Taxas de hipertensão arterial em crianças quase duplicaram em 20 anos

CNN , Madeline Holcombe
1 fev, 11:00
Tensão arterial em crianças

Apesar do alarme, os especialistas explicam que é possível mudar a situação, mas para isso é preciso seguir certos passos

As taxas globais de hipertensão, ou tensão arterial elevada, na infância e adolescência quase duplicaram desde 2000, colocando mais crianças em risco de terem problemas de saúde mais tarde.

“Em 2000, cerca de 3,4% dos rapazes e 3% das raparigas tinham hipertensão. Em 2020, esses números aumentaram para 6,5% e 5,8%, respetivamente”, compara Peige Song, investigadora da Escola de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang, na China. Peige Song é uma das autoras de um estudo que descreve as descobertas publicadas, em meados de novembro, na revista The Lancet Child and Adolescent Health.

As crianças com hipertensão podem correr um risco maior de desenvolver doenças cardíacas mais tarde, a principal causa de morte nos Estados Unidos, acrescenta Mingyu Zhang, professor assistente de medicina na Faculdade de Medicina de Harvard e no Centro Médico Beth Israel Deaconess, que não participou na investigação.

“A boa notícia é que este é um risco modificável”, sublinha Peige Song, num e-mail enviado à CNN. “Com melhores exames, deteção precoce e um foco maior na prevenção, especialmente em torno do peso saudável e da nutrição, podemos intervir antes que surjam complicações”.

A hipertensão arterial em crianças pode ser tratada

O aumento da hipertensão em crianças provavelmente deve-se a muitos fatores.

A obesidade infantil é um fator de risco significativo, porque está associada a fatores como resistência à insulina, inflamação e função vascular, explica Peige Song.

Fatores alimentares, como o consumo elevado de sódio e alimentos ultraprocessados, também podem contribuir para o risco de hipertensão, assim como a má qualidade do sono, o stress e a predisposição genética, acrescenta.

Muitas crianças também se movimentam menos do que as gerações anteriores e passam mais tempo em atividades sedentárias, como o uso de ecrãs, o que pode estar também a aumentar o risco, diz ainda a especialista.

“Também estamos a começar a tentar perceber que outros fatores, incluindo poluentes ambientais, podem contribuir”, acrescenta também Mingyu Zhang.

Zhang foi o autor principal de um estudo anterior que mostrou uma ligação entre a exposição pré-natal a substâncias químicas chamadas PFAS ( Substâncias Per e Polifluoroalquiladas, da sigla em inglês), uma classe de cerca de 15 mil compostos sintéticos ligados a cancros, doenças endócrinas, problemas de desenvolvimento em crianças e hipertensão infantil. As PFAS são, muitas vezes, chamadas “substâncias químicas eternas”, porque não se decompõem totalmente no meio ambiente.

A principal lição desta investigação para as famílias é não assumir que a hipertensão arterial é um problema apenas para adultos, sublinha Peige Song.

Se está preocupado com o risco de obesidade ou hipertensão do seu filho, pressão, vergonha e restrição não são as melhores abordagens. Em vez disso, concentre-se em aumentar comportamentos saudáveis de uma forma feliz, aconselha Jill Castle, nutricionista pediátrica em Massachusetts, num artigo anteriormente publicado na CNN.

“O objetivo do pilar alimentar é realmente abraçar a flexibilidade com os alimentos e enfatizar os alimentos que são altamente nutritivos e... permitir também alimentos que podem ser minimamente nutritivos na dieta, de forma que possam ser totalmente apreciados e flexíveis”, diz a especialista.

Tente priorizar sentar-se em família para as refeições e evite rotular os alimentos como “bons” ou “maus”, aconselhou ainda Jill Castle, autora de “Kids Thrive at Every Size” (As Crianças Prosperam em Todos os Tamanhos, numa tradução livre para português).

“O clube do prato limpo ou recompensar com doces podem funcionar no momento, mas não fazem um bom trabalho em estabelecer a autoconfiança e uma relação intuitiva e boa com a comida à medida que as crianças crescem”, nota ainda Jill Castle.

Hipertensão mascarada em crianças

O estudo não acompanhou apenas as taxas de hipertensão nos Estados Unidos. Os investigadores analisaram dados de 96 estudos em 21 países.

Outra consideração importante feita pela equipa do estudo é como a tensão arterial difere dentro e fora do consultório médico. Algumas crianças podem ter tensão arterial normal em casa, mas uma leitura mais alta no consultório, enquanto outras podem ter uma tensão arterial mais baixa no consultório do que o normal.

Ao incluir dados de consultas médicas e leituras de tensão arterial em casa, os investigadores conseguiram incluir taxas de hipertensão que são “mascaradas” ou que não seriam detetadas numa consulta médica, sublinha Mingyu Zhang. A hipertensão mascarada foi considerada o tipo mais comum, de acordo com os dados.

“Isto é importante, porque significa que muitas crianças com hipertensão verdadeira podem passar despercebidas se confiarmos apenas nas leituras de tensão arterial feitas no consultório”, justifica.

O resultado mostra que uma única leitura pode não ser suficiente e que pode haver necessidade de soluções mais escaláveis para uma melhor monitorização e tratamento da hipertensão em todo o mundo, acrescenta ainda Peige Song.

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