O mistério de Peng Shuai: boicote da WTA à China está iminente

19 nov 2021, 12:42

Ausência de respostas sobre o misterioso desaparecimento da ex-número 1 mundial de pares pode levar a Associação de Ténis Feminino a riscar o país asiático do calendário. Celebridades do desporto mundial exigem respostas

A cada dia que passa cresce a intensidade do braço de ferro entre a Associação de Ténis Feminino (WTA) e a China a respeito do desaparecimento misterioso da tenista Peng Shuai.

O diretor-executivo da entidade responsável pela organização do calendário profissional do ténis feminino já tinha pedido uma investigação ao desaparecimento da ex-número 1 do ranking de pares depois de ter acusado Zhang Gaoli (antigo vice-primeiro-ministro da China, de violação), mas agora deixou uma ameaça séria ao país asiático.

«Estamos numa encruzilhada no nosso relacionamento com a China. Estamos claramente dispostos suspender os nossos negócios e acordos, porque isto é sem dúvida maior do que o negócio», disse Steve Simon numa entrevista à CNN.

Se a ameaça de boicote avançar, haverá implicações financeiras calculadas em dezenas de milhões de dólares num país que ao longo da última década e meia se tem cimentado na elite do ténis mundial, ora através do aparecimento de tenistas mais competitivos (sobretudo mulheres), ora por acolher eventos importantes.

Em 2019, no último ano pré-pandemia, foram nove os torneios do circuito profissional feminino que tiveram lugar neste país asiático: distribuídos pelas categorias de 125, 250, 500, 1000 e até as WTA Finals, que reúne as oito melhores tenistas da época no torneio mais cotado a seguir aos quatro Grand Slams. Contas feitas: prémios superiores a 30 milhões de dólares, qualquer coisa como 27 milhões de euros. Para 2022 estão previstos dez, incluindo as WTA Finals, atribuídas a Shenzhen até 2030.

Mas este «casamento» rentável estará prestes a atingir um ponto sem retorno. Os receios e as dúvidas são cada vez maiores e do lado do Governo chinês não há sinais de interesse em colaborar no sentido de localizar o paradeiro da tenista de 35 anos ou para investigar as acusações contra o ex-governante, membro do Comité Permanente do Politburo do Partido Comunista Chinês, a cúpula do poder na China.

Desde 2 de novembro, quando recorreu à rede social chinesa Weibo para acusar o antigo vice-primeiro-ministro de ter abusado sexualmente dela três anos antes, que Peng Shuai está em parte incerta.

Na quarta-feira (17), a televisão estatal chinesa publicou no Twitter uma carta alegadamente da autoria de Shuai: «O conteúdo [da mensagem] não foi confirmado nem verificado por mim e foi publicado sem o meu consentimento. A acusação de abuso sexual é verdadeira. Não estou desaparecida nem insegura. Tenho estado a descansar em casa e está tudo bem. Obrigado por se preocuparem comigo.»

Uma mensagem difundida por uma televisão controlada por um Governo altamente vigilante ao comportamento do cidadão comum através de um sistema de censura.

«É difícil acreditar que Peng Shuai escreveu aquela mensagem que recebemos. Peng revelou grande coragem ao denunciar uma situação de abuso sexual por um alto quadro do Governo chinês. A WTA e o resto do Mundo precisar de obter evidências verificáveis de que ela está segura», reagiu Steve Simon, que continuava sem conseguir contactar a tenista.

Nesta sexta-feira, um porta-voz do Ministérios dos Negócios Estrangeiros da China disse em conferência de imprensa que o Governo não tem conhecimento da situação e recusou a existência de qualquer problema diplomático.

Uma reação curta e que não responde à pergunta que todos fazem: ‘Onde está Peng Shuai?’

Nos últimos dias têm sido cada vez mais as celebridades, dentro e fora do ténis, a exigirem respostas. De Naomi Osaka a Gerard Piqué, passando por Serena Williams, para muitos considerada a melhor e mais influente tenista de todos os tempos, pediu uma investigação e apelou a que não se faça silêncio até que toda a verdade seja descoberta.

Quem é Peng Shuai?

Nascida a 8 de janeiro de 1986, foi número 1 do ranking de pares e 14.ª em singulares. Ao longo da carreira, iniciada em 2000, conquistou 25 títulos, 23 deles em pares, dos quais se destacam Wimbledon (2013) e Roland Garros, em 2014.

Foi a primeira tenista chinesa a atingir o topo da hierarquia do ténis, proeza que alcançou em 2014 e que nem Li Na, que é até aos dias de hoje a única chinesa a ter conseguido vencer pelo menos um torneio do Grand Slam na variante de singulares, conseguiu alcançar. Em 2018 foi suspensa seis meses (três de pena suspensa) após ter sido provado que tentou coagir a então parceira de pares a desistir do torneio de pares de Wimbledon em 2017, o que configurou uma violação das normas do programa anti-corrupção do desporto. Os últimos títulos conquistados datam de 2019.

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