Debaixo de mesas e fingindo-se de mortos com sangue na roupa. Como as crianças daquela sala sobreviveram ao massacre no Texas

27 mai, 10:56

Dentro da sala onde tudo aconteceu também houve sobreviventes. Houve quem se tivesse escondido debaixo de toalhas de mesa, e até quem tivesse espalhado sangue na própria roupa para enganar o atirador

Escondidos debaixo de mesas, fingindo estar mortos ao espalharem sangue na roupa… foram várias as formas que as crianças que sobreviveram ao ataque na escola primária de Uvalde, Texas, encontraram para sair do local com vida. Salvador Ramos matou, na terça-feira, 19 dos seus colegas e as suas duas professoras.

Miah Cerillo, de 11 anos, foi uma das crianças que sobreviveu, ainda que tenha ficado ferida com fragmentos de bala nas costas. Já saiu do hospital, e o sangue frio que teve na altura do ataque foi decisivo para sobreviver. De acordo com o relato da tia da menina à ABC, a criança manchou as suas roupas de sangue, fingindo-se depois de morta. Terá sido essa a razão que levou a que não fosse uma das vítimas mortais de Salvador Ramos, que montou o cenário de terror durante cerca de uma hora numa sala apenas.

“Com todo o sangue nas roupas, isso significa que ela queria sobreviver. Ela fez o que tinha de fazer para sobreviver, fez-se de morta”, afirmou Blanca Rivera.

A tia da menina sabe que nada vai ser igual daqui para a frente, e que a tragédia deixou a sobrinha doente, com problemas de sono.

Ao The Washington Post, o pai da menina revelou que já só teve tempo de ver a filha a sair do local coberta de sangue: “Entrei em pânico”, disse. A menina disse a Miguel Cerrillo que se tinha manchado de sangue e fingido de morta para que o atirador não a alvejasse. Pelo meio, tentou proteger uma colega, que tinha sido baleada, deitando-se em cima dela. Essa criança acabou por morrer antes de a polícia chegar.

Miah contou ainda ao pai que viu uma das professoras, Eva Mireles, ser morta quando tentava chegar ao telefone para chamar ajuda.

A primeira noite após o ataque foi de medo. O pai de Miah conta que a criança lhe pediu para ir buscar a arma porque “ele vai apanhar-nos”. A criança vai continuar a ser acompanhada psicologicamente.

O mesmo vai ter de fazer Aubree Gonzales, menina de oito anos que se escondeu debaixo da secretária de outra sala de aula enquanto o tiroteio decorria. A mãe, Amber Gonzales, admitiu ao LA Times que a criança está “aterrorizada por ter de ir a qualquer lado” sem os pais: “Ela não consegue dormir. Está com medo de tomar banho sozinha. Até tem medo de ver um filme sozinha. Coloquei-a na cama ontem e ela disse-me que tinha a sensação de que alguém estava a olhar para ela. Está realmente abalada”.

A criança contou à mãe que, enquanto o massacre decorria, uma mulher bateu à porta da sala pedindo que a deixassem entrar. A professora de Aubree não pôde abrir a porta, por causa dos protocolos da escola. A menina não sabe se a mulher era uma das duas professoras mortas.

"É hora de morrer". As palavras de Salvador Ramos para as crianças

Dentro da sala onde tudo aconteceu estava outro menino do quarto ano, que pediu para não ser identificado, e que falou a uma televisão de San Antonio. A criança conta que, assim que apareceu, o atirador disse “é hora de morrer”.

“Quando ouvi os tiros, disse ao meu amigo para se esconder debaixo de alguma coisa para ele não nos encontrar”, revelou a criança.

O rapaz, em conjunto com o amigo e três outros alunos, conseguiu esconder-se entre uma mesa e um pano que a cobria, ao mesmo tempo que ouvia os seus colegas e professoras a morrerem: “Elas eram boas professoras. Colocaram-se à frente dos meus colegas para os ajudar. Para os salvar”, contou, falando sobre Eva Garcia e Irma Mireles.

Longe da vista do atirador, os cinco rapazes ouviram alguém ser baleado depois de gritar por ajuda. O menino explicou que a polícia entrou na escola e pediu que gritassem se precisassem de ajuda: “Uma das pessoas da minha turma gritou ‘ajuda’. O homem ouviu, veio, e baleou-a”, recordou, não se sabendo se a pessoa em causa acabou por morrer ou não.

A polícia abriu depois a porta, Salvador Ramos disparou contra os agentes, mas acabou abatido. Assim que ouviu o fim dos disparos, a criança levantou a cortina e colocou a mão de fora: "Depois saí com o meu amigo. Sabia que era a polícia, vi o colete e o escudo".

Kendall Olivarez também estava na sala onde tudo aconteceu. A menina de nove anos sobreviveu, mas levou dois tiros, um deles no braço, e teve de ser operada mal chegou ao hospital. A tia da menina está a coordenar uma ação tendo em vista a recolha de donativos.

As crianças "treinaram para este dia vários anos"

Também Adam Pennington estava noutra sala da escola. Em declarações ao LA Times, o menino de oito anos contou que estava no gabinete do diretor mesmo antes do início da tragédia. Ouviu o diretor receber uma chamada, e um homem do outro lado a dizer que alguém se aproximava com uma arma.

Escondeu-se debaixo de uma mesa, com outros colegas, antes de fugirem para outras salas. Refugiaram-se no auditório, até atrás de cortinas, e acabaram por conseguir sair ilesos.

A mãe, Laura Pennington, elogia a atuação das autoridades, mas admite que está a pensar tirar o filho da escola.

Uma professora que estava na escola à altura do ataque, e que falou à NBC News sob condição de anonimato, afirmou que os seus alunos fizeram tudo como lhes foi pedido, dizendo mesmo que "eles estavam a treinar para este dia há vários anos".

"Sabiam que não era apenas um exercício. Sabíamos que tinhamos de ficar quietos, ou acabavámos por nos entregarmos", acrescentou.

Relacionados

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Europa

Mais Europa

Patrocinados