Em apenas um ano os vídeos com a hashtag #nightgown aumentaram 200% no TikTok
Esta não é a camisa de noite da sua avó. Ou talvez seja. O mesmo estilo de roupa de dormir que antes era estritamente relegado para os quartos e boudoirs tornou-se agora o vestido de verão do ano.
O 'Holly Sleep Dress' da Reformation [marca norte-americana, de Los Angeles], um minivestido flutuante com um decote ao estilo dos anos 50 com bordos recortados, foi inspirado em “camisas de dormir vintage que pode provavelmente usar fora de casa”, lê-se no site da marca. Da mesma forma, a marca Damson Madder [marca britânica, de Londres], também conhecida como “cool-girl”, refere que a sua camisa de noite 'Elspeth', que apresenta bordados florais delicados e uma bainha de bordado, é “fácil de usar da noite para o dia”. Entretanto, a If Only If - a marca britânica por detrás das camisas de noite usadas por Megan Stalter na série da Netflix “Too Much”, de Lena Dunham - fotografa modelos a usarem as suas camisas de noite com sacos de vime no mercado ou no campo.
No TikTok, os vídeos com a hashtag #nightgown aumentaram 200% nos últimos 12 meses. Os criadores de conteúdos no Instagram estão a mostrar o mesmo entusiasmo. “Não consigo parar de comprar camisas de noite vintage”, diz a influenciadora Bridget Brown aos seus 99.000 seguidores no Instagram num vídeo recente, enquanto desempacotava uma camisa de noite de algodão bordada, com decote redondo, e ligeiramente abaixo dos joelhos, comprada em segunda mão no Facebook Marketplace. “Isto é sexy para uma camisa de noite eduardiana, deixem-me que vos diga”, acrescenta, com a boca aberta.
Mas enfrentar o mundo exterior com roupas íntimas não é um conceito totalmente novo. No final do século XVIII, a artista francesa Elizabeth Louise Vigée Le Brun pintou um retrato de Maria Antonieta, a última rainha de França, com um chapéu de palha inclinado e um vestido camiseiro - uma peça de roupa interior típica das mulheres da época. O retrato foi inicialmente apresentado na primeira exposição de Vigée Le Brun na prestigiada Académie Royale de Peinture et de Sculpture em 1783, embora a natureza exposta da camisa de noite da rainha tenha sido considerada demasiado inapropriada para ser vista pelo público e rapidamente removida.
Durante anos, os designers tentaram aproveitar essa mesma sensação de choque, exposição e excitação, reimaginando na passerelle peças de lingerie como espartilhos, soutiens e camisas de noite. Para o seu desfile primavera-verão 1992, em Londres, John Galliano inspirou-se no romantismo e na sensualidade das túnicas do século XIX, tipicamente usadas na corte francesa. Intitulada “Napoleão e Josefina”, a coleção de Galliano incluía camisas de noite transparentes que revelavam o busto por completo. No desfile primavera-verão 1995 da Calvin Klein, em Nova Iorque, as camisas de noite com rendas sedosas em preto, cinzento-pedra e champanhe pendiam das armações de modelos como Kate Moss e Stella Tennant. Se a coleção de Galliano pretendia capturar uma fantasia teatral de roupa de dormir, Klein ofereceu uma versão de camisas de noite que eram surpreendentemente sofisticadas e até, por vezes, apropriadas para o escritório. Em 1997, a estreia de Stella McCartney como designer da Chloé veio aumentar ainda mais a discussão: com delicadas alças em forma de esparguete e cores pastel, as camisas de noite que apareceram na passerelle foram talvez as mais fiéis ao que poderia ter sido realmente usado na cama.
A maré mudou bastante desde os dias do retrato de Maria Antonieta - até a princesa Diana usou um slip dress azul escuro e preto com rendas da Dior na Met Gala de 1996. Mas enquanto as camisas de noite foram usadas anteriormente como uma abreviatura visual para o sex appeal, com os seus cortes que deixam a pele à mostra e o seu tecido sedoso, a tendência atual é impulsionada por silhuetas mais frias e historicamente mais precisas.
Rachel Tashjian, crítica de moda do jornal norte-americano Washington Post, que também escreve uma newsletter só para convidados chamada “Opulent Tips”, tem uma camisa de noite de algodão do final do século XIX que gosta de usar quando passeia o seu cão no Central Park de Nova Iorque aos fins de semana. “O tecido é bastante rijo e quase me faz lembrar a cobertura de um bolo de casamento”, descreve. Terá pertencido, pensa, à bisavó do marido. “As peças dessa altura, especialmente as camisas interiores, têm todos estes detalhes incríveis de rendas, pregas e plissados”, acrescenta.
Sandeep Salter, cofundadora da marca de vestuário e artigos para a casa Salter House, sediada em Nova Iorque, afirma que as camisas de noite e os pijamas de algodão orgânico são as suas categorias mais populares. “Os nova-iorquinos conhecem-nos por isso e continuamos a lançar novos modelos periodicamente”, diz. Os vestidos são inspirados numa série de referências - desde as camisas de noite que Salter recebeu da mãe quando tinha 13 anos até à camisa de noite original usada por Wendy Darling em “Peter Pan”. Uma das criações de Salter, uma túnica de algodão branco de gola quadrada de grandes dimensões chamada “The Lamb”, foi modelada com base na roupa interior tradicional francesa do século XIX. “Vemos as nossas camisas de noite transformadas em roupa de dia de formas muito bonitas”, indica Salter. “Com um casaco de malha atado como uma faixa à volta do corpo, com uns saltos Mary Jane ou umas sapatilhas de ballet e uma mala elegante.” Ela própria gosta de combinar uma camisa de noite Salter com um elástico para o cabelo de tamanho grande (scrunchie) e um boné de basebol.
Independentemente da forma como é usado, o ponto comum entre estes vestidos românticos e largos é o conforto. É uma ressaca, talvez, dos confinamentos induzidos pela pandemia de 2020, quando as pessoas foram obrigadas a ficar em casa e as vendas de calças de fato de treino aumentaram (até Anna Wintour sucumbiu à tendência). Dois anos mais tarde, quando as restrições foram levantadas após a pandemia, voltámos a vestir as nossas calças de ganga, mas o desejo de conforto nunca desapareceu. “Sabe bem, fisicamente”, diz Salter sobre o interesse contínuo em vestidos de gala. Tashjian concorda, considerando que as camisas de noite oferecem uma alternativa mais elegante às calças de fato de treino largas.
A popularidade dos estilos de roupa de dormir também não está a ser impulsionada apenas pelas mulheres. Na Semana da Moda Masculina de Milão, em junho, a Dolce & Gabbana apresentou loungewear, conjuntos largos e calças e camisas às riscas a condizer, que se assemelhavam a pijamas.
Será que as recentes tendências da moda, como estas, têm alguma coisa a ver com um renascimento da política conservadora? “Penso que muito disto se resume à forma como a pessoa o está a usar”, considera Tashjian. “Há também um mundo em que se trata de uma certa fusão deste estilo conservador de ‘esposa tradicional’”, diz, referindo-se à tendência crescente de vestidos de sereia, saias em linha A e blusas de manga folhada. Mas muitas outras mulheres jovens estão a piscar o olho a este tipo de feminilidade antiquada, ao mesmo tempo que se envolvem com ela. Veja-se o desfile primavera-verão 2023 da Prada, em que as camisas de noite e os casacos de senhora foram apresentados com sapatos Mary Janes de salto alto e malas de mão. “É uma mulher que pega em coisas que são atribuídas a uma determinada faixa da vida e recontextualiza-as de uma forma muito atrevida, maliciosa ou arrogante”, observa Tashjian.