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Procuradora-geral adjunta

O linchamento - não conseguido - de Miguel Sousa Tavares

21 ago 2025, 17:45

Em 1969, Peter Fonda e Dennis Hopper, realizaram e protagonizaram o filme Easy Rider, bem conhecido de qualquer cinéfilo. Fonda e Hopper, aos quais se juntou um principiante Jack Nicholson, mostrando já então grande talento interpretativo, militavam no movimento da contracultura, do qual a liberdade, nas suas múltiplas e diferentes declinações, era valor primordial. Escrito e realizado em tom de balada, o filme discorre sobre o exercício da liberdade, finalizando num confronto trágico e mortal dos jovens livres, às mãos de homens que, do fundo das suas entranhas, odeiam essa palavra e todos aqueles que a vivenciam de alma e coração. Não conheço qualquer estudo de psicólogos sobre as raízes deste ódio, mas devem existir! O primarismo, a brutalidade, a inconsciência do grotesco, emanando de mentes cegas para valores da vida em sociedade, talvez encaixem nos postulados explicativos. Em 1969, nascera Teresa Caeiro. Com pena, não a conheci em pessoa. Com pena, reitero, porque os testemunhos de quem com ela conviveu nenhuma dúvida deixam sobre o seu carácter de humanista, entregue profissionalmente ao exercício do bem comum, fosse na ação política, fosse como jurista. Era dotada de uma personalidade doce e encantadora, mas infelizmente partiu cedo.

Entre 2011 e 2017 foi casada com Miguel Sousa Tavares (MST), jornalista, escritor, comentador e, essencialmente, um homem livre. 

Acontece que, não apenas na ficção cinematográfica, também na nossa simples proximidade, gravitam indivíduos que odeiam a liberdade e as pessoas livres. MST é um dos alvos preferenciais. Escondidos atrás de portas, hoje maioritariamente atrás de um teclado, aguardam a oportunidade de desferir dardos envenenados; em havendo ocorrência que possa distorcer-se em imputação ofensiva, mesmo que por via da insinuação, a turma habitual inicia um salivar de contentamento, espalhando gotículas de inveja para todos os lados, dedos prontos a descrever factos que só existem nas suas mentes. 

O processo até é simples: insinuação, propaganda repetitiva em todas as redes sociais de grandes massas, e, à distância de um click, a mentira fica instalada como um quisto infamante, de difícil extirpação. De permeio, alguns ganham a sua vida, outros apenas se regozijam, cogitando um pelourinho onde bem gostariam de ver o homem cuja vida, por uma razão ou por outra, lhes causa tanto ciúme. 

A personalidade de MST é conhecida. O próprio, há dezenas de anos, expõe as suas ideias no espaço público, de viva-voz na televisão e em textos que atraem leitores pela sua clareza, mesmo que dele discordem. 

Bem-sucedido nas suas intervenções no espaço público, seja como escritor, seja como comentador, suscita em quem o segue curiosidade sobre a sua vida privada. Em entrevistas várias e em artigos de opinião, fala abertamente sobre os seus pontos de vista quanto à vida na atualidade, quanto à política interna e internacional, passando pelo futebol, tema tão caro a milhares de cidadãos. 

Nunca escondeu o seu pensamento crítico – e cheio de razão - sobre o impacto negativo das redes sociais na desinformação e distorção da verdade. Traços característicos inegáveis são a sua franqueza e desassombro, qualquer que seja o tema abordado. Uma liberdade total, primorosamente cultivada, que lhe traz admiradores, mas também muitos detratores, alguns imbuídos de notória incapacidade de compreender que a liberdade de pensamento e a divergência opinativa são positivas e contribuem para o exercício da cidadania nas democracias consolidadas. 

Uma alegada conversa privada com Teresa Caeiro foi publicamente exposta num jornal de grande circulação, o que só por si já seria gravíssimo. Acresce à gravidade o facto de a divulgação – no pressuposto, duvidoso, de que a conversa teve aquele conteúdo - ter sido feita no dia seguinte ao do triste e prematuro decesso de Teresa. Com a justificação, tortuosa, de tratar-se da defesa da sua memória e do respeito que lhe é devido. Qual defesa e qual respeito? Respeito seria, primeiro que tudo, não acrescentar dor à família; respeito seria manter uma conversa privada no seu lugar original!  De resto a declaração dos familiares, negando o teor das insinuações conclusivas, sendo evidente que terão sofrido com isso um novo cálice de fel, como se já não lhes bastasse a excruciante dor pela perda inesperada, patenteia que o respeito falhou.   

Por último, o episódio sobre o qual escrevo, no seu mais recente capítulo, dá a saber aos portugueses que quem nasce na serra da Estrela nasce já com os valores que caracterizam um bom carácter, perfeitamente instilados. Certamente mercê do ar puro e frio. Quem tem o azar de nascer nas cidades do litoral ou nas planícies, precisará de andar muito para chegar à perfeição.

Com todo o respeito e em memória de Teresa Caeiro (1969-2025).

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