A ideia é que o Governo faça um estudo comparativo entre o traçado atual com um outro pela margem a esquerda do Tejo. Segundo Armindo Monteiro é uma opção "mais inteligente, mais óbvia é mais barata”, tendo em conta a localização do novo aeroporto. Análise feita por engenheiros fala em poupança de mais de "dois mil milhões de euros", ainda mais relevante para um "país que não é rico"
A Confederação Empresarial de Portugal - CIP prepara-se para pedir para que a linha de TGV seja alterada. “Defendemos que o traçado ferroviário se faça pelo lado esquerdo do Tejo e não pelo lado direito como está neste momento estabelecido”, uma vez que, entretanto, “foi decidido que o novo aeroporto será em Alcochete”, revelou à CNN Portugal o presidente da CIP, Armindo Monteiro, tomando pela primeira vez esta posição pública. A CIP junta-se assim a um movimento de engenheiros que há alguns meses já vinha a defender esta ideia que parece estar a ganhar cada vez mais força.
Aliás, para esta terça-feira, dia 17 de junho, está agendada uma reunião nas instalações da CIP em que várias personalidades do setor vão assinar um manifesto a pedir que o Governo faça uma análise comparativa entre o traçado em vigor e esta nova opção pela margem esquerda. No encontro, além dos elementos da CIP, vão estar vários engenheiros, incluindo alguns ex-bastonários como Fernando de Almeida Santos ou Carlos Matias Ramos, o atual bastonário dos engenheiros técnicos, José Manuel Soares e representantes máximos da ADFERSIT - a Associação Portuguesa para o Desenvolvimento dos Sistemas Integrados de Transportes, que já assumiu publicamente que também considera que faz mais sentido o TGV ter o traçado pelo lado esquerdo do Tejo. Nesta reunião, para promover o manifesto de mudança do traçado do TGV, estarão também economistas, estando prevista a presença do bastonário António Mendonça.
“Só agora faz sentido apresentarmos esta alternativa para o TGV, porque antes não se sabia onde é que o novo aeroporto de Lisboa iria ser localizado”, esclarece Armindo Monteiro, adiantando que a opção por este traçado alternativo “é claramente mais inteligente, mais óbvia e também mais barata”,
O valor entre uma e outra solução ultrapassa os dois mil milhões de euros, segundo um estudo feito por engenheiros que integram este grupo que, com a CIP, quer pedir a Luís Montenegro que analise esta opção para o TGV. "E para um país como o nosso, é um valor significativo”, frisou o presidente da CIP, considerando: “Este governo constitucional terá a possibilidade, acreditamos nós, de incorporar esta opção” que muda o traçado do TGV.
A CIP e este grupo de engenheiros defendem a mudança do traçado em vigor do TGV entre Lisboa e Porto para a margem esquerda do Tejo. A ADFERSIT chegou, há uns meses, a fazer um comunicado onde avisava “ser imprescindível rever o projeto de traçado da 2.ª fase da linha de Alta Velocidade Ferroviária a partir de Soure, de modo a ter um serviço ao Novo Aeroporto de Lisboa (NAL) mais eficaz, mais atrativo, mais fácil de concretizar e a menor custo”.
As três fases da construção
Neste momento, segundo os planos aprovados pelo último Executivo, o projeto de Alta Velocidade para ligar as duas maiores cidades do país será feito em três fases: a primeira que liga Porto a Oiã (cujo projeto já foi adjudicado), a segunda que vai de Oiã até Soure e a terceira que une esta última ao Carregado. A partir daqui, e segundo o plano em vigor, está definido que o TGV passa a usar a Linha do Norte (que será quadruplicada) para chegar à Estação do Oriente, em Lisboa.
É a partir do segundo troço, precisamente na zona de Soure, que ainda não está adjudicado, que a CIP, a ADFERSIT e o grupo de engenheiros defendem que o traçado tem de ser mudado. “O aeroporto começou por ser na Ota, na margem direita, mas agora que está definitivamente decidido que será no Campo de Tiro de Alcochete, o traçado tem de passar pelo aeroporto, ou seja, pela margem esquerda”, diz João Santos Silva, um dos engenheiros que lidera o grupo, explicando que a opção do lado esquerdo do Tejo “tem vantagens inequívocas em termos de desenvolvimento e de custo sobre o traçado pela margem direita”.
João Santos Silva garante que, com base nos estudos sobre os gastos e a atualização de preços do que irá custar o atual traçado do TGV, esta opção que defendem pouparia mais de "dois mil milhões de euros". “Esta opção pela margem esquerda é mais barata” porque o traçado que está em vigor é feito sobre um terreno com “uma orografia mais pesada, mais agressiva, com mais população, exigindo mais expropriações e mais transposições na linha”. Por isso, acrescenta, o atual traçado vai obrigar a “mais viadutos e túneis”, o que, diz, encarece o preço.
Toda esta mudança de traçado levará a que algumas cidades percam o acesso direto ao TGV que lhes é dado pelo plano em vigor, mas outras localidades serão beneficiadas. Segundo João Santos Silva, esta nova solução poderá fazer com que Santarém tenha uma estação para o TGV. Além disso, nota, permitirá uma ligação “à linha do Oeste”.
Também a zona de Fátima passará a ter o TGV à porta, sublinha por seu lado Armindo Monteiro. “É uma possibilidade muito significativa de viabilização deste corredor ferroviário de alta velocidade que se possa incorporar o trajeto de deslocação das pessoas que se deslocam a Fátima”, um local de grande movimentação no país, diz.
O objetivo deste grupo que defende a mudança no TGV é que o novo Governo avance para um estudo de comparação entre as duas opções como fez para o Novo Aeroporto de Lisboa (NAL). Segundo João Santos Silva, é urgente que se faça um estudo de avaliação e comparação com “o nível de incidências ambientais, custos e desenvolvimento”, entre outros aspetos. Um trabalho que, segundo diz, poderia estar feito no final do ano. “E temos tempo, pois o concurso do segundo troço do TGV ainda não foi lançado”, explica o engenheiro, adiantando que esta proposta de traçado alternativa chegou a ser apresentada ao anterior ministro das Infraestruturas e da Habitação, Miguel Pinto Luz. Agora aguardam pela posse do novo Executivo.
“Aquilo que agora estamos a solicitar é que se estude e se impeça de se cometer algum risco, algum prejuízo financeiro para o erário público, porque o investimento é avultado e o país não é um país rico”, diz Armindo Monteiro, concluindo: “Portugal não é um país próspero, os erros são caros, e por isso parece-nos que ainda vamos muito a tempo de considerar esta alternativa”.
IP defende traçado atual
No entanto, segundo fonte da Infraestruturas de Portugal - IP, empresa que gere a Rede Ferroviária da Linha de Alta Velocidade, não está em cima da mesa qualquer hipótese de mudança do traçado. Na base desta posição, explica aquela fonte, está o facto de se considerar internamente que a opção em vigor é a que faz mais sentido ao país por permitir que a ligação de TGV entre Lisboa e Porto seja feita mais cedo sem ter de se esperar pelo novo aeroporto em Alcochete.
Isto porque, o projeto atual do TGV prevê que, a partir da zona do Carregado até á capital, não se faça uma linha totalmente nova, mas se aproveite a linha do Norte que está a ser reforçada, ou seja, quadruplicada. Esta situação, segundo a IP, permite que ainda antes de se ter o NAL operacional, se consiga ligar as duas principais cidades em pouco mais de uma hora e quinze minutos.
Por outro lado, o projeto da IP, explica a mesma fonte, define que quando existir o aeroporto em Alcochete, seja feita então uma pequena ponte na zona do Carregado para a margem esquerda que seguirá num novo troço até ao NAL. Ou seja, a IP alega que o país ficará com duas soluções de alta velocidade: uma que liga diretamente Lisboa ao Porto, pela margem direita e outra do Porto ao Carregado, passando depois para a margem esquerda, descendo até ao aeroporto e seguindo para Lisboa pela Terceira Travessia do Tejo - outra das grandes obras públicas prevista para o país.