretada por um ator pertencente a uma minoria étnica. No entanto, a personagem de Mohan é uma médica interna cuja passagem pelo serviço estava destinada a terminar, e tanto os hospitais reais como os dramas médicos televisivos estão habituados a mudanças frequentes nas equipas.
"Acho que é importante prestar atenção às personagens que a série mantém e àquelas que decide retirar da história", afirma Emmy, fã de "The Pitt", que escreve de forma crítica sobre a série numa newsletter. Emmy pediu para não ser identificada pelo nome completo, para manter a sua atividade enquanto fã separada da sua carreira profissional.
Os fãs que criticam e especulam sobre "The Pitt" argumentam, por sua vez, que estão a ser mal interpretados e alvo de críticas excessivas. A série acabou assim por ser arrastada para um debate mais amplo sobre se é apropriado que os meios de comunicação social deem destaque às discussões e conflitos entre fãs. Alguns admiradores mais dedicados de "The Pitt" ficaram incomodados quando entrevistadores questionaram Noah Wyle sobre ilustrações criadas por fãs com teor romântico ou sexual que retratam a sua personagem e o tímido médico interno Dr. Whitaker. "Não quero fazer juízos de valor sobre essas coisas", afirmou Wyle numa dessas entrevistas, embora tenha dado a entender que apreciava a criatividade dos fãs.
Parte da indignação dos fãs em relação à série acabou, porém, por ultrapassar os limites das discussões habituais da comunidade. Quando Noah Wyle publicou no Instagram uma mensagem sobre a amizade que o ligava ao falecido ator Robert Carradine, vários utilizadores inundaram a caixa de comentários com queixas sobre a saída de Supriya Ganesh da série.
Para uma pequena mas apaixonada parcela do fandom - a comunidade de fãs - de "The Pitt", a série não se resume ao que é transmitido todas as semanas. Inclui também tudo o que acontece fora do ecrã. Para esse grupo de fãs, os acontecimentos paralelos à narrativa são essenciais para compreender "The Pitt" - mais uma peça do puzzle, mais um mistério por desvendar, explica Suzanne Scott.
"Para os fãs que se interessam apenas pela série em si, ou para os espectadores ocasionais que desconhecem por completo as discussões que existem à volta dela, estes elementos passam despercebidos. Já para aqueles que gostam de acompanhar rumores, dramas fora do ecrã ou fazer análises aprofundadas da série, tudo isso pode proporcionar um tipo diferente de prazer", explica Scott.
Muitos espectadores poderão nem saber que Supriya Ganesh não regressará na próxima temporada, nem estar a par da controvérsia em torno da sua saída. Mas, para os fãs mais envolvidos, os acontecimentos fora do universo ficcional de "The Pitt" também influenciam a forma como interpretam a série. Foram eles que repararam que nenhum dos colegas de elenco de Noah Wyle esteve presente na cerimónia em que o ator recebeu uma estrela no Passeio da Fama de Hollywood. E também que notaram quando Ganesh cancelou a participação que tinha prevista num painel dedicado a "The Pitt" no PaleyFest.
O modelo de lançamento semanal de "The Pitt" poderá também estar a contribuir para alimentar estas discussões. Cada vez mais pessoas aderiram à comunidade de fãs depois de concluída a primeira temporada, explica Colleigh Stein, investigadora especializada em estudos sobre comunidades de fãs. Muitos dos novos espectadores viram todos os episódios de uma só vez antes da estreia da segunda temporada, que tem sido exibida semanalmente desde janeiro. Segundo Stein, este modelo de lançamento mais tradicional ajudou a prolongar as conversas em torno da série durante vários meses, em vez de gerar um pico de interesse intenso que desaparece ao fim de poucos dias, como acontece frequentemente quando uma temporada completa é disponibilizada de uma só vez nas plataformas de streaming.
"Passámos uma década a habituar-nos à gratificação imediata de poder ver uma série inteira de uma só vez e mergulhar completamente na história, para só depois a analisar e dissecar em detalhe", explica Stein. Agora, os fãs que querem saber mais sobre uma série de que gostam procuram pistas e pequenas informações em todo o lado.
Mas será que os fãs podem ser responsabilizados por isso?
"Os elementos que existem para além da própria narrativa fazem parte da forma como a indústria do entretenimento funciona", explica Bethan Jones, investigadora associada da Universidade de Cardiff especializada no estudo das comunidades de fãs. "Os fãs já estão predispostos a prestar atenção a estes contextos que existem fora da ficção quando acompanham filmes e séries, porque essa lógica está profundamente enraizada na própria indústria."
Séries numa posição semelhante à de "The Pitt" também já foram marcadas por polémicas nos bastidores que ameaçaram ofuscar as histórias contadas no ecrã. Os rumores de desentendimentos entre Ellen Pompeo e Patrick Dempsey acompanharam "Anatomia de Grey" ao longo de grande parte da sua exibição - e continuam a surgir mesmo 11 anos depois da morte da personagem de Dempsey. Ainda assim, o alegado conflito entre ambos terá sido um dos menos polémicos entre os vários relatos de tensões nos bastidores da série. Também a alegada rivalidade entre as protagonistas de "The Good Wife", Julianna Margulies e Archie Panjabi, alimentou especulações durante anos e pareceu ganhar força no episódio final, quando as duas atrizes surgiram numa cena montada a partir de imagens gravadas separadamente.
"Torna-se muito difícil ignorar os acontecimentos e as especulações que surgem fora do ecrã, sobretudo quando esses elementos reforçam ideias que os fãs já tinham sobre Noah Wyle com base na forma como veem a série", afirma Jones.
Se "The Pitt" tivesse sido exibida há 20 anos, provavelmente também teria gerado debates entre fãs - mas não no X, onde qualquer utilizador pode deparar-se, quase por acaso, com publicações incendiárias. Segundo Stein, estas comunidades estavam antigamente confinadas a espaços mais de nicho, como fóruns de discussão ou plataformas dedicadas à publicação de fan fiction. Hoje, as redes sociais alimentam-se deste tipo de debates. Nem sempre beneficia os fãs a proliferação de teorias mirabolantes sobre o rumo da temporada - como a ideia de que “Robby vai morrer!” - mas as plataformas tendem a amplificar esse tipo de conteúdos através dos algoritmos porque estes geram indignação. E uma audiência indignada é, acima de tudo, uma audiência envolvida.
