As funções principais, uma curiosidade e muito mais
Jamin Brahmbhatt é urologista e cirurgião no Orlando Health e professor assistente na Faculdade de Medicina da Universidade da Florida Central
Há uns tempos, um rapaz entrou no meu consultório com a namorada. Tinha sentido algo no testículo uns meses antes. Foi ela que descobriu e o arrastou para uma consulta comigo.
Fiz-lhe um exame físico e confirmei o que sentia com uma ecografia. O nódulo revelou-se um quisto benigno, não cancro.
Ele inclinou-se para a namorada e disse “Vês? Já te tinha dito. Estou bem”. Foi então que eu o alertei de que ela devia era agradecer-lhe, porque esta visita ao médico podia ter tido um desfecho muito diferente.
Mesmo que a maioria dos nódulos testiculares não seja cancerosa, há alguns que são. E a única forma de o saber é consultando um médico. Quando um homem espera, adia o tratamento – para algo que, muitas vezes, um médico pode diagnosticar em poucos minutos. Ou adia encontrar um médico que lhe pode salvar a vida.
Durante o meu estágio em urologia na faculdade de medicina, examinei os meus próprios testículos pela primeira vez. Encontrei algo, fiquei apavorado, marquei uma consulta. Tal como o paciente que referi, descobri que tinha um quisto benigno – que, quase de certeza, esteve lá durante a minha vida toda. Só não sabia o que era o meu “normal” antes daquele momento marcante.
É por isso que recomendo aos pacientes que criem o hábito de fazer autoexames regulares. Não têm de ficar obcecados, não existem diretrizes formais que exijam verificações mensais. Ainda assim, o facto de se familiarizar com a sua anatomia normal – verificando-a com frequência durante o banho – ajuda a reconhecer alterações quando estas acontecem. O exame, em si, demora menos de dois minutos.
Quanto melhor conhecer o seu corpo, mais fácil será perceber que algo está errado.
Testículos têm duas funções principais
A principal função dos testículos é produzir espermatozoides. Um homem saudável produz dezenas de milhões de espermatozoides todos os dias. Estes espermatozoides podem demorar cerca de três meses a crescer, amadurecer e a serem libertados na ejaculação.
A segunda função principal dos testículos é produzir hormonas sexuais masculinas — sobretudo a testosterona. As células especializadas, chamadas células de Leydig, produzem a maior parte da testosterona no organismo do homem. A testosterona é responsável pela massa muscular, pela densidade óssea, pela libido, pelo humor e pela energia — todos fatores determinantes para que o corpo masculino possa funcionar.
O ideal é ter dois testículos, embora os homens possam ter uma vida normal só com um. Um homem pode viver uma vida plena, incluindo ter filhos, com um único testículo.
Testículos não começam onde acabam
Enquanto o feto masculino se desenvolve no útero, os testículos originam-se no abdómen, perto dos rins. Nos últimos meses de gravidez, os testículos descem por um canal chamado canal inguinal, até chegarem ao escroto, a bolsa que os protege para o resto da vida do homem.
Esta descida é a razão pela qual os testículos ficam pendurados fora do corpo – e também a razão pela qual a dor testicular pode irradiar para o abdómen. A produção de espermatozoides funciona melhor a uma temperatura ligeiramente inferior à temperatura corporal interna.
O escroto é uma câmara com temperatura controlada, que se ajusta automaticamente – puxando os testículos para mais perto do corpo quando está frio e puxando-os para baixo quando está calor. É por isso que o aspeto parece diferente numa piscina fria e num banho quente.
O que existe mesmo lá em baixo
O escroto contém, em regra, dois testículos. Cada testículo é um órgão oval, liso e firme, aproximadamente do tamanho de um ovo pequeno. O testículo está, internamente, repleto de pequenas estruturas tubulares, denominadas túbulos seminíferos, onde são produzidos os espermatozoides.
Na parte posterior de cada testículo há uma estrutura macia, semelhante a uma minhoca, chamada epidídimo, onde os espermatozoides amadurecem. A partir daí, os espermatozoides viajam pelo canal deferente, um longo tubo que sai do escroto em direção à parte inferior da bacia, para entrar nos canais ejaculatórios. Este canal deferente é o mesmo tubo que é cortado durante uma vasectomia.
Tudo o que mantém o testículo vivo e funcional passa pelo cordão espermático — artérias, veias, nervos e vasos linfáticos, agrupados juntamente com o canal deferente. Pode sentir as estruturas do cordão a emergir da parte superior de cada testículo. O cordão é rodeado por músculos que auxiliam o movimento do testículo.
O que é normal
Um dos testículos está, geralmente, um bocadinho mais baixo que o outro. Normalmente é o esquerdo. E um deles é ligeiramente maior que o outro - podendo estar em qualquer um dos lados. O que é aquela estrutura macia, irregular e semelhante a uma minhoca na parte superior e posterior de cada testículo? É o epidídimo, não um tumor. Já uma estrutura em forma de cordão que se estende a partir da parte superior de cada testículo é o cordão espermático. Podem formar-se quistos no testículo ou no epidídimo, mas geralmente são benignos.
Pode encontrar veias dilatadas acima do testículo. Pode ser uma varicocele: é uma condição comum, que costuma ser inofensiva, mas vale a pena mencionar a um médico se for nova e dolorosa ou se tiver dúvidas sobre a sua fertilidade.
Também são normais os testículos que se movem para cima e para baixo dependendo da temperatura, do exercício ou da excitação.
O que nao é normal
Um nódulo firme e indolor no próprio testículo é um sinal de alerta. É a forma clássica do cancro do testículo. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, cerca de 9.800 homens serão diagnosticados com cancro testicular em 2026, segundo a Sociedade Americana do Cancro. A doença é mais comum em homens jovens e de meia-idade, especialmente aqueles que se encontram na casa dos 20 e 30 anos. É um dos cancros mais tratáveis quando detetado precocemente — a sobrevivência é de cerca de 99% quando o cancro é diagnosticado numa fase inicial.
Se encontrar um nódulo firme, deve procurar imediatamente um médico, mesmo que se sinta bem. A maioria dos cancros testiculares é indolor – a dor não descarta a possibilidade de cancro. Um exame físico, uma ecografia ou exames laboratoriais podem ajudar a diferenciar um tumor benigno de um cancro.
O diagnóstico de cancro testicular do ciclista Lance Armstrong, em 1996, tornou o assunto para a esfera pública. No início deste ano, o ator Dwayne "The Rock" Johnson passou por um susto semelhante. O seu caroço era doloroso. Acabou por se revelar uma epididimite, ou inflamação do epidídimo, não cancro.
Inchaço, vermelhidão ou calor doloroso — por vezes acompanhados de micção dolorosa ou frequente, bem como febre — podem ser sintomas de epididimite, a condição que Johnson tinha. É tratável, normalmente com antibióticos, anti-inflamatórios e repouso.
Uma dor súbita e intensa num dos testículos pode ser sinal de torção testicular — o cordão espermático torce-se sobre si próprio, interrompendo o fluxo sanguíneo. A torção testicular é uma emergência médica, ponto. Se o testículo não for destorcido em poucas horas, pode perder-se.
O que acontece numa consulta médica
Na consulta com o urologista, a conversa começa pelo momento em que explica quando notou algo estranho, como se sente, se há dor ou sintomas urinários, bem como o seu historial clínico relevante. Durante o exame físico, o médico irá examinar o escroto, os testículos, o epidídimo e o cordão espermático. O médico verifica as mesmas coisas que verificaria em casa, só que com mais experiência.
A partir daí, o processo depende daquilo que o médico encontrar. O urologista pode solicitar uma ecografia escrotal para obter uma imagem mais nítida do testículo e das estruturas adjacentes. É o mesmo exame básico que Johnson descreveu ter feito após o susto que apanhou.
Os médicos podem solicitar análises à urina se suspeitarem de infeção, análises ao sangue para detetar marcadores tumorais se houver suspeita de cancro, ou exames hormonais se a testosterona for algo que padece de investigação. Embora com menos frequência, os urologistas podem solicitar uma ressonância magnética para uma análise mais detalhada da anatomia interna do testículo.
Como fazer a sua autoavaliação
Recomendo que os doentes façam o autoexame no duche. A água morna relaxa o escroto, o que facilita a palpação dos testículos.
Dedique alguns minutos a examinar um testículo de cada vez. Role-o suavemente entre o polegar e os dedos. Não aperte. Sinta a forma, o tamanho e a superfície.
Localize o epidídimo na parte posterior. Observe o cordão espermático a subir.
Lembre-se: se encontrar algo novo — um nódulo, uma zona endurecida, uma alteração de tamanho, dor persistente — num autoexame, não perca tempo e marque uma consulta com um médico. Procure ajuda o quanto antes. A prevenção é a melhor forma de cuidar da sua saúde.
