Novas evidências desafiam teorias sobre origem da água na Terra

CNN , Jack Guy
10 jun, 11:00
Os investigadores usaram um acelerador de partículas para analisar um meteorito raro (NASA)

É o que sugere um novo estudo. Os investigadores usaram um acelerador de partículas para analisar um meteorito raro

Há investigadores que afirmam terem descoberto evidências de que a Terra primitiva possuía mais hidrogénio do que aquilo que se costumava pensar. É algo que coloca em causa crenças amplamente aceites sobre a origem da água e a evolução do nosso planeta.

Os cientistas da Universidade de Oxford analisaram um tipo raro de meteorito, conhecido como condrito de enstatita. Acredita-se que esta rocha espacial, com cerca de 4,6 mil milhões de anos, terá uma composição semelhante à Terra primitiva, segundo o estudo publicado na revista Icarus.

Os investigadores descobriram que a maior parte do hidrogénio existente no meteorito era intrínseco, não resultado de uma contaminação, o que sugere que a Terra primitiva continha hidrogénio suficiente para permitir a formação de moléculas de água.

Esta descoberta questiona a crença, amplamente difundida, de que o hidrogénio chegou à Terra através de asteroides, que atingiram um planeta que costumava ser seco e rochoso, incapaz de ter vida.

“Assumíamos que a Terra tem hoje água à custa de um cenário assente na sorte, no qual a Terra teria sido atingida por esses asteroides”, diz à CNN Tom Barrett, o principal autor do estudo e doutorando no departamento de Ciências da Terra da Universidade de Oxford.

“Contudo, o que demonstramos neste estudo é que, na verdade, o material que formou a Terra já continha inicialmente muito hidrogénio e oxigénio”, acrescenta. “A descoberta de hidrogénio nesse meteorito significa que a Terra terá o potencial para ter sido hidratada ou húmida desde a sua formação”.

Questionado em relação ao motivo pelo qual os níveis de hidrogénio identificados no estudo não tinham sido detetados antes, Barrett explica que este elemento químico é difícil de medir, sobretudo em concentrações tão baixas. Segundo o especialista, a deteção só foi possível graças a uma técnica conhecida como Espectroscopia de Estrutura de Absorção de Raios-X na Borda, XANES na sigla inglesa.

O condrito de enstatita é um tipo raro de meteorito, que se acredita ser semelhante à composição da Terra primitiva (NASA)

“Para tal, é necessário um acelerador de partículas”, diz. “É uma instalação enorme, muito cara, que tivemos a sorte de conseguir usar neste estudo. E, certamente, não é o tipo de experiência que podemos fazer numa garagem”.

Este estudo pode mudar a nossa compreensão sobre a Terra primitiva. Contudo, a descoberta de hidrogénio no meteorito não significa necessariamente que a vida tenha evoluído mais cedo, nota Barrett. Até porque a habitabilidade de um planeta pode depender mais da forma como ele evoluiu do que dos materiais que o compõem, argumenta.

Hidrogénio na Terra primitiva

Uma equipa de cientistas do Centro Nacional de Investigação Científica de França já tinha analisado o meteorito que foi recolhido na Antártica, conhecido como LAR 12252. O estudo, de agosto de 2020, descobriu que os côndrulos da rocha espacial — que são minúsculos objetos esféricos — e que o material orgânico nela contido apresentavam vestígios de hidrogénio. Ainda assim, a investigação considerava apenas uma parte do hidrogénio presente no meteorito.

Os investigadores por detrás do novo estudo acreditavam que haveria mais hidrogénio dentro do meteorito, ligado ao enxofre. De uma forma inesperada, a equipa detetou sulfeto de hidrogénio na matriz fina à volta dos côndrulos — “em média, quase 10 vezes mais” sulfeto de hidrogénio do que nos objetos esféricos, explica o estudo.

“Ficámos muito entusiasmados quando a análise revelou que a amostra continha sulfeto de hidrogénio. Só que estava num local onde não esperávamos”, conta Barrett num comunicado. “Como a probabilidade de esse sulfeto de hidrogénio ter origem numa contaminação terrestre é muito baixa, esta pesquisa fornece uma evidência crucial para apoiar a teoria de que a água na Terra é nativa. Ou seja, é um resultado natural dos materiais que compõem o nosso planeta”.

O papel dos impactos de asteroides e cometas

Para os próximos passos, Barrett tem planos para analisar mais meteoritos, de modo a determinar com exatidão quanto hidrogénio terá estado presente na Terra e quanto terá sido trazido por fontes externas.

Compreender o modo como a Terra adquiriu o aspeto que tem hoje é uma questão fundamental para os cientistas que estudam o nosso planeta, diz James Bryson, coautor do estudo e professor associado no departamento de Ciências da Terra da Universidade de Oxford.

“Acreditamos agora que o material que formou o nosso planeta – e que podemos estudar utilizando estes meteoritos raros – é muito mais rico em hidrogénio do que aquilo que costumávamos pensar”, afirma.

“Esta descoberta apoia a ideia de que a formação de água na Terra foi um processo natural, e não um mero acaso, com asteroides a atingir o nosso planeta depois da sua formação”, junta.

Matt Genge, cientista que se dedica ao estudo dos planetas no Imperial College London, e que não participou no estudo referido neste artigo, diz à CNN que, apesar de o estudo apresentar um “resultado interessante”, estas evidências não são suficientes para derrubar a anterior teoria sobre a origem da água.

Segundo este especialista, o meteorito em questão esteve, provavelmente, na Antártica durante centenas de milhares de anos. Por isso, é impossível descartar completamente a possibilidade de o hidrogénio se ter formado nesse período.

“O simples facto de existir essa possibilidade enfraquece o argumento”, remata Genge.

Bryson reconhece que o meteorito terá estado na Terra muitos anos antes de ter sido recolhido, mas defende os resultados do estudo.

“Acreditamos que tomámos todas as medidas possíveis no nosso processo de análise para mitigar o impacto da água terrestre nos resultados. Pensamos que parte do total de hidrogénio no meteorito é mesmo proveniente da água da Terra, talvez cerca de 15%”, reage Bryson por e-mail. em resposta à posição de Genge.

“Também acreditamos que parte do hidrogénio foi trazida por asteroides e cometas. Contudo, agora, achamos que é uma pequena proporção do total de hidrogénio encontrado no nosso planeta. Por isso, a avaliação feita por Matt Genge em relação a este meteorito é justificável. Mas esforçámo-nos para minimizar essa preocupação”.

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