Se os filmes de terror nos assustam, porque é que os vemos?

27 nov 2022, 22:00
Janet Leigh como Marion Crane no filme "Psycho", de 1960, numa das cenas mais icónicas da história do cinema (Foto: Bettmann via Getty Images)

Spoiler: a forma como o nosso cérebro reage ao medo pode ter efeitos terapêuticos

As comédias fazem-nos rir, os romances suspirar. Os dramas comovem-nos com aqueles enredos teatrais, de reviravoltas e intrigas apaixonantes, que terminam ora em tragédia ora em final feliz em direção ao pôr do sol. Mas o que poderá explicar o fascínio com o terror - esse género cinematográfico que nos faz contorcer na cadeira e roer as unhas em nervosismo?

Um vampiro milenar, cadáver movido a sede de sangue, a perseguir a vítima indefesa. Um psicopata de máscara imperscrutável a espreitar pelas esquinas de uma vizinhança pacata na noite de Halloween. Uma presença demoníaca que atormenta a família acabada de se mudar para aquela mansão demasiado boa para ser verdade. Todos sonhamos em ser protagonistas de cinema, sem dúvida, mas não em filmes como "Drácula", "Halloween" e "Insidioso". 

São histórias tenebrosas, algumas delas a roçar o macabro - mas mesmo assim fascinam-nos. Pagamos para vê-las no grande ecrã e experienciar cada jumpscare na sua mais perturbadora glória; escutar a banda sonora a ribombar cada vez mais alto nos altifalantes para assinalar que algo está prestes a acontecer. De pipocas na mão, vemos o assassino aproximar-se da vítima desprevenida que caminha na direção oposta e a empunhar a faca cada vez mais alto, aproximando-se, aproximando-se... O sucesso de um filme de terror determina-se pela sua eficácia, e esta eficácia segue uma fórmula muito clara: quanto mais pânico provocar na audiência, melhor.

Sabemos, porém, que a ansiedade e o medo são emoções do espectro negativo. Então, o que nos leva a ver um filme de terror por iniciativa própria? Porque é que procuramos o medo, numa aparente contradição à natureza humana de busca incessante pela satisfação? 

Um dos mais bem-sucedidos franchises de terror. Tony Moran interpretou Michael Myers no primeiro filme de "Halloween", de 1978 (Foto: Compass International Pictures/Sunset Boulevard/Corbis via Getty Images)

A adrenalina, essa “droga” viciante

Gosta de montanhas-russas e de bungee jumping? Então é provável que também goste de filmes de terror.

As reações “neurológicas e fisiológicas” são, pelo menos, bastante parecidas em ambos os casos, como explica a psicóloga e diretora clínica Catarina Lucas. Ao confrontar-se com uma situação “grave ou desafiante”, o organismo desencadeia um mecanismo de resposta conhecido na área da psicologia como “luta-fuga” - isto é, o desencadear de adrenalina no organismo. Ou, em termos ainda mais simples, o mais básico instinto de sobrevivência.

O ritmo cardíaco acelera, o fluxo sanguíneo aflui ao cérebro e ao sistema muscular, e todos os sentidos se apuram para permitir uma reação rápida a qualquer sinal de perigo. É uma herança dos nossos antepassados hominídeos; uma vantagem evolutiva que em contexto civilizacional já não acontece tão frequentemente. Então, vamos nós procurá-la deliberadamente para fins recreacionais.

Porquê? Porque o alívio que se segue faz tudo valer a pena - e querer repetir a experiência. À medida que a adrenalina vai desaparecendo do organismo, gera-se uma descarga de endorfina que “promove uma sensação de bem-estar” e aumenta, também, a autoconfiança "quanto à capacidade de ultrapassar medos e adversidades". “Por essa razão, esta busca de satisfação momentânea é muitas vezes comparada ao efeito de uma droga”, explica Catarina Lucas.

Sofremos, gritamos (“olha para trás, o assassino está mesmo ali!”) e vemos o filme por entre os dedos. Depois, as luzes voltam a iluminar a sala de cinema e tudo fica bem. Missão cumprida: sobrevivemos ao psicopata, ao vampiro, à entidade maligna; “sabemos estar seguros” e o cérebro retribui-nos com uma descarga hormonal de alívio e prazer. Ao recordarmos a experiência, a impressão mais marcante é esta nuvem de euforia que, “tal como uma droga”, nos faz a ansiar pela repetição da experiência.

1, 2, Freddy's coming for you... Tuesday Knight e Robert Englund no quarto filme da franquia "Pesadelo em Elm Street", de 1988 (Foto: New Line Cinema/Getty Images)

Terror. Uma ferramenta terapêutica contra a ansiedade?

Esta frase pode parecer contraditória: afinal, o propósito dos filmes assustadores é perturbar a audiência e não tranquilizá-la. Incentivar uma pessoa com aracnofobia a interagir com uma aranha parece igualmente contraproducente, mas vários estudos comprovam que a exposição segura e controlada aos nossos medos (racionais ou irracionais) pode ajudar a superá-los. O plano da psicoterapia refere-se a esta estratégia como “terapia de exposição”, enquadrada num plano mais amplo de terapia cognitivo-comportamental e devidamente acompanhada por um profissional de saúde.

A psicóloga Catarina Lucas estabelece um paralelo entre o consumo de filmes de terror e “um processo de exposição num ambiente seguro e controlado”, como aquele que acontece num consultório. A exposição frequente a estes estímulos leva “o nosso corpo a reagir de forma menos intensa, o que diminui os sintomas associados à ansiedade, como o ritmo cardíaco elevado ou a transpiração. Além disto, pode gerar-se uma maior sensação de controlo sobre as situações e sobre as próprias reações, o que se traduz também numa diminuição da ansiedade, já que se acredita estar mais bem preparado para enfrentar problemas ou situações futuras”.

E talvez não seja mera convicção. Vários estudos sugerem que a exposição a elementos perturbadores parece desencadear uma maior tolerância aos mesmos e, até, permutar as sensações de medo e ansiedade por mera diversão. O motivo relaciona-se com o ponto anterior: a sensação de alívio por estarmos em segurança, que torna a experiência gratificante em vez de traumática. Mas não se resume tudo ao prazer. Ao que indicam investigações recentes, o medo pode mesmo tornar-nos mais resilientes.

A fase inicial da pandemia assemelhou-se a um filme de terror. Literalmente: se “Contágio”, de Steven Soderbergh, mais lembrava uma obra de ficção científica do que um thriller no ano de estreia, nove anos depois identificámo-nos com o retrato de uma pandemia global que ultrapassou todas e quaisquer fronteiras geográficas. Poderíamos ter evitado ver um filme tão realista durante a quarentena (e ainda mais pessimista do que a nossa versão do vírus, em certos aspetos), mas revelou-se um autêntico fenómeno de popularidade renovada. Um estudo de 2021 indica que esta decisão poderá não ter sido assim tão imprudente: talvez até nos tenha preparado melhor para os meses difíceis que ainda se seguiram.

Numa pesquisa que envolveu mais de 300 pessoas, os investigadores descobriram que um "interesse prévio ou atual em filmes de terror ou outra ficção relevante" estava associado a "uma maior resiliência e preparação durante o período de pandemia". Os resultados foram particularmente expressivos nos fãs do chamado “cinema de sobrevivência”, povoado por aliens, zombies… e, sim, vírus.

“Os filmes de terror simulam situações de risco, fazendo-nos acreditar que estamos mais preparados para o perigo real e ajudando a desenvolver estratégias de coping”, contextualiza Catarina Lucas. “Mesmo que na realidade não estejamos mais preparados, existe uma sensação geral de maior autoconfiança para enfrentar o mundo por já termos visto várias situações de perigo simuladas, bem como os possíveis cenários de resolução.”

Dentro do tema da saúde mental, importa ainda destacar que os filmes de terror podem também ajudar em casos clínicos de ansiedade generalizada, em que o pânico parece não ter origem específica. Perante uma fonte concreta de terror, como uma criatura medonha a rastejar dentro do ecrã, essa ansiedade muitas vezes infundada canaliza-se para algo facilmente identificável - e combatível. A partir do momento em que o filme termina e a sensação de segurança se instala, a nossa ameaça também se desvanece e a ansiedade diminui.

Demasiado assustador? Max Von Sydow como o Padre Lankester Merrin, em "O Exorcista", de 1973. O filme foi tão impactante para as audiências da época que algumas pessoas manifestaram ataques psicóticos e requereram hospitalização (Foto: Getty Images)

A atração pelo macabro

O true crime é uma das tendências mais populares e controversas dos últimos tempos. “Dahmer” é exemplo pertinente deste fenómeno dicotómico, com números impressionantes de audiências e também críticas por parte de espectadores (e familiares das vítimas) por “explorar” um caso verdadeiro. De qualquer modo, não há como negar: a espécie humana sente uma atração irresistível pela tragédia.

Por vezes, uma fila interminável de trânsito é causada por motoristas curiosos que abrandam e esticam o pescoço para ver melhor o acidente que afinal só cortou uma via da estrada. É lançada uma notícia sobre um crime hediondo e os leitores afluem ao site para ter acesso aos mais íntimos detalhes. A psicóloga Catarina Lucas corrobora: “de facto, o ser humano sente-se atraído pela tragédia. Isto pode ocorrer porque nestas situações há uma tendência para colocarmos as coisas em perspetiva e analisarmos a nossa vida e os nossos problemas em função da tragédia que acabámos de ver, percebendo muitas vezes que há situações piores, o que nos traz algum conforto”.

É no seguimento desta mesma lógica que algumas pessoas gostam de slashers [subgénero cinematográfico em que um assassino mata um grupo de vítimas, uma a uma] e de gore [representação gráfica de sangue e violência]. Franquias como "Saw" produziram quase uma dezena de sequelas porque souberam satisfazer as expetativas simples da audiência: ver personagens a ser torturadas de uma forma que jamais conseguiríamos testemunhar e tolerar na realidade. Mais uma vez, a segurança é um fator determinante. Aventuramo-nos em tópicos tão críticos à integridade humana (e por isso mesmo tão fascinantes) como a violência, a doença, o sangue e a mortalidade - mas sempre a partir do conforto do nosso sofá ou de uma sala de cinema. Podemos até sentir empatia pela vítima ficcional que roga pela vida, mas o pensamento dominante é outro: “pelo menos não sou eu”.

O filme que deu origem à personagem Leatherface. Marilyn Burns como Sally, em "Massacre no Texas", de 1974 (Foto: LMPC via Getty Images)

Homens de peito inchado e mulheres aterrorizadas: receita perfeita para o romance 

As consequências da explosão de adrenalina, dopamina, endorfina e oxitocina não se refletem apenas a nível individual. A última é muitas vezes alcunhada de "hormona do amor" pela sua função importante nas relações sociais, reprodução e período pós-parto - e experienciá-la com outra pessoa ao lado pode ter efeitos benéficos nesta relação, platónica ou romântica. O ser humano é, aliás, um animal social que demonstra uma forte tendência a agregar-se com a sua comunidade no confronto com o assustador e o desconhecido. Não é surpreendente que uma das escolhas mais recorrentes para um primeiro encontro a dois seja uma ida ao cinema.

Mas há outras vertentes a considerar neste encontro romântico. Os estereótipos retratam o homem como o elemento corajoso do par, de olhar destemido assente no ecrã enquanto a mulher se aninha no seu ombro em busca de proteção. Sendo as mulheres as mais ávidas consumidoras de true crime, esta imagem talvez não corresponda exatamente à realidade. Ainda assim, múltiplas dissertações sobre o tema reforçam o papel das expetativas sociais em cada um dos sexos. De acordo com estas análises, os homens sentem uma maior pressão para se mostrarem intrépidos, já que esta é uma das caraterísticas basilares da masculinidade; as raparigas, por sua vez, são socialmente encorajadas a exagerar o medo que efetivamente sentem e a adotar uma postura mais "feminina", ou seja, sensível e emotiva. 

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, com 36 homens e 36 mulheres da mesma idade, conclui que os participantes de cada sexo obtêm mais satisfação ao ver filmes em que o par se comporta de acordo com o papel de género que lhe compete. "Descobrimos que os homens gostaram mais do filme na companhia de uma mulher ansiosa, e menos na companhia de uma mulher controlada", descrevem os investigadores. Em contraste, as mulheres "gostaram mais do filme na companhia de um homem controlado e menos na companhia de um homem ansioso".

Seja qual for a explicação para as diferenças comportamentais entre homens e mulheres, os estudos são concludentes: um bom filme de terror pode ser o ingrediente mágico num encontro a dois. 

"Nosferatu" foi o primeiro vampiro cinematográfico, mas "Drácula" não fica atrás em popularidade (e enorme legado cultural). Bela Lugosi e Helen Chandler em "Drácula", filme de 1931 (Foto: Getty Images)

Quando os horrores no ecrã são uma metáfora para os nossos próprios medos (e desejos)

Os filmes de terror são muito mais do que experiências sensoriais. São filmes com mérito próprio - obras cinematográficas com personagens, enredo, introdução e conclusão. E, cada vez mais, são também representações (ainda que hiperbolizadas) de uma realidade familiar.

Nem tudo se resume a psicopatas sem motivo e a vítimas que tomam vezes sem conta a decisão errada. Obras como "O Senhor Babadook", de 2014, e "Foge!", de 2017, marcaram a paisagem cinematográfica recente por abordarem temas sérios (a maternidade e o racismo) de uma forma muito mais crua e monstruosa do que um filme dramático o permitiria. O terror sempre foi, de resto, um pretexto para materializar medos sociais na forma de monstros aterrorizadores (pensemos em Godzilla, símbolo do terror nuclear no Japão, ou Jekyll and Hyde, o médico e o monstro que não poderiam coexistir na Era Vitoriana). 

Outras vezes, é com as experiências individuais das personagens que nos identificamos. A personagem Carrie, do filme homónimo de Brian De Palma, é tão heroína como vilã. Inundou uma escola secundária inteira num banho de sangue e fogo, mas hesitamos em interpretá-la como vilã quando mais de metade do filme a retratou como vítima de bullying e fanatismo religioso. Na cena do massacre da festa de finalistas, poucos estremecerão com a visão de uma Carrie ensopada em sangue de porco. Pelo contrário: celebra-se a chegada do momento em que finalmente terá a sua vingança.

Histórias de terror como "Carrie" (apesar do final trágico) funcionam como uma espécie de "contos de fada" que, em vez de apelarem aos nosso desejos mais românticos e altruístas, exploram as nossas emoções mais sombrias. No género dramático, a frustração seria ilustrada com uma cena de lágrimas ou uma discussão acesa. No terror, leva-se ao limite todas as sensações humanas e a personagem mata, enlouquece, vê-se dotada de capacidades vingativas sobrenaturais. É tudo exagerado, irrealista e por vezes imoral, mas acima de tudo profundamente catártico. 

Vítima, vilã, ambos? Sissy Spacek como "Carrie", no filme de 1976 (Foto: Sunset Boulevard/Corbis via Getty Images)

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