O maior templo conhecido dedicado a Hécate continua a atrair seguidores de todo o mundo e a manter viva uma tradição com mais de dois mil anos
A província de Muğla, no sudoeste da Turquia, oferece tudo aquilo que os viajantes esperam desta zona do Mediterrâneo: costas banhadas pelo sol, montanhas escarpadas e vestígios de impérios há muito desaparecidos.
Mas, para lá destas atrações mais conhecidas, esconde algo muito menos familiar - um local que atrai um fluxo discreto, mas dedicado, de visitantes por razões que pouco têm a ver com descanso ou lazer.
A cerca de uma hora de carro a norte da pitoresca vila costeira de Akyaka fica Lagina, uma antiga cidade sagrada que alberga o maior templo conhecido dedicado a Hécate, uma poderosa deusa da mitologia grega associada à bruxaria, à Lua, às encruzilhadas e à comunicação com os mortos.
Enquanto o culto à maioria das divindades da Grécia e da Roma antigas ficou remetido para a História, Hécate continua a ser alvo de veneração, reunindo seguidores em vários pontos do mundo. Alguns deles deslocam-se até ao santuário que lhe é dedicado para deixar oferendas.
Hoje, o santuário e o templo proporcionam uma visita fascinante. As ruínas espalham-se por uma vasta área, com colunas e estruturas ainda bem visíveis que permitem imaginar a grandiosidade de um santuário outrora considerado a porta de entrada para um mundo sobrenatural.
Para os atuais devotos de Hécate, Lagina é mais do que um local arqueológico; é o centro espiritual do seu mundo.
"É o único templo desta dimensão no mundo construído exclusivamente em honra da deusa Hécate", afirma Bilal Söğüt, professor da Universidade de Pamukkale, na Turquia, que lidera as escavações tanto no santuário como na antiga cidade vizinha de Estratoniceia (Stratonikeia).
Os dois locais estavam outrora ligados pela Via Sagrada, um caminho empedrado com pouco mais de oito quilómetros de extensão.
Ladeada por fontes, poços e pequenos povoados, esta via servia de palco a elaboradas procissões religiosas que ligavam a cidade ao santuário.
“Na Antiguidade, grandes procissões percorriam este caminho”, explica Söğüt.
A porta entre a vida e a morte
O mais importante destes rituais era o da chave sagrada. Nele, uma jovem conhecida como kleidouchos, ou portadora da chave, transportava uma chave sagrada entre Lagina e Estratoniceia, acompanhada por um grande coro.
"Esta chave não abre apenas portas físicas", explica a investigadora e autora Hüma Zeybek, que escreveu sobre Hécate. "Simboliza a capacidade de transitar entre a vida e a morte, o consciente e o inconsciente, o antigo e o novo."
Zeybek explica que Hécate era considerada a deusa das transições e das encruzilhadas, uma guia espiritual para quem atravessava períodos de crise pessoal ou transformação. É também encarada como o arquétipo da anciã sábia, representando uma linhagem de sabedoria feminina transmitida ao longo de gerações e que remonta a cerca de 8.000 anos, até às figuras da deusa-mãe encontradas no povoado neolítico de Çatalhöyük, no centro da Turquia.
Lagina ganhou importância por volta de 88 a.C., durante o conflito entre Roma e Mitrídates, governante do Reino do Ponto, que abrangia grande parte do território da atual Turquia. Enquanto o restante da região apoiou Mitrídates, Estratoniceia alinhou-se com os romanos, que acabariam por sair vitoriosos.
Mais tarde, os romanos recompensaram a cidade com um forte investimento no Templo de Hécate e instituíram o festival Hecatésia-România, um evento anual que atraía visitantes de todo o mundo antigo.
Lagina continua a ser um local de peregrinação. Devotos contemporâneos, como a autora Sorita d’Este, que se descreve como sacerdotisa e praticante de magia, visitam o local para experienciar aquilo que consideram ser um espaço de profunda energia espiritual.
Para muitos, a própria viagem até ao santuário tem um significado simbólico, uma vez que implica atravessar uma moderna encruzilhada de três vias junto a uma central elétrica industrial com três imponentes chaminés, numa evocação do papel de Hécate como deusa das encruzilhadas.
Uma transformação sombria
Enquanto muitos visitantes se limitam a absorver a atmosfera do local, outros deixam discretamente oferendas entre as ruínas: alho, romãs, maçãs, trigo e, ocasionalmente, peixe. Embora esta prática seja desencorajada pelos arqueólogos devido aos potenciais danos que pode causar aos vestígios mais frágeis, as oferendas refletem os sacrifícios feitos à deusa há milhares de anos.
Söğüt afirma que muitos dos atuais seguidores praticam versões contemporâneas do culto de Hécate. Segundo alguns estudiosos, a ligação que a deusa continua a exercer sobre os seus devotos está relacionada com a forma como a sua imagem evoluiu ao longo do tempo - e com a forma como foi, por vezes, mal compreendida.
Nos primeiros textos da Antiguidade, como a Teogonia do poeta Hesíodo, Hécate surge retratada como uma deusa poderosa e profundamente venerada, a quem Zeus, rei dos deuses, concedeu vastos domínios sobre a terra, o céu e o mar. Era vista como uma protetora, uma fonte de sabedoria e uma força cósmica.
Mas a sua imagem acabaria por mudar, passando de uma divindade venerada para uma figura temida. Emrah Urtekin, investigador arqueológico turco que desenvolve uma tese sobre o culto de Hécate, acredita que as origens dessa transformação podem remontar ao dramaturgo grego Eurípides. Na tragédia Medeia, o autor retrata Hécate como uma patrona da magia negra e da feitiçaria.
"A ampla veneração da deusa Hécate naquela época - e, em particular, as constantes referências ao seu nome e às suas capacidades curativas - devem ter incomodado Eurípides de alguma forma, levando-o a retratá-la dessa maneira", afirma Urtekin.
Esta visão não se limitou, porém, aos antigos gregos. Durante a Idade Média, Hécate passou a ser associada à feitiçaria, refletindo aquilo que Hüma Zeybek descreve como "a visão opressiva que a Europa medieval tinha da sabedoria feminina".
Os atuais devotos de Hécate continuam a venerá-la como uma figura ligada à magia, mas associada a forças benéficas. Veem-na como uma guia cósmica, uma deusa dos caminhos e uma portadora de luz.
Atualmente, realizam-se cerimónias dedicadas a Hécate em vários pontos do mundo.
Um "museu dos sismos"
Urtekin, o investigador arqueológico, assistiu pela primeira vez a um ritual dedicado a Hécate na Alemanha, no quintal de uma casa cuja localização se comprometeu a não revelar, limitando-se a dizer que a região onde decorreu a cerimónia tem cerca de 3.000 seguidores da deusa.
Envolto pelo aroma do incenso, observou os devotos a serem orientados por sacerdotes e sacerdotisas enquanto deixavam oferendas de comida e vinho e entoavam hinos inspirados em antigos textos gregos.
Não existem dados oficiais sobre o número de pessoas que atualmente veneram Hécate em todo o mundo. Ainda assim, o Covenant of Hekate, organização fundada por Sorita d’Este, afirma reunir uma comunidade global com centenas de membros. A deusa ocupa também um lugar importante entre seguidores da Wicca e de outras tradições pagãs.
Para quem não partilha destas crenças, Lagina destaca-se igualmente pelo seu valor arquitetónico. Construído sobretudo no século I a.C., sobre um local sagrado mais antigo e de menores dimensões, o monumental templo combinava de forma invulgar elementos dos estilos jónico e coríntio. As ruínas conservam ainda diversos elementos de interesse, incluindo representações do labrys - um machado de dupla lâmina - e símbolos esotéricos gravados nos degraus de pedra.
Segundo Söğüt, o local é quase um "museu dos sismos", uma vez que os estragos provocados por terramotos ocorridos há séculos permanecem visíveis para os visitantes.
Lagina ocupa também um lugar importante na história da arqueologia turca. Na década de 1890, foi um dos primeiros locais a ser escavado por Osman Hamdi Bey, considerado o pai da arqueologia no Império Otomano, nas décadas que antecederam a criação da República da Turquia.
A sua antiga residência, na aldeia vizinha de Turgut, foi transformada num museu que pode ser visitado pelo público.
A rápida intervenção de Osman Hamdi Bey impediu que os magníficos frisos descobertos no templo - que, de forma invulgar, retratavam guerreiras amazonas em contexto de paz e não de guerra - fossem levados clandestinamente para a Áustria. Graças à sua ação, as peças permaneceram na Turquia e encontram-se atualmente no Museu Arqueológico de Istambul e no Museu de Muğla.
Segundo o investigador Urtekin, a preservação destes vestígios deixou aos seguidores de Hécate um património material sem paralelo para inspirar as suas práticas religiosas.
"Não existe nenhum outro culto que tenha conservado de forma tão notável os seus vestígios, as suas crenças e o seu património material."
