O que devemos saber quando não sentimos atração sexual pela nossa parceira

CNN , Ian Kerner
19 nov, 17:00
O terapeuta Ian Kerner diz que muitos dos seus clientes masculinos confessam que não escolheram a sua parceira com base na atração sexual. Créditos: Adobe Stock

Nota do Editor | Ian Kerner é um terapeuta matrimonial e familiar certificado, é escritor e contribui para o tópico das relações na CNN

Muitos clientes heterossexuais do sexo masculino têm chegado à minha clínica a admitir que escolheram a sua companheira sem terem em consideração a atração sexual.

Durante as sessões de terapia de casal, com a companheira na sala, o homem afirma não saber a razão de não sentir desejo. Talvez seja devido ao stress, à baixa testosterona ou à ansiedade.

Mas nas sessões individuais, é recorrente contarem uma história diferente. Dizem-me que escolheram a sua companheira sem darem prioridade à atração sexual.

Porque haveria uma pessoa de escolher alguém como potencial parceiro para a vida se não sente essa faísca da atração sexual? E será que estas relações conseguem sobreviver e prosperar? Será que algo que não estava lá antes, como a atração sexual, pode ser cultivado mais tarde?

Tenho falado com muitos homens na casa dos 30 que me disseram: "Quando encontrei a mulher com quem queria casar, ela preenchia todos os requisitos. Exceto um."

Essa lista incluía características como "é a minha melhor amiga", "vai dar uma mãe incrível", "os nossos amigos e familiares dão-se muito bem" e "ela ama-me a sério". O único requisito que não foi preenchido? A atração sexual - e, muitas vezes, os homens nem sequer listam essa qualidade.

Eu fiquei estupefacto.

A sexualidade é a única coisa que distingue uma relação romântica de uma relação platónica: a meu ver, é uma espécie de "cola" que ajuda os casais a manterem-se unidos em momentos de adversidade. Daí a minha perplexidade em descobrir que tantas pessoas desvalorizam o sexo na hora de escolherem um companheiro para uma relação duradoura.

"Estudos mostram que, apesar de a atração física estar normalmente entre os traços mais importantes que as pessoas procuram num parceiro romântico, esta não está no topo da lista nem para homens nem para mulheres", afirma Justin Lehmiller, investigador do Kinsey Institute na Universidade do Indiana, um centro de investigação norte-americano dedicado à sexualidade. "Traços como a inteligência, o humor, a honestidade e a bondade são normalmente vistos como igualmente importantes, se não mais."

Alguns homens internalizaram uma visão de "é isto ou aquilo" em relação às mulheres: há as que darão boas esposas e boas mães e as que são sexualmente aventureiras, de acordo com a terapeuta sexual de Chicago, Elizabeth Perri.

"Observei isto em pacientes do sexo masculino que estão ativamente à procura de uma parceira e que sentem a pressão de escolher alguém que considerem vir a ser uma boa esposa, mas sem a atração sexual, em vez de esperarem para encontrar uma parceira que seja mais adequada tanto a nível emocional como sexual", conta Perri.

A atração sexual pode ser um fator decisivo numa relação?

Bom sexo pode ajudar a prevenir problemas do foro psicológico, incluindo ansiedade e depressão, ajuda casais a alcançar uma ligação mais profunda e aumenta a satisfação dentro de uma relação.

"Se uma relação fosse equiparada a uma refeição, a porção sexual deveria ser considerada uma parte integral da mesma, tal como a proteína, em vez de ser considerada uma parte frívola, como a sobremesa", compara Eva Dillon, uma terapeuta sexual de Nova Iorque.

"Segundo a minha experiência, é possível as mulheres cultivarem desejo por um companheiro, com um esforço considerável, mas se um homem não sentir esse desejo pela sua companheira desde o início da relação, ele nunca a irá desejar", afirma Dillon. "Para quê esperar que a atração sexual surja mais tarde quando podemos priorizar isso num parceiro e desfrutar dos benefícios logo desde o início?"

Ainda assim, um baixo nível de atração sexual nem sempre é um problema para os casais, segundo a sexologista Yvonne Fulbright.

"Para algumas pessoas, a ausência de atração sexual pode levar a infidelidade ou divórcio. Para outras, essa mesma ausência só se torna um problema quando confrontada com as expectativas sociais em torno do sexo e do desejo", afirma Fulbright, professora conferencista adjunta no departamento de Sociologia da American University em Washington, DC.

"É posta muita pressão em cima dos casais para manterem vidas sexuais ativas, e sensuais, ainda por cima. As pessoas têm a sensação de que existe um tipo e uma qualidade de desejo que tem de ser atingido, e qualquer desinteresse no assunto é considerado um problema que deve ser resolvido."

Alguns dos meus colegas terapeutas advertem sobre colocar demasiado ênfase na atração sexual imediata.

"Existe uma ideia errada de que temos de nos sentir fisicamente atraídos por alguém no primeiro encontro ou então não existe potencial para uma relação. Isso não é verdade", defende a terapeuta sexual Rachel Needle. "Essa atração pode desenvolver-se à medida que conhecemos alguém e que experienciamos uma proximidade e ligação mais fortes."

Alimentar o fogo

O que fazer se a sua relação estiver a perder o fervor sexual? Ou se quiser fazer a temperatura subir numa relação que nunca esteve quente sequer?

Fulbright pede cautela com os conselhos radicais. "Só o próprio casal pode descobrir a melhor forma de lidar com este desafio na sua relação", sublinha.

"A não-monogamia pode resultar para uns e para outros não. Os casais devem decidir o nível de honestidade que querem ter um com o outro, o peso deste assunto para a continuação da relação e o peso que devem dar ao assunto quando comparado com outras coisas boas a favor do casal", acrescenta.

Não sinta que tudo está perdido se se encontra numa relação a longo prazo. Para alguns casais, o desejo sexual pode desenvolver-se com o tempo, se for esse o seu foco. "Normalmente, só por volta dos 30 anos é que nos sentimos à vontade para pedir certas coisas que queremos fazer no quarto", indica Dillon.

Mas eu recuso-me a concordar com quem pensa que duas pessoas casadas vão parar de fazer sexo de qualquer forma e que, portanto, não há razão para nos darmos ao trabalho de priorizar a atração sexual.

"Muitos casais na casa dos 50 exploram e expandem a sua sexualidade graças à maturidade e aos ninhos vazios. Para casais na casa dos 60, 70 e até mais que conseguem continuar a expandir a sua definição de sexo para além do orgasmo e a cocriar intimidade, o sexo continua a ser vibrante e rico", acrescenta Dillon.

E lembre-se, a sua saúde sexual é um barómetro para a sua saúde em geral. Portanto, se realmente estiver a sentir uma redução inexplicável do seu interesse sexual, considere falar com o seu médico. Talvez os seus níveis de testosterona tenham diminuído.

Seja qual for o motivo da falta de interesse sexual, seja honesto com a sua companheira. A honestidade, aparentemente, pode (vir a) ser um fator de excitação.

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