Este paciente submeteu-se a vários meses de testes. Os primeiros resultados são animadores, mas ainda são necessários estudos adicionais para perceber o potencial desta tecnologia, que pode mudar a vida de "milhões de pessoas"
Sentir a mão da irmã ou o pelo do cão da família, gestos simples, mas que representam grandes avanços para Keith Thomas, que ficou tetraplégico depois de um acidente na piscina há seis anos.
Este homem consegue agora mexer os braços e as mãos, tudo graças a uma “dupla ponte neural” e a meses de treino. O implante cerebral contorna a lesão na medula espinal, permitindo-lhe alimentar-se e beber de um copo.
Além disso, a tecnologia envia sinais de volta para o cérebro, recriando a sensação do tato – ou seja, há uma reconfiguração parcial do sistema nervoso. No caso deste paciente, foi mesmo possível manusear coisas delicadas, como cascas de ovos.
Keith Thomas vive em Massapequa, Nova Iorque. Em 2021, aceitou testar a tecnologia, o que implicou implantar elétrodos no cérebro.
“É um momento incrível”, reage Chad Bouton dos Feinstein Institutes for Medical Research, que desenvolveram a tecnologia, citado pelo The Guardian.
“Há anos que queríamos abordar a recuperação do movimento e do tato, unindo os dois aspetos e criando efeitos duradouros”, acrescenta, antecipando que, com o avançar da investigação, esta solução poderá chegar a “milhões de pessoas em todo o mundo”.
Como funciona
Keith Thomas tinha 42 anos quando partiu o pescoço ao mergulhar numa piscina. Foi em julho de 2020. Quando recuperou a consciência, havia um helicóptero no jardim da casa para o levar para o hospital. “No dia seguinte não me conseguia mexer”, recorda.
O homem acabaria por aceitar, em outubro de 2021, participar num ensaio clínico de três anos para a “dupla ponte neural”. E como é que ela funciona?
São utilizados os elétrodos implantados no cérebro para detetar quando o paciente quer mover os braços. O cérebro envia depois sinais para os braços e mãos, para que se possam mexer.
Em simultâneo, os sensores de pressão na mão e dedos detetam o contacto com objetos, enviando sinais de volta para o cérebro, simulando a sensação de tato. Fica, assim, o circuito completo: o cérebro solicita o movimento, executa-o e sente o resultado.
Aprofundar a investigação
O progresso de Keith Thomas ao longo de 35 semanas de treino é descrito num artigo publicado esta semana na Nature Medicine,
Se a força no braço esquerdo aumentou 62%, no braço direito atingiu os 86%. No início do estudo, o paciente não conseguia levar as mãos à cara. Agora coça o nariz e limpa o rosto sozinho, indicam os investigadores.
Para melhorar a sensibilidade do tato de Keith Thomas, os cientistas desenvolveram uma técnica chamada espelhamento cortical. Na prática, registaram a atividade cerebral do homem enquanto ele imaginava o toque. De seguida, estimularam regiões sensoriais do cérebro com os mesmos padrões, bem como a pele e medula espinal.
“Descobrimos que estes ganhos se mantiveram após mais de dois anos. É algo muito encorajador”, reage Bouton. Serão, obviamente, necessários mais testes para chegar a conclusões mais sólidas sobre quão efetiva é esta tecnologia.
