Massacre no Texas: é possível prevenir um ataque deste tipo? Como e quem o pode fazer?

25 mai, 22:00
Tiroteio em escola do Texas (CNN)

O massacre numa escola primária do Texas chocou o mundo, mas ataques deste género podem ser prevenidos. Especialistas em criminalidade e segurança explicam como as autoridades monitorizam os movimentos na Internet e uma psicóloga revela como o lado psicológico e emocional tem também uma grande influência

Antes de ter matado 19 crianças e dois adultos numa escola primária, Salvador Ramos partilhou uma série de mensagens privadas no Facebook em que anunciava o massacre. Mas esta não foi a primeira vez que o jovem de 18 anos fez partilhas inquietantes através das redes sociais. O atirador já teria mostrado as armas que comprou no aniversário na rede social Instagram, através da ferramenta “histórias”, na qual os conteúdos estão disponíveis durante 24 horas.

As autoridades falharam na monitorização destes sinais? José Manuel Anes, ex-presidente do Conselho Consultivo do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), é perentório. “É um falhanço do FBI”. José Manuel Anes explica à CNN Portugal que o FBI “tem metade dos efetivos dedicados ao terrorismo doméstico” para monitorizar este tipo de sinais nas redes sociais. E a partir do momento em que há imagens ou mensagens que podem constituir alertas, os indivíduos começam a ser seguidos.  

O especialista em cibersegurança Nuno Matos Coelho destaca que, além de o FBI estar presente no “fórum público”, com agentes infiltrados nas mais diversas páginas e grupos das redes sociais, também a ‘homeland security’ faz a monitorização dos conteúdos divulgados para lá destas camadas superficiais da Internet, o que inclui a chamada ‘dark web’, que não pode ser acedida através de browsers tradicionais e que é o terreno preferido para atividades ilegais e criminosas.

O que é que falhou então? Nuno Matos Coelho fala numa “falta de foco” das autoridades americanas para as questões relacionadas com as armas porque “não são um tema de segurança interna" e lembra que ainda há poucos meses foram os agentes federais americanos que alertaram as autoridades portuguesas para um ataque terrorista iminente numa faculdade de Lisboa.

"Se o FBI detetou em Portugal, do outro lado do Altântico, um jovem com alguns distúrbios, isto faz com que de certo de modo estejam mais atentos ao que se passa fora do que ao que se passa dentro de casa."

Por outro lado, o Facebook pode ter uma quota de responsabilidade na prevenção do ataque: se é certo que as fotografias das armas podem ser consideradas banais, o mesmo não se pode dizer das mensagens partilhadas antes do massacre: "Vou balear a minha avó", "Eu atirei sobre a minha avó", "Vou disparar numa escola primária". Nuno Matos Coelho lembra que a plataforma dispõe de “algoritmos” que conseguem detetar mensagens que “atentam contra a vida humana” mesmo em caixas de mensagens privadas.

“O Facebook dispõe destas tecnologias. Dispõe de algoritmos para analisar o texto, sendo que, quando atenta contra a vida humana, devem alertar as autoridades. Mesmo nos grupos fechados os algoritmos estão a funcionar”, sublinha o especialista.

Como se evitam estes ataques?

José Manuel Anes não poupa nas palavras: nos EUA, a compra de armas "é um cancro". "Quer no caso de indivíduos com perturbações mentais, quer no caso dos fanáticos extremistas, eles compram armas com facilidades, isto não pode acontecer". Em Portugal, a possibilidade de um massacre deste género ser replicado é improvável, desde logo porque a legislação quanto ao porte de armas é muito diferente e mais restrita do que a que existe nos EUA. Feita esta ressalva, a verdade é que as autoridades também estão atentas a todo o tipo de movimentos na Internet. “A PJ, com a sua Unidade Nacional de Contraterrorismo, tanto para o crime organizado como para o terrorismo, e também o Serviço de Informações de Segurança (SIS) que fazem análises e relatórios”, especifica José Manuel Anes. Ainda assim, o especialista alerta que Portugal precisa de ter "mais gente a investigar estas questões na web superficial e na dark web e software apropriado" para o efeito. 

Na mesma linha, Nuno Matos Coelho vinca que em Portugal "não há tecnologia capaz de analisar todo o espectro da web ao momento", mas há profissionais "atentos, que comunicam com as autoridades". Há no entanto uma componente que não pode ser descurada: "O policiamento de pares".

"Somos todos nós que temos de achar um post estranho, fazer um 'print screen' [captura de ecrã], alertar as autoridades. Uma espécie de policiamento de bairro na Internet", frisa.

O bullying na raiz do ataque? Os sinais a que os pais devem estar atentos

O lado psicológico e emocional é também uma peça-chave na prevenção. Salvador Ramos terá sofrido bullying na escola e era agora descrito como um jovem reservado, com poucos amigos. A psicóloga Melanie Tavares explica à CNN Portugal que "muitas vezes, as vitimas de bullying tornam-se eles próprios os agressores numa tentativa de expôr a sua raiva, de expiar a sua raiva perante os outros que o fizeram sofrer". Por isso, é fundamental estar atento aos sinais de bullying enquanto estas crianças ou adolescentes são ainda vítimas, combatendo o sofrimento na raiz. 

"O sinal mais evidente é a fobia escolar. Um grande sofrimento na véspera de ir para a escola ao domingo ou quando as aulas têm interrupções e depois voltam e eles muitas vezes têm doenças psicossomáticas como dores de barriga, dores de cabeça, dificuldades com o sono, uma grande resistência em voltar à escola", vinca a psicóloga. 

Há ainda outros fatores aos quais a família, e sobretudo os pais, devem estar atentos: "o isolamento, a dificuldade em ter amigos, a dificuldade com o sono, com muitos pesadelos, com muitos terrores noturnos, o evitar que os pais organizem qualquer coisa que implique colegas da escola".

Melanie Tavares sublinha ainda que é importante que estes jovens sintam que "podem falar daquilo que sentem" sem a percpeção de que estão descontextualizados. É necessário dar liberdade à criança ou ao adolescente também para "expôr as suas dúvidas e as suas angústias porque muitas vezes muitos dos medos estão relacionados com mal-entendidos que a criança vai construindo numa fantasia e em que vive, em permanente angústia", refere. "Se houver uma boa comunicação com os pais, é muito mais fácil minimizar o impacto destas coisas", conclui. 

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