"Havia censura, não podíamos falar em passageiros!" Como os políticos retiraram 100 km/hora à velocidade do TGV para Madrid
Tabu de Passos Coelho e António Costa baixou a qualidade da linha Lisboa - Elvas, sem qualquer poupança relevante
A Linha de Alta Velocidade Lisboa-Madrid vai ser mais lenta do que o previsto, apenas e só no percurso português. A obra foi anunciada em 2010 pelo governo de José Sócrates, com uma velocidade de projeto de 350 km/hora, que permitiria fazer em 45 minutos o itinerário entre a capital portuguesa e a fronteira. Agora, a linha já só está prevista para comboios até 250 km/hora, o que aumenta o tempo de viagem em 15 minutos.
Tudo começou porque Pedro Passos Coelho fez do “TGV” uma bandeira de combate político ao despesismo e descontrolo das contas públicas de José Sócrates. Chegado ao poder, o então primeiro-ministro social-democrata ficou refém dessa estratégia, proibindo qualquer referência pública à palavra “TGV”. O compromisso assumido por Portugal com Espanha, nos governos de António Guterres e de Durão Barroso, de uma linha para passageiros e mercadorias a ligar as duas capitais foi substituído por uma linha exclusivamente para mercadorias.
Uma linha de mercadorias, construída de raiz, para ligar a uma linha mista do lado de lá da fronteira? Seria caso único na Europa e causou algum embaraço diplomático na cimeira realizada em Lisboa, em 2012, entre o ministro da Economia português, Álvaro Santos Pereira, e a sua homóloga espanhola, Ana Pastor.
O tabu sai caro
Por mais falacioso, o “tabu” continuou nos primeiros anos de poder de António Costa. O governo PS lançou o programa Ferrovia 2020 sem qualquer referência a uma linha para passageiros. Em entrevista ao jornal espanhol ABC, em 2018, o ex-primeiro ministro socialista chegou a dizer que “a palavra TGV vai continuar a ser tabu por muito tempo”. Só no período final de governação, António Costa recuperou o projeto mas nunca emendou o erro da redução de velocidade por razões políticas, sem justificação técnica ou orçamental.
“Quando foi o Ferrovia 2020 tivemos de olhar para o texto várias vezes, para garantir que não aparecia uma única vez a palavra 'passageiros', porque havia censura”, relata Henrique Teles, gestor da Unidade de Planeamento da Capacidade Ferroviária da empresa pública Infraestruturas de Portugal. Numa conferência promovida pelo jornal Transportes & Negócios, este responsável revelou que a solução foi baixar a velocidade de projeto para 250 km/hora.
Enquanto Portugal perdeu anos a fazer política com comboios, Espanha realizou obra. Neste momento já construiu 380 km de linha de alta velocidade entre Madrid a Badajoz, parametrizada para 350 km/hora na maioria da sua extensão. Parte do percurso espanhol já está ao serviço, outra parte encontra-se a receber sistemas de sinalização alinhados pelas normas europeias.
O troço Toledo – Talayuela, de cerca de 57 km, será o último a construir em Espanha. Toda a linha Madrid – Badajoz estará operacional antes do Mundial 2030. Do lado português, as obras da terceira ponte sobre o Tejo, para o comboio sair de Lisboa, e do troço Lisboa - Évora só estão previstas para depois de 2030. O governo espanhol já deixou críticas duras à planificação portuguesa, através do seu alto representante para o projeto.
