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Comentador CNN

Testemunho | Ela era a Tegui. Eu era o Flip

21 ago 2025, 10:00
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A política ainda tem lugar para gente boa, bem-intencionada e dedicada aos outros? Deixou de ter lugar para a Tegui, e esse foi um golpe duro. Dizia-me um amigo comum que a Tegui era um anjo. Disso nada sei. Mas se era um anjo, era dos que riam… não deve haver muitos desses, o que torna a sua perda ainda maior

Desculpem se vos maço com algo muito pessoal, mas só vale a pena fazer isto que eu faço, o que quer que isto seja, se for genuíno e se vier do que penso e do que sinto.

Perdi uma grande amiga. Devem ter visto as notícias: morreu a antiga deputada do CDS e ex-vice-presidente da Assembleia da República. Teresa Caeiro. Tegui para os amigos. Era a minha Tegui. Eu era o Flip dela.

Somos do tempo em que vivemos, e sei que este é o meu tempo. Mas também sou de outro tempo. De um tempo em que um jornalista de política podia fazer amigos em todos os partidos. Amigos mesmo, não apenas conhecidos. Em trinta anos de profissão fiz amigos do CDS ao Bloco de Esquerda. Amizades de um tempo em que discordávamos, mas nos respeitávamos. Víamos pessoas antes de fidelidades partidárias, e convivíamos bem com as diferenças.

Em vez de cavarmos trincheiras para aprofundar fraturas, alisávamos o terreno comum, que estava sempre lá e era fácil de encontrar. O respeito pelo ser humano, a compreensão da diferença de pensamento, a capacidade de lutar por aquilo em que se acredita e no fim nos rirmos daquilo que nos afastava.

A Tegui tinha tudo isso. E tinha uma entrega à causa pública, um respeito pelos eleitores, uma generosidade, empatia e disponibilidade para os outros difícil de igualar.

A Tegui não encaixava em rótulos, Era do CDS, mas não concordava com a cartilha toda do CDS. Teve a sorte de trabalhar com um líder partidário que percebia que essas diferenças reforçavam o partido, não o fragilizavam. Eram outros tempos, de facto. 

Qualquer que seja o tempo que nos calhe, encontramos o que procuramos. A regra é sempre essa. Se procurarmos diálogo e respeito mútuo, ele é possível. Se semearmos ódio e procurarmos a divisão, teremos isso.

Um amigo comum, meu e da Tegui, que tem a sorte de ser crente, dizia-me há dias que se há anjos na terra a Teresa era um deles. Sobre anjos não sei nada. Se era anjo, era um anjo com sentido de humor e que gostava de rir. Não deve haver muitos desses, o que torna a sua perda ainda maior.

A Tegui tinha valores. Por já não se rever neste CDS, que é pouco mais do que um Chega que usa talheres, desfiliou-se há poucas semanas do seu partido de sempre. Custou-lhe muito. Sei o quanto e há quanto tempo ela se debatia com essa decisão. Recordo isto, e os valores da Tegui parecem de outro tempo. 

Mas, afinal, que tempo é este? O tempo dos autocratas? O tempo dos demagogos? O tempo da mentira? O tempo do descaso, em que governantes celebram o seu partido com meio país a arder? O tempo em que a democracia emagrece tanto que se torna translúcida, como se fosse um fantasma de si mesma? 

Este tempo é disso tudo. Mas também é o tempo daquilo que quisermos fazer dele. Pode ser um tempo de luta e de resistência. Tempo de clareza, de empatia e de bondade. Esse seria o tempo da Tegui, e eu acredito nesse tempo. Porque acredito que a História não está escrita enquanto estivermos vivos e a pudermos mudar.

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