A nação mais poderosa do mundo não consegue garantir a segurança das crianças nas salas de aula

CNN , Análise por Stephen Collinson, CNN
27 mai, 23:11
Acendem-se velas num memorial dedicado às 19 crianças e às duas professoras assassinadas por um atirador de 18 anos na Escola Primária Robb

"Seria difícil encontrar um falhanço mais rotundo do Governo norte-americano", considera Stephen Collinson da CNN Internacional, após o massacre que vitimou 21 pessoas numa escola do Texas.

Não é que a América não consiga travar os sucessivos e sangrentos homicídios em massa, mas falta coesão nacional e vontade comum para o fazer.

O massacre na escola primária do Texas veio expor que a nação mais poderosa do mundo nem sequer consegue garantir que a sua população mais vulnerável - as crianças – não morra violentamente na escola. Seria difícil encontrar um falhanço mais rotundo do Governo norte-americano.

Uma profunda alienação política e cultural relativamente à questão das armas, causada principalmente pelo bloqueio da direita aos esforços envidados por democratas e republicanos moderados para aprovar sequer as mais modestas medidas de segurança, está novamente em ebulição, na sequência do tiroteio desta terça-feira.

Os homicídios em massa são uma terrível constante na vida quotidiana norte-americana, mas a mais recente carnificina num recinto escolar, que vitimou 19 crianças e duas professoras, foi especialmente devastadora. Veio reacender o pavor que milhões de pais norte-americanos sentem ao deixar os filhos na escola. E irá marcar ainda mais uma geração de estudantes assombrada pelo medo perpétuo de massacres em escolas.

O massacre em Uvalde, no Texas, foi de tal modo horrível que até o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, cuja nação tem sofrido terríveis atrocidades e crimes de guerra desde a invasão russa, sentiu necessidade de manifestar o seu choque e de enviar condolências.

Num momento de inquietação nacional, a fraturada política norte-americana está previsivelmente a ficar aquém e a não conseguir ultrapassar as maldições da ambição política pessoal e do impasse político.

Sucedem-se os rituais familiares e inúteis habituais após tiroteios em massa: os “pensamentos e orações" para as vítimas, os apelos dos democratas para mais medidas de segurança relativamente às armas e as negações por parte dos republicanos, que alegam que tais homicídios são inevitáveis numa sociedade onde abundam armas de fogo letais.

Mas o massacre, cometido por um jovem de 18 anos que comprou legalmente uma espingarda semiautomática num estado onde foi considerado demasiado imaturo para comprar uma cerveja, está a expor como nunca antes a inércia política no que toca a pôr termo aos sucessivos homicídios em massa.

As pessoas estranharam quando, após um massacre semelhante na Escola Primária Sandy Hook, em Newton, no Connecticut, nem a morte de crianças de 6 e 7 anos numa sala de aula serviu para desencadear uma reforma à legislação relativa às armas de fogo.

Hoje em dia, ninguém faria tal comentário. Uma década sangrenta deixou a política nacional mais selvagem e dividida, e ainda menos capaz de fazer as cedências necessárias para salvar vidas. As forças conservadoras e o obstrucionismo do Senado norte-americano travaram múltiplas tentativas de revisão das leis que regulamentam as armas, que teriam seguramente salvado algumas vidas - apesar de um recente monopólio dos democratas nas instituições eleitas em Washington. Tiroteios regulares, como o massacre num festival de música em Las Vegas, em 2017, ou o tiroteio no liceu de Parkland, na Florida, suscitaram indignação e apelos para que algo seja alterado, mas não conseguiram quebrar a inércia da política norte-americana.

Na realidade, a vontade de agir parece estar a caminhar na direção oposta. A influência da direita nesta questão poderá vir a ser ainda mais realçada se o Supremo Tribunal, de maioria conservadora, aliviar ainda mais a legislação das armas de fogo num importante processo judicial relativo à Segunda Emenda atualmente em apreciação.

O confronto político no Texas ilustra a divisão nacional

Na noite de terça-feira, o presidente Joe Biden regressou de uma viagem à Ásia que começou logo após um tiroteio em massa em Buffalo, Nova Iorque, e terminou com notícias de um massacre no Texas a chegar ao Air Force One. “Porque continuamos a permitir que isto aconteça?”, perguntou Biden.

A resposta a esta pergunta angustiante surgiu durante um confronto aceso no Texas, na quarta-feira, entre o candidato a governador Beto O’Rourke e o governador republicano Greg Abbott. 

O’Rourke levantou-se e interrompeu uma conferência de imprensa sobre o tiroteio dada por Abbott e outros representantes e líderes eleitos do Texas.

"A responsabilidade é vossa, enquanto não agirem de outra forma", disse O'Rourke ao governador, que tem bloqueado entusiasticamente as leis relativas às armas de fogo e que o candidato tentará vencer nas eleições de novembro.

Entretanto, Abbott fugiu à questão do número recorde de homicídios em massa no seu estado recorrendo a um ataque familiar e de contornos racistas contra Chicago, dizendo que tal recorde demonstra que leis rigorosas relativa às armas rigorosas não resultam (os representantes políticos de Chicago responderam apontando o dedo às armas importadas de estados com leis demasiado permissivas).

A troca de galhardetes veio expor o enorme fosso existente entre republicanos e democratas no que diz respeito às armas de fogo - que tornou impossíveis até mesmo as mais pequenas propostas de alteração da legislação apoiadas pela opinião pública. A atitude de O'Rourke pode ser vista como uma manobra publicitário pelos representantes políticos republicanos (o autarca republicano de Uvalde, Don McLaughlin, chamou-lhe “filho da mãe doentio”, por exemplo), mas reflete o desespero dos democratas relativamente à inação do partido em decretar medidas de segurança relativas ao uso de armas de fogo através de meios legislativos - devido à obstrução do Partido Republicano no Congresso e à falta de vontade de alguns membros do próprio partido para alterar as regras do Senado.

Líderes republicanos como Abbott ainda não enfrentaram a possibilidade politicamente amarga de que aliviar as leis relativas às armas para proveito político junto do seu eleitorado pode fazer com que massacres como estes sejam mais prováveis.

O tiroteio na escola do Texas veio realçar, mais uma vez, que a primeira reação dos conservadores a um homicídio em massa é apelar a mais armas - guardas armados nas escolas, por exemplo, ou até mesmo professores.

A Segunda Emenda tem sido usada por políticos como Trump como uma ferramenta na narrativa mais ampla que alega que as elites costeiras, racialmente diversas e liberais querem expurgar a vida e a cultura tradicionais da “América Branca”. O resultado é que não existe futuro para nenhum republicano que desafie esta ortodoxia.

Parte da tragédia aqui é que a grande maioria dos proprietários de armas nos Estados Unidos obedecem à lei e apenas uma pequena fração se envolve em tiroteios. Muitos veem o possuir uma arma como um rito de passagem fundamental. E a veia intrinsecamente individualista do país faz com que se dê menos atenção ao bem coletivo, como pode acontecer numa sociedade europeia desenvolvida, por exemplo.

Mas há pouca discussão no seio do partido republicano sobre o que acontece quando o exercício lato de tais direitos entra em conflito com os direitos fundamentais e inalienáveis de terceiros. Por exemplo, o que é mais importante: o desejo de um portador de armas de comprar uma arma de alta potência que seria apropriada para um campo de batalha, ou o direito que um estudante de 6 anos tem de continuar vivo e ir para a escola sem medo?

Politizar o massacre

Os republicanos têm sempre tendência para tentar abafar a questão das reformas das leis que regulam as armas após tiroteios em massa, dizendo que o aproveitamento político é uma falta de respeito para com as vítimas, mas só isso já constitui um ato político.

“Vemos políticos a tentar politizar esta questão, vemos democratas e muitas pessoas nos meios de comunicação social cuja solução imediata é tentar restringir os direitos constitucionais de cidadãos que respeitam a lei. Isso não resulta, não é eficaz e não impede que se cometam crimes", disse na terça-feira o senador republicano do Texas Ted Cruz.

Na quarta-feira, os republicanos adotaram uma atitude surpreendentemente derrotista ao afirmarem que era inútil tentar travar os massacres.

O partido passou anos sob o jugo do lóbi das armas e de candidatos como o ex-presidente Donald Trump, que informou incorretamente a sua base eleitoral de que qualquer forma de revisão legislativa limitada iria envolver a apreensão das suas armas.

"Ao fim e ao cabo, estão a discutir-se as armas utilizadas, e a verdade é que estas pessoas vão cometer estes crimes horrorosos mesmo que tenham de usar outra arma e vão arranjar uma forma de o fazer", disse o senador da Florida Marco Rubio.

Entretanto, Rick Scott, o segundo senador republicano pela Florida, disse à CNN que proibir a AR-15, a arma de disparo rápido utilizada pelo atirador do Texas, seria um erro: "Penso que os direitos consagrados pela Segunda Emenda estão na nossa Constituição e que não se devem retirar direitos a cidadãos que respeitam a lei".

Embora a Constituição preveja o direito ao porte de armas, nada no documento diz que os norte-americanos estão autorizados a utilizar armas de guerra modernas e letais.

Até mesmo o falecido juiz do Supremo Tribunal Antonin Scalia, um ícone conservador, num parecer histórico que consolidou o direito individual ao porte de armas, afirmou que este não se tratava de um direito de “possuir e andar com qualquer arma, de qualquer maneira e para qualquer finalidade".

O senador da Carolina do Sul Lindsey Graham, um republicano extremamente aguerrido no que toca a vingar ameaças externas feitas aos norte-americanos, adotou a posição passiva de que Washington nada pode fazer para travar os homicídios em massa.

"Este homem não tinha cadastro e deu um tiro no rosto da avó, tendo comprado a arma de forma legal," disse o senador. "Não estou a ver nenhuma lei que pudesse ter impedido este tiroteio em concreto."

Graham ignorou várias soluções possíveis ao massacre do Texas, como a proibição de venda de armas a menores de 21 anos ou a restauração de uma lei caducada que proibia armas de assalto, o que poderia vir a evitar futuras tragédias.

Mas o comentário do senador veio enfocar o campo de visão profundamente limitado e o debate contido a que os republicanos, por razões políticas, se permitem em alturas como estas.

Não é de admirar que o senador democrata do Arizona, Mark Kelly, cuja mulher, a ex-representante Gabrielle Giffords, ficou gravemente ferida após ser baleada na cabeça em 2011, tenha dito isto na quarta-feira: “É completamente de loucos não fazer nada quanto a isto, caramba!”.

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