Eu, por regra, não falo duas vezes — ou melhor, não falo seguidamente da mesma pessoa num curto espaço de tempo. Mas, o que seria da regra sem a sua exceção?
Aqui andamos nós às voltas com temas que passam debaixo do radar, como a nova barreira que querem colocar na Europa à volta dos territórios russos, ou até com a possível queda dos contratos da Lockheed na Europa (Portugal incluído) para a venda dos F-35. E, nos Estados Unidos, Elon Musk enfrenta provavelmente aquilo que o poderá tornar tóxico para além do aceitável. Estou a falar das consequências das suas ações pessoais nos negócios, que estão a inverter o seu toque de Midas.
Ao que tudo indica — e mesmo com os maiores acionistas da Tesla a pedir que Musk se afaste —, a Tesla cai a pique na bolsa, na mente dos consumidores americanos e, acima de tudo, no mercado europeu com mais de 400 milhões de consumidores. Levado pelo seu ego do tamanho da Muralha da China, Musk, que em tempos decidiu pôr um cabriolet a navegar pelo espaço, vê agora as vendas a cair estrondosamente, contaminando até o mercado de usados da marca de forma séria. Isto cria um grave problema para a Tesla, que necessita da aura de vanguardista para se manter no mapa.
Mas ao certo, o que se está a passar?
Não é simples de explicar — e, ao mesmo tempo, é. Musk lançou a Tesla (e outras bandeiras suas) sempre com o lema da modernidade técnica. Com isso, manteve os seus projetos de investigação e desenvolvimento (R&D) financiados, conseguindo investir constantemente em mais conteúdo e tecnologia nos seus produtos. Acontece que agora, com a quebra generalizada da Tesla — isto, claro, segundo as informações que circulam por todo o lado —, a marca vê-se a perder terreno face à concorrência, tanto em termos técnicos (algo que até agora conseguia contornar), como em termos de reputação. Eu clarifico:
Para atrair capital para um sonho, ao estilo Shark Tank, é preciso ter um bom produto — ou pelo menos as bases de um. Mas quando falamos de algo verdadeiramente inovador, é necessário ir mais longe: é preciso inovação real e uma estratégia sólida para manter um fluxo contínuo de capital que sustente esse desenvolvimento. Musk foi exatamente a pessoa que, com o seu charme geek, conseguiu precisamente isso.
Contudo, com o passar do tempo, a sua personalidade e as suas escolhas tornaram-no menos confortável nas praças financeiras. Durante algum tempo, apenas o facto de ser “mais à frente” mantinha o mercado disposto a investir. Mas agora tudo parece estar a mudar. Mas como? – pergunta o caro leitor.
A vida das empresas é efémera, como dizia um professor que tive, e para que esta se prolongue, o conjunto de circunstâncias positivas tem de superar as negativas. No caso de Musk, as negativas estão a ganhar terreno — e nem a Cybertruck parece conseguir subir essa duna. A concorrência está feroz. Da chinesa BYD aos clássicos europeus como a Mercedes ou a Volkswagen, todos aceleraram o passo. Deixaram de tentar alcançar a Tesla para, de facto, a ultrapassar. E já o fizeram em muitos domínios: mais autonomia, melhor qualidade de construção, uma rede alargada de assistência sólida e próxima dos clientes e, talvez a mais importante, a estabilidade — até emocional — de quem as dirige.
Sem deixar respirar a Tesla relativamente às decisões noutros campos, está Musk. Durante muito tempo, foi o maior trunfo da marca: um excêntrico, um génio sem papas na língua, uma espécie incontornável de visionário com a capacidade de mover multidões. Isso fez a diferença quando alguém pensava em investir. Este foi o trunfo que levou muito dinheiro a entrar nos cofres da empresa para que se mantivesse única e inovadora.
Contudo, com a mistura das suas vidas e visões polémicas, temperadas com o que vemos diariamente no X, tudo indica que o seu foco mudou. E a sua marca pessoal — e, por arrasto, as empresas que lidera — estão a inverter de polo.
Podia estar apenas a dar a minha opinião ao caro leitor, que prezo, mas não se trata só disso. Os dados mostram uma queda acentuada na confiança dos consumidores europeus e americanos nas empresas que Musk lidera, em particular na Tesla, indicando que a sua “aura premium” está a enfraquecer à boleia da inquietude dos investidores. Musk sempre precisou de ser visto como vanguardista. A sua mística, que sempre lhe trouxe grandes proveitos, está agora em risco de se transformar em algo diferente — contaminando o seu portefólio.
Olho para trás — e nem preciso de ir muito longe — para poder afirmar que estamos a assistir ao início de uma mudança de ciclo. Elon Musk, que durante anos foi o rosto da inovação e da disrupção, começa agora a enfrentar o peso das suas próprias ações, em ato contínuo, levando a que a Tesla deixe de ser o unicórnio no mundo dos veículos elétricos. Um mundo que se tornou maduro, exigente e com imensa oferta de qualidade.
De histórias reza sempre a lenda, e caso Musk não inverta ou ajuste o seu rumo, corre o sério risco de ver o seu trabalho e a sua visão — que foram, de facto, pioneiros — a desaparecer. Não por falta de tecnologia, mas por excesso de ego.
Desaparecido em combate? Talvez ainda não, mas já se ouvem os alarmes.