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"Comprei isto antes do Elon Musk enlouquecer". O que está a acontecer à Tesla?

21 mar 2025, 22:19
Tesla

Elon Musk viu o valor da Tesla disparar após a vitória de Trump, mas um avalanche de polémicas e vandalismo estão a colocar em causa os alicerces do seu império

Quando todos os votos foram contados, tudo parecia perfeito para a Tesla. O seu CEO, Elon Musk, tinha "apostado" 288 milhões de dólares no candidato vencedor, Donald Trump, que prometia libertar a empresa de "regulamentações sufocantes" e aumentar os incentivos para as fábricas da empresa em solo americano. A reação dos mercados foi imediata e a empresa tecnológica valorizou para os 1,03 biliões de dólares em pouco mais de um mês. Mas, de um momento para o outro, o império automóvel de Musk (que é muito mais do que isso) começou a desmoronar e o fundo ainda pode estar longe.

Hoje, as ações da Tesla são as que estão a ter o pior desempenho entre as 500 empresas mais valiosas do mercado norte-americano. E poucos o conseguiram prever. Duas semanas antes das eleições norte-americanas, as ações do fabricante automóvel tinham fechado com um valor de 213 dólares. Na altura, os mercados viam com bons olhos o regresso de Donald Trump à Casa Branca e a empresa de Elon Musk continuava a valorizar até ao dia das eleições. No dia da votação, a 5 de novembro, o preço das ações da Tesla tinha subido para 249 dólares na expectativa dos resultados eleitorais. 

Mal saíram os resultados, a reação dos mercados foi imediata. A ações da Tesla subiram 14% num só dia, disparando o valor de mercado da empresa de Musk para 1,03 biliões de dólares, com cada ação a custar 321 dólares por unidade. E a euforia ia continuar até ao final do ano, quando as ações atingiram o valor histórico de 487 dólares por unidade, uma valorização de 95% desde a eleição. O homem mais rico do mundo tinha motivos para sorrir, tornava-se a primeira pessoa na história a ver a sua fortuna ultrapassar os 400 mil milhões de dólares. 

Mas, em 2025, tudo mudou. Elon Musk, outrora visto como um empresário com consciência ambiental que tentava mudar o mundo para melhor com os seus veículos, viu a sua popularidade desvanecer junto do seu público de esquerda ao tornar-se um dos mais próximos aliados de Trump. A relação entre os dois tornou-se de tal forma próxima que Trump lhe deu a liderança do polémico Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), que promoveu cortes drásticos em contratos federais, incluindo vários programas humanitários.

A situação tornou-se ainda mais polémica durante a tomada de posse de Donald Trump, a 20 de janeiro, quando Elon Musk fez um gesto com o braço para a multidão que foi interpretado como uma saudação nazi. O empresário negou que essa fosse a sua intenção, mas o mal estava feito e deu força aos seus críticos, que promoveram o boicote aos produtos das empresas de Musk. 

O impacto destas polémicas foi particularmente intenso na Europa, onde o dono do X promovia publicamente partidos de extrema-direita como a AfD e o governo húngaro de Viktor Orbán. A reação foi quase imediata, com as vendas a caírem 76% em fevereiro, apenas na Alemanha, onde os consumidores começaram a utilizar adesivos com mensagens contra o empresário nos seus veículos. Um dos mais populares utilizado pelos proprietários destes veículos diz "comprei isto antes do Elon Musk enlouquecer".

Em Portugal, o movimento contra Musk e contra a Tesla também se fez sentir. O apresentador João Manzarra recorreu às redes sociais para colocar o seu Tesla Y Long Range à venda por 37.500 euros, admitindo que o seu carro se tinha tornado "eticamente desconfortável". Só que não era o único. O número de vendas da Tesla no país caiu 53% em fevereiro, espelhando o cenário europeu, onde as vendas do fabricante automóvel caíram 50,3%, ao mesmo tempo que o mercado de veículos elétricos continua a aumentar. 

E os problemas da Tesla continuam a aumentar. Nos Estados Unidos, os stands, veículos e estações de carregamento da empresa estão a ser alvo de um fenómeno generalizado e vandalismo. Vários proprietários viram as suas viaturas vandalizadas com a inscrição de mensagens como "Nazi" ou "Fuck Musk". Outros tiveram menos sorte e viram os seus veículos incendiados ou até mesmo alvo de disparos. A onda de ataques levou mesmo o próprio presidente norte-americano a alterar a lei para classificar como terroristas domésticos todos aqueles que vandalizam os carros da Tesla. 

Estes ataques agravaram a crise da empresa nos Estados Unidos, onde as vendas caíram 16% em janeiro. Só que os problemas de Musk com a Tesla não ficaram por aqui. Esta semana a empresa foi obrigada a recolher mais de 46 mil Cybertrucks nos Estados Unidos - quase todos os veículos vendidos -  devido a um problema de segurança. De acordo com a empresa, um painel do tejadilho da Cybertruck corre o risco de se soltar "durante a condução" e tem de ser trocado imediatamente. A notícia é mau marketing para a empresa, que promove este modelo como sendo a viatura "mais resistente" do mercado.

E isso está a ter um forte impacto no preço dos Teslas usados. O valor dos carros desta marca está a cair a um ritmo duas vezes superior ao da média, de acordo com um estudo da CarGurus. Os automóveis usados registam, por norma, uma queda de 2,7% do preço em relação ao ano anterior. No entanto, esse valor nos veículos Tesla dispara para 7,3%. O valor do Cybertruck, por exemplo, vale menos de 58% no mercado de revenda. 

O cenário é de tal forma grave que Elon Musk, que recentemente ocupa quase 100% do seu tempo com o DOGE, foi obrigado a tentar acalmar investidores e funcionários acerca do rumo da empresa, numa reunião da empresa na quinta-feira. Durante a reunião, publicada na rede social X, Elon Musk apelou aos funcionários para "aguentarem" as suas ações, insistindo que o futuro da Tesla é "excitante". 

Mas com as vendas em queda e com uma concorrência cada vez mais feroz da BYD e da Volkswagen, Musk precisa de surpreender o público. E o bilionário sul-africano parece já ter encontrado a solução na construção de uma autêntica frota de robôs humanoides já em 2025. Apelidado de "Optimus", Musk acredita que este é o robô humanoide "mais sofisticado do mundo" e revelou que planeia produzir 50 mil unidades em 2026. 

Musk acredita que a empresa pode transferir a tecnologia de piloto automático dos seus automóveis para avançar a produção destes robôs capazes de andar e executar algumas tarefas básicas como apanhar objetos. No passado,  Elon Musk já prometeu produtos e estabeleceu prazos demasiado ambiciosos, que acabaram por nunca se concretizar. Só que o homem mais rico do mundo também não é estranho à sensação de estar à beira da derrota e de conseguir dar a volta por cima - algo que já fez mais do que uma vez, quer na Tesla quer na SpaceX. 

"Não subestimem Elon Musk. Ele tem um histórico de provar que os céticos estão errados", recorda o analista financeiro Jim Rickards, na sua newsletter, aos investidores que duvidavam da capacidade de Musk em transformar apostas arriscadas em sucesso.

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