As últimas palavras de Julian Ryan para a mãe, quando as águas das cheias rapidamente engoliram a sua caravana, foram simplesmente: “Amo-te”.
Ele tinha tomado a decisão, numa fração de segundo, de enfiar o braço através de uma janela para ajudar a noiva, os dois filhos pequenos e a mãe a escaparem à inundação catastrófica que se abateu sobre o condado de Kerr, no Texas, engolindo tudo o que encontrava pelo caminho.
Esse último esforço, um ato de bravura, acabou por lhe custar a vida. O vidro tinha-lhe cortado uma artéria no braço.
A mãe de Ryan segurou-o enquanto ele sangrava e dava o seu último suspiro, contou a irmã, Connie Salas, à CNN.
“Ele morreu como um herói”, afirmou Salas.
Nas horas de escuridão total e de tempestade que antecederam a madrugada de sexta-feira, as águas das cheias devastaram inesperadamente a região, incluindo um parque de campismo cheio de crianças a dormir. Quatro meses de chuva caíram em apenas algumas horas e o rio Guadalupe, nas proximidades, subiu mais de 6 metros, varrendo casas, carros, campistas e cabanas rio abaixo.
Quando o sol nasceu e a tempestade amainou, o peso total do desastre tornou-se visível. Centenas de pessoas estavam desaparecidas, incluindo mais de duas dúzias de raparigas num acampamento de verão, e à medida que os minutos se transformavam em horas, a esperança deu lugar à tristeza.
Pelo menos 82 pessoas, incluindo 28 crianças, morreram nas catastróficas cheias do Texas e o número de mortos continua a aumentar, de acordo com as autoridades locais. O corpo de Ryan só foi recuperado quando as águas baixaram, de acordo com a KHOU, filial da CNN.
Agora, a família de Ryan e a sua comunidade texana, de coração partido, estão a avaliar a profundidade da tragédia - e a procurar respostas.
Eis o que sabemos sobre as vítimas.
Um pai de dois filhos e o seu último ato heroico
Tinha sido um turno exaustivo para Ryan. O lavador de pratos de 27 anos tinha acabado de trabalhar num restaurante local antes de regressar a casa, em Ingram, no Texas, segundo o The New York Times.
Estava finalmente a dormir quando as águas da inundação se abateram sobre a sua caravana.
Numa questão de segundos, a porta da frente cedeu, aberta pela força do rio. Ryan e a noiva, com a água a subir até ao peito, colocaram o filho de 13 meses e o de 6 anos nos colchões, que estavam a flutuar, para os manter acima da inundação.
Mas a água continuava a subir. A porta do quarto, bem fechada pela pressão do outro lado, não se mexia.
Naqueles momentos de terror, Ryan partiu uma janela numa última tentativa de tirar a família de lá. O vidro rasgou-lhe o braço, deixando-o gravemente ferido, segundo a sua noiva Christinia Wilson.
Christinia acrescentou que o vidro quase lhe cortou o braço por inteiro.
Depois de várias chamadas para o 112 não terem sido atendidas, Ryan olhou para eles, contou, e disse-lhes: "'Desculpem, não vou conseguir. Adoro-vos a todos".
A irmã, que vivia a poucos passos dele e também perdeu a casa, disse à CNN que não houve aviso nem tempo para atuar. Foi emitido um aviso de emergência de cheias repentinas para o condado de Kerr às 4h03 da manhã, cerca de uma hora antes de o furioso rio Guadalupe ter transbordado das suas margens. Os avisos noturnos limitaram quem os podia ver - e a rapidez com que se podiam deslocar para terrenos mais altos.
“Não tivemos tempo para nos salvarmos fisicamente”, afirmou Salas. “As nossas últimas palavras foram: ‘Tenho medo’”, contou. “E ele disse: ‘Eu também’.”
A família está dominada pela dor e a lutar para lidar com a situação, conta Salas, especialmente a mãe, que esteve presente nos últimos momentos de Ryan e o viu dar o último suspiro.
“Enquanto eles estavam literalmente em pânico e prestes a afogar-se, a minha mãe ainda estava a segurar o filho e ele olhou para ela e disse: ‘Amo-te’”, disse Salas. “Por isso, a minha mãe tem o desgosto de olhar para o filho e dizer-lhe adeus, segurando-o enquanto ele dá o último suspiro.”
Salas diz que a família se sente como se estivesse presa num pesadelo do qual não consegue acordar; uma realidade em que Ryan nunca mais entrará pela porta “e será a pessoa engraçada que ele é”.
No Camp Mystic
À direita: A família de Renee Smajstrla, campista do Camp Mystic, informou a CNN da sua morte (Shawn Salta)
No Camp Mystic, a inundação gigantesca parece ter arrancado a parede de pelo menos um edifício e deixado uma cabana coberta de terra e lama, com colchões de raparigas espalhados pelo chão, como mostram as fotografias da devastação. O governador do Texas, Greg Abbott, disse que o campo estava “terrivelmente devastado”. Ficou chocado, referiu, com o facto de a água a correr ter atingido o topo das cabanas.
As famílias de pelo menos quatro campistas confirmaram as suas mortes à CNN, enquanto outras ainda estão à espera de notícias sobre os seus filhos. Dez campistas e um monitor ainda estão desaparecidos do Camp Mystic, um acampamento cristão só para raparigas perto do rio Guadalupe que acolhe cerca de 750 crianças.
Renee Smajstrla, a campista de 8 anos do Camp Mystic que desapareceu durante as inundações torrenciais no condado de Kerr, Texas, morreu, confirmou a família à CNN.
“É verdadeiramente devastador”, afirmou Shawn Salta, tio de Smajstrla, à CNN.
Salta disse que o corpo da sobrinha foi recuperado na sexta-feira.
A mãe da campista desaparecida de Camp Mystic, Janie Hunt, 9 anos, disse à CNN numa mensagem na manhã de sábado que a sua filha tinha “ morrido”.
Após as inundações catastróficas que atingiram o condado de Kerr, no Texas, na sexta-feira, Anne Hunt disse à CNN que “estamos apenas a rezar” pelo seu regresso.
As famílias de Sarah Marsh e Lila Bonner, duas raparigas que desapareceram do Camp Mystic na sexta-feira de manhã, confirmaram à CNN que ambas morreram.
Num post no Facebook, a senadora do Alabama Katie Britt disse estar “de coração partido” com a perda de Sarah Marsh.
“Estamos a manter a família dela nos nossos pensamentos e orações durante este período inimaginável”, afirmou Britt.
“No meio da nossa dor inimaginável, pedimos privacidade e não podemos confirmar quaisquer detalhes neste momento”, declarou a família Bonner num comunicado. “Estamos a sofrer com todos os que a amavam e estamos a rezar incessantemente para que outros sejam poupados a esta perda trágica.”
Irmãs de 11 e 13 anos
Blair e Brooke Harber, irmãs de 13 e 11 anos, desapareceram durante as cheias juntamente com os avós. O pai das Harber confirmou à CNN no sábado que as filhas tinham morrido.
“A Blair era uma aluna dotada e tinha um coração generoso e bondoso”, afirmou RJ Harber. “Brooke era como uma luz em qualquer sala, as pessoas gravitavam em torno dela e ela fazia-os rir e aproveitar o momento”.
Os seus pais, Charlene e Mike Harber, ainda estão desaparecidos, mas RJ acredita que o casal também já faleceu.
Diretora do acampamento para raparigas
Jane Ragsdale era o “coração e a alma” de Heart O' the Hills, de acordo com o website do campo.
Coproprietária e diretora do campo, Ragsdale morreu durante as cheias. Influenciou “inúmeras vidas e era a definição de forte e poderosa”, afirma o acampamento.
O acampamento feminino, situado ao longo do rio Guadalupe, não estava em funcionamento na altura das cheias e “a maioria dos que estavam no acampamento na altura foram contabilizados e estão em terreno elevado”, de acordo com um anúncio do acampamento.
Um vídeo do mês passado mostra Ragsdale a tocar guitarra e a cantar com os campistas. Ragsdale canta a canção “Let There Always Be A Song”.
Quando se canta, diz-se: “A vida é boa hoje”, “Por isso, continua a cantar até nos encontrarmos de novo”.
Treinador de futebol do liceu e a mulher
Reece Zunker não era apenas um treinador de futebol. O treinador principal da equipa de futebol masculino da Tivy High School era “um mentor, um professor e um modelo a seguir”, afirmou a equipa no Facebook.
Acrescentaram que estavam de luto “pela perda do nosso líder e inspiração”.
Zunker morreu na tragédia das inundações deste fim de semana, revelou a sobrinha à CNN. Mackenzey Zunker disse que o pai dela identificou o corpo do tio no sábado à noite.
Paula Zunker, a esposa de Reece, também morreu, de acordo com a declaração da equipa de futebol e um post da prima de Recce Zunker, Haley Furlough.
Os dois filhos do casal ainda não foram encontrados, escreveu Furlough.
Uma avó carinhosa
Katheryn Eads, outra vítima das cheias no Texas, “viveu uma vida plena, demasiado curta”, declarou a filha Victoria Eads à CNN numa declaração familiar.
“Ela era uma esposa, filha, mãe, avó e pessoa incrível que passou a vida a ajudar crianças”, acrescentou o comunicado.
Eads ajudou crianças no sistema de acolhimento familiar no início da sua carreira e continuou como psicóloga e professora universitária, contou a filha à CNN.
“Tentar descobrir as nossas vidas sem ela é uma possibilidade que nunca planeámos enfrentar e teremos sempre saudades dela”.
Sarah Dewberry, Julianna Bragg e Diego Mendoza, da CNN, contribuíram para esta reportagem.