Estrela de ténis da Ucrânia pergunta-se “Para que estou eu a viver?” Como os ucranianos lidam com a invasão russa

CNN , Amy Woodyatt
2 mai, 22:00
"Não gostaria de viver num país que não me permite falar", disse Kostyuk à CNN

ENTREVISTA. Marta Kostyuk diz estar consciente da importância de tentar controlar os seus sentimentos e diz estar a ser acompanhada por um psicólogo.

A tenista ucraniana Marta Kostyuk está a ter dificuldades em concentrar-se, neste momento, no desporto a que dedicou a sua vida. Por vezes, há demasiada dor e turbulência emocional para compreender como Kostyuk, de 19 anos, nascida em Kiev, reflete sobre o impacto da invasão do seu país pela Rússia, em si e nos colegas jogadores ucranianos.

"Neste momento é algo indescritível, há um pai de um jogador de ténis que morreu", disse Kostyuk à CNN. E “há uma casa de um tenista que está completamente destruída", afirmou.

A própria saúde mental de Kostyuk também foi afetada.

"Foi extremamente difícil, na primeira ou nas primeiras duas semanas", afirmou à CNN, em entrevista por telefone no início de abril.

"Faz dois meses e, sabe, isto melhora e piora, vai mudando. Estou a tentar guiar-me um pouco, apenas a tentar ver onde estou. A tentar sentir-me e entender-me", acrescentou.

Kostyuk está extremamente consciente da importância de tentar controlar os seus sentimentos e diz que está a trabalhar com um psicólogo. "Comecei há algumas semanas, o que me ajuda muito. Mas sabe, às vezes chega a ser assustador, os pensamentos que vêm à cabeça", acrescentou Kostyuk. "Eu não quero dizer as palavras, você pode descobrir sobre o que estou a tentar falar. Porque, a este ponto, há tantas coisas a acontecer, é preciso carregar tantas coisas de uma só vez que você fica, tipo, eu não posso lidar mais com isto”.

"Eu estou, tipo, para onde tudo está a ir? Isto nunca acaba, tipo, o que devo fazer com a minha vida agora? Para que estou eu a viver?" disse.


“Eu não deveria ficar em silêncio”

O que tem ajudado Kostyuk e lhe dado um propósito é tentar ensinar as pessoas sobre a guerra na Ucrânia. "Toda a gente está a fazer isso de maneiras diferentes, mas o meu único objetivo é não me sentir uma vítima nesta situação", afirmou. "Porque eu não sou e não estou a posicionar-me assim. Nas duas primeiras semanas [da invasão], tive essa sensação, de que sou uma vítima, tipo, não sei o que devo fazer, porque raramente me sinto assim na minha vida.”

"Este foi o ponto de viragem para mim, quando mudei esta mentalidade de não ser uma vítima", afirmou.

"Eu não deveria ficar em silêncio. Deveria dizer o que penso. Não deveria gritar a plenos pulmões, tipo, por favor ajudem-nos. Nós dizemos especificamente de que ajuda precisamos”.

"Ainda sou uma jogadora de ténis e ainda quero competir. Não quero magoar-me. Não quero chegar ao ponto em que estou apenas 'quer saber? acabei. Não posso jogar ténis neste momento... não posso fazer nada’."

Kostyuk é dos jogadores ucranianos que pediram a atletas russos e bielorrussos que denunciassem a decisão do governo russo de invadir a Ucrânia se quisessem entrar em competições internacionais.

Marta Kostyuk está classificada como 60ª do mundo no ranking de ténis (e 74ª em pares).

“Uma grande responsabilidade”

No início de abril, os organizadores de Wimbledon anunciaram que os jogadores russos e bielorrussos não poderiam competir na edição deste ano após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Vinte vezes campeão de Grand Slams, o sérvio Novak Djokovic criticou a decisão, apelidando-a de “loucura”. Entretanto, o tenista russo Andrey Rublev disse que a proibição é “ilógica” e equivale a “completa discriminação”.

Numa conferência de imprensa na terça-feira, Ian Hewitt, presidente do All England Lawn Tennis Club (AELTC), que gere Wimbledon, afirmou: “Não é discriminação na forma em que está a ser dita, é uma visão ponderada que visa alcançar qual é a decisão certa e responsável em quaisquer circunstâncias."

Num post no Twitter no início de abril, Kostyuk escreveu: "Como atletas, vivemos uma vida aos olhos do público e, portanto, temos uma enorme responsabilidade... Em tempos de crise, o silêncio significa concordar com o que está a acontecer".

Além de Kostyuk, os jogadores ucranianos Elina Svitolina e Sergiy Stakhovsky estão entre os que pedem à WTA, ITF e ATP que peçam aos jogadores daquelas duas nacionalidades que condenem a invasão.

“No tour, estamos sozinhos”

Kostyuk disse à CNN que os críticos de sua posição argumentaram que "jogadores de ténis... não têm nada a ver com política".

"Não entendo: qual é o sentido de dividir essas duas coisas? É um grande sistema em que estamos a circular. Um não pode viver sem o outro e vice-versa", disse. "Então, para mim [a ideia de que] 'o desporto está fora da política'… Honestamente, durante muitos anos, foi provado exatamente o contrário".

"Estamos a tentar falar sobre o facto de que nenhum dos jogadores veio e falou connosco para tentar ajudar de alguma forma", acrescentou. "Costumávamos ser amigos de muitos jogadores. Já não sou amiga de ninguém, nem de um único jogador", disse.

"Sabemos que o mundo inteiro está a tentar apoiar-nos [à Ucrânia]. Toda a gente sabe que o que está a acontecer está errado. E mesmo assim, dentro do tour, estamos sozinhos", desabafou.

Em resposta à decisão de Wimbledon de banir atletas russos e bielorrussos do torneio deste ano, a WTA distanciou-se da decisão da AELTC. "A WTA condena veementemente as ações que foram tomadas pela Rússia e a sua invasão não provocada da Ucrânia. Continuamos os nossos esforços de ajuda humanitária para apoiar a Ucrânia, através do Tennis Plays for Peace”, disse a organização em comunicado, acrescentando estar "muito dececionada" com a decisão da AELTC e da Lawn Tennis Association, que também anunciou que baniria atletas russos e bielorrussos de competir nos seus eventos. "Um princípio fundamental da WTA é que atletas individuais podem participar de eventos profissionais de ténis com base no mérito e sem qualquer forma de discriminação".

A ATP adotou uma posição semelhante, dizendo que a decisão foi "injusta e tem o potencial de estabelecer um precedente prejudicial para o jogo". E acrescentou: "A discriminação com base na nacionalidade também constitui uma violação do nosso acordo com Wimbledon, que afirma que a entrada de jogadores é baseada apenas no Ranking ATP".

"É importante enfatizar que os jogadores da Rússia e da Bielorrússia continuarão a poder competir nos eventos ATP sob bandeira neutra, posição que até agora era partilhada no ténis profissional".

"Cada um tem uma escolha"

Kostyuk disse, no entanto, acreditar que os jogadores russos e bielorrussos têm a responsabilidade de se posicionar sobre a invasão, se não a apoiarem. "Alguns dos jogadores de ténis russos não estão sequer a morar na Rússia. [Eles] têm todo o direito de levar a sua família, mudarem-se e dizer o que realmente sentem que é a coisa certa a fazer, se sentirem que devem falar”.

"No entanto, eles não estão a fazer isso. Sejamos honestos, tiveram tempo suficiente para fazê-lo ", acrescentou.

"Toda a gente tem uma escolha a fazer. Há um bando de tenistas que têm recursos para mudar as suas família para fora do país. E ainda assim eles não estão a fazer isso. Porquê, não sei.”

"Não gostaria de viver num país que não me permite falar; que não me permite viver a minha vida; que (quer) a minha família em perigo por causa de minhas ações”.

"É por isso que estamos a tentar forçá-los a falar, por qualquer forma. Mesmo que alguém apoie essa invasão, fale sobre isso; diga a sua opinião publicamente. Mas eles sabem que, se o fizerem, ficarão sem trabalho", denuncia.

 

Como obter ajuda: Em Portugal, contacte o Serviço de Saúde Mental do Hospital da sua região – AdultosInfância e Adolescência. A linha SNS24 (808 242424 e www.sns24.gov.pt) e o 112 também estão disponíveis. Entre em contacto através das Linhas de Crise e da Linha de Aconselhamento Psicológico. Para mais informações, consulte o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio.

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