Museu Nacional de Arte Antiga vai desabar sobre os Painéis de São Vicente. Estado não reforça o edifício nem põe as obras a salvo
A Associação Portuguesa de Museologia (APOM) apela à deslocalização das reservas dos principais museus nacionais para regiões sem risco sísmico. “Estamos a avisar, pelo menos desde os tempos da ministra Graça Fonseca, que é preciso resolver este problema”, declara João Neto, presidente da APOM. Esta associação, que reúne “cerca de uma dezena de sócios institucionais e cerca de 200 sócios individuais”, defende a criação de reservas estratégicas nas regiões Norte e Centro, por estarem a salvo de sismos de grande poder destrutivo.
O anterior Governo avançou para obras no Museu Nacional de Arte Antiga: nova cobertura, recuperação das fachadas, remodelação interior. De fora, ficou o reforço estrutural. Se os terramotos de 1531 e 1755 se repetirem - o que constitui uma certeza científica - telhas novas e paredes velhas vão desabar sobre os Painéis de São Vicente, principal retrato da época de ouro dos Descobrimentos, As Tentações de Santo Antão, de Bosch, e muitos outros tesouros património da Humanidade.
João Appleton, olissipógrafo e engenheiro português com maior experiência no reforço sísmico de edifícios antigos, deita as mãos à cabeça. “Estamos à espera de quê?”, e grita à consciência da sociedade e do poder político. “Somos todos coletivamente culpados por esta incúria - e não apenas os governos”, protesta. Para este especialista sobre a cidade de Lisboa, “o regime democrático ainda não corrigiu a falta de sensibilidade do ditador António Salazar para com a Cultura”.
Novo edifício na gaveta
A empresa pública Museus, Monumentos e Palácios prepara uma resposta às preocupações da APOM e dos especialistas em Engenharia Sísmica. “No que respeita ao tema das reservas nacionais e a definição da estratégia para a sua adequada salvaguarda, este é um processo em estudo, a ser validado pela tutela e, quando estiverem reunidas as condições para tal, será de conhecimento público”, responde a ministra da Cultura, Juventude e Desporto.
Em março, o Governo criou “um grupo de trabalho para o reforço do modelo de governação da gestão de riscos no património cultural”, esclarece ainda Margarida Balseiro Lopes.
O Governo socialista avançou com obras no MNAA, sem qualquer reforço contra sismos. “Não era possível executar essa intervenção de fundo dentro dos prazos de execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)”, esclarece João Carlos dos Santos, à época diretor-geral do Património Cultural.
De qualquer forma, o ex-ministro Pedro Adão e Silva deu luz verde à aquisição de terrenos destinados à construção de um edifício novo para o museu, virado para a Av. 24 de Julho. Esse projeto estava estimado em cerca de 60 milhões de euros. “Não sei qual o ponto de situação atual desse projeto, mas considero que deve ser prioritário, considerando o extraordinário valor patrimonial do espólio do museu”, defende João Carlos dos Santos.
A CNN Portugal não conseguiu ainda uma resposta da tutela a esta questão.