ENTREVISTA || Foi há mais de 20 anos que o médico Bernardo Pessoa se interessou por esta hormona. Agora, a “Testosterona” dá título ao livro que acaba de lançar. Nele, o especialista quer mostrar que é “um mito associar a testosterona ao homem”. Não é o único que desfaz nesta entrevista com a CNN Portugal
Ainda assim, mantemos o foco na saúde sexual masculina, porque há cada vez “mais homens que têm défice de testosterona e que não o reconhecem”. A ciência mostra que, de geração em geração, os níveis desta hormona vão sendo menores, também reflexo dos estilos de vida que adotámos. “Um homem hoje com 40 anos tem, em média, menos testosterona do que tinha um homem com a mesma idade há 20 ou 30 anos”, nota Bernardo Pessoa.
O médico insiste também nos alertas à própria comunidade médica, para que a componente hormonal passe a ser parte do diagnóstico. Caso contrário, avisa, “há o perigo de medicarmos pessoas pelos sintomas e não pela causa”. E para que deixe de lado o julgamento perante quem entra no consultório.
“Todos os dias” lhe chegam pacientes que procuraram alternativas no mercado negro. “Fala-se mais sobre testosterona, mas no sítio errado, que são os ginásios”. Foi aí que Bernardo Pessoa ouviu jovens de 16 anos a contarem uns aos outros que estavam a aplicar esta hormona. Não conseguiu ficar indiferente.
A testosterona parece estar em todo o lado. Abrimos as redes sociais e lá está ela. Porque é que esta hormona entrou na dita cultura popular, como se fosse uma estrela do TikTok?
Tudo o que vende está no TikTok. E daí a importância de falarmos na banalização de tratamentos médicos. Estamos a falar de uma hormona humana, do homem e da mulher, fundamental à vida. Mas é uma moeda de duas faces. Ouvimos falar muito de testosterona em contextos de ginásio, de efeitos e objetivos anabólicas. E não estamos a ouvir falar dela o suficiente em contextos clínicos. Este livro é uma provocação a isso mesmo.
Até porque a testosterona está envolta em muitos mitos. Como tem estudado muito esta hormona, qual é a ideia pré-feita que temos de eliminar de vez das nossas cabeças?
Este livro podia ser um romance, porque a testosterona é a molécula do nosso organismo que mais está envolta em preconceitos e mitos. Entre as pessoas, ouvimos falar dela associada à agressividade masculina, aos anabolizantes, ao ‘doping’. Já na comunidade média, fala-se da testosterona enquanto elemento causador do cancro da próstata e de riscos cardiovasculares.
O que só torna mais relevante que se mostre qual é a evidência científica…
Exatamente. A testosterona é uma hormona sexual que tem um papel fundamental na nossa sexualidade, de homens e mulheres. Há um mito que é associar a testosterona ao homem. Isto não é real. A mulher produz testosterona, tem tantos recetores como o homem. A sexualidade da mulher é muito dependente da testosterona. Está na altura de derrubarmos este mito, este preconceito.
É o maior disparate que costuma ouvir sobre a testosterona, que é uma coisa do homem?
É o mais frequente. As mulheres têm receio de ficar com a voz mais grossa, com características masculinas, de que o pelo cresça. É uma preocupação que tem razão de ser, porque doses suprafisiológicas [acima dos limites normais ou saudáveis], muitas vezes associadas a utilizações em ginásios, podem mesmo ter estes efeitos. Contudo, o que estamos aqui a falar é em trabalho médico, em otimizar a janela terapêutica. E isso nunca causará esses efeitos secundários.
E em relação à própria terapêutica…
É um disparate achar que, a partir do momento em que uma pessoa começa a fazer esta terapêutica, que nunca mais a pode deixar porque é suprimida a produção natural, porque que ficamos dependentes deste fármaco, desta hormona. Devemos encarar o tratamento com testosterona como uma suplementação hormonal. O corpo continua a produzir a sua testosterona endógena. E quando deixamos de suplementar, os valores vão progressivamente voltar à base fisiológica.
Vem-me à cabeça a imagem das vitaminas que tomamos para compensar lacunas que temos. Faz sentido?
Não faria essa analogia, porque o nosso corpo produz testosterona. O objetivo é ter valores otimizados, abordando estilos de vida que vão ao encontro desta produção fisiológica. Tentamos sempre otimizar a produção que o organismo consegue ter, acertando estilos de vida. Às vezes, nem precisamos de fazer a reposição hormonal propriamente dita.
Mas nem sempre é possível voltar aos valores de referência…
Quando já fizemos tudo o que está ao nosso alcance e não chegámos aos valores ideais, então sim, falamos em reposição hormonal. Há é um terreno mais fértil, porque a pessoa já está a comer bem, a treinar bem, a dormir o melhor possível.
Gostava que nos focássemos na saúde sexual masculina, que é sempre um tabu maior do que a feminina. Há mesmo mais homens com défice de testosterona, ou mais homens convencidos de que têm esse défice?
A resposta é clara: há muitos mais homens que têm défice de testosterona e que não o reconhecem ou não o querem reconhecer. O homem é um ser envergonhado. Muitos homens são trazidos à minha consulta pelas mulheres, que notam que aquela pessoa por quem se apaixonaram já não é a mesma – e vão à procura de uma solução. O homem justifica-se com a idade como elemento causador da sua perda de líbido, perda de energia, acumulação de gordura corporal.
Quando é que deixa de ser “da idade” e passa a haver motivos para alerta?
O diagnóstico de baixa testosterona é difícil, desafiante. Não é tao simples quanto um diagnóstico de uma menopausa, onde há um declínio súbito a nível da produção de estrogénio e progesterona na mulher. O declínio no homem tem uma curva muito subtil, que começa por volta dos 25, 30 anos. Os sintomas vão-se instalando muito progressivamente.
E que podem ser confundidos com outras coisas...
É muito difícil destrinçar o que é hormonal, o que é da idade, ou mesmo o que é uma depressão. Tenho muitos utentes que foram diagnosticados como tendo uma depressão quando, na realidade, aquilo que tinham era um desequilíbrio hormonal. A questão hormonal não deve deixar de estar em cima das hipóteses diagnósticas numa consulta médica. Há o perigo de medicarmos pessoas pelos sintomas e não pela causa.
E quando lhe surge um paciente na casa dos 20 ou 30 anos, porque essas situações também existem, de pessoas que são jovens e têm níveis baixos de testosterona, é reflexo do quê? Da nossa própria sociedade?
Temos, sem dúvida, um estilo de vida altamente perturbador do nosso equilíbrio, da nossa otimização hormonal. Falamos de sedentarismo, stress crónico, alimentação hipercalórica e hipoproteíca, falta de exercício de força. Há um estudo - Massachusetts Male Aging Study - que identifica um declínio ou perda geracional de testosterona ao longo de várias décadas no homem. Um homem hoje com 40 anos tem, em média, menos testosterona do que tinha um homem com a mesma idade há 20 ou 30 anos. E o mesmo se aplica aos adolescentes. Isto tem de ser falado porque tem impacto na saúde individual, conjugal, familiar, profissional. Se temos pessoas que estão sem ânimo, sem paixão pela vida, sem amor, sem prazer nas atividades que antes faziam com gosto, isto vai ter consequências, que não estão ainda bem calculadas.
Já fez uma referência aos riscos logo no início da nossa conversa. Que riscos há para quem aplique testosterona sem aconselhamento médico?
A testosterona é uma hormona potentíssima, com impacto em todo o organismo. Há riscos para o coração, para o sistema digestivo, para o sistema neurológico, para os acidentes vasculares cerebrais, para os enfartes. Quando tomamos uma hormona sem acompanhamento médico, em primeiro lugar, não sabemos o que estamos a tomar. O mercado negro não é regulamentado nem certificado. O produto em si não tem qualquer garantia de qualidade. Depois, não estamos a fazer aquilo que o organismo precisa, estamos a seguir um esquema que terá funcionado para outra pessoa. Isto é um problema para a sociedade. Cada vez se fala mais sobre testosterona, mas no sítio errado, que são os ginásios. É extremamente perigoso. Há, todos os anos, cada vez mais mortes associadas diretamente ao uso de esteroides anabolizantes.
Também em Portugal?
Sem dúvida. Esta banalização leva ao fácil acesso entre jovens. Já ouvi, em ginásios, miúdos de 16 e 17 anos a dizer que estão a fazer testosterona. Enquanto médico não posso ficar impávido em relação a isso. Tenho de intervir. Sinto uma necessidade ética de sensibilizar as pessoas e os próprios médicos.
E chegam ao seu consultório casos de pessoas que tomaram testosterona sem qualquer aconselhamento médico, com efeitos secundários?
Todos os dias. E o problema também está nos médicos. Há pessoas que têm curiosidade em saber como estão os seus níveis, se aquele cansaço não se deve à testosterona baixa. E há médicos que não dão resposta a essas questões. Portanto, as pessoas acabam por ir procurar respostas noutros sítios, como os ginásios. Se tivermos essa abertura, esse conhecimento, menos pessoas irão à procura de soluções no mercado negro. As pessoas têm de sentir que não são discriminadas ou julgadas quando chegam à consulta médica. No meu caso, ao perceberem que falo disto abertamente, há quem me diga “agora quero fazer as coisas bem feitas”. É uma porta que se abre.
Mas de que complicações estamos a falar?
Vão desde sintomas muito vagos de alterações de humor ao aumento da glândula mamária no homem, passando por perda da libido, porque tudo o que é demais tem consequências. Depois há riscos de trombose, porque o sangue acaba por ficar muito espesso – é um dos efeitos secundários mais prevalentes quando se verificam níveis suprafisiológicos.
Desafiava-o agora a um conjunto de perguntas com resposta rápida. Dormir mal baixa a testosterona?
Sem dúvida, a sociedade está cada vez mais a dormir pior, menos tempo, com menos qualidade. E isso tem um impacto gigante a nível de saúde hormonal.
E o stress crónico tem o mesmo efeito?
É uma situação perfeitamente antagónica da produção de hormonas como a testosterona.
E o exercício físico aumenta sempre os níveis de testosterona?
Mais exercício não significa mais testosterona. Exercício estruturado, com o objetivo de melhorar a saúde, otimizar as hormonas, otimizar a longevidade, isso sim. Isto implica juntarmos o treino de força com o treino cardiorrespiratório.
E a atividade sexual tem impacto nos níveis de testosterona? Aumenta-os?
Não diretamente. Há picos de testosterona durante a atividade sexual. É um bocadinho mais ao contrário: a atividade sexual é que é fruto do aumento da testosterona. Se tivermos uma atividade que promova o aumento fisiológico da testosterona, temos mais ímpeto, mais ‘drive’ sexual, além de conseguir chegar – e isto é muito prevalente nas mulheres – mais facilmente a um orgasmo.
Pode alguém manter a vontade de ter atividade sexual, mesmo com baixa testosterona, que acaba depois por penalizar o desempenho?
A libido e a testosterona andam de mão dada. Agora, é óbvio que a vontade sexual e a sexualidade no ser humano está envolta numa complexidade que tem de ser tomada em consideração. Não somos animais, não temos vontade e realizamos o que queremos. Há toda uma componente psicológica que tem de ser tomada em consideração.
Por outras palavras, a cabeça pode querer, mas o corpo não acompanhar…
Sem dúvida. Não termos desejo não é sinónimo de uma testosterona baixa. Mas termos testosterona baixa implica uma diminuição do desejo.
E um homem ter pouca barba, é sinal de que pode ter baixos níveis de testosterona?
A pilosidade no homem também é multifatorial. Pode dever-se a uma componente genética, a determinadas doenças ou situações da pele. Mas, sem dúvida, que durante a adolescência, o pico de testosterona é um dos fatores que vai espoletar a pilosidade no homem e na mulher.
E há alimentos que aumentam os níveis de testosterona?
Não diretamente. Ou, pelo menos, não tanto como se diz no TikTok. A alimentação tem um papel muito importante na otimização da testosterona, seja por excesso ou por carência. Com uma dieta hipercalórica, que nos vai colocar o organismo num estado pro-inflamatório, a produção de testosterona fica comprometida. Já se tivermos carências importantes a nível proteico, a nível de energia, o corpo também não vai conseguir produzir o máximo.
