Muito trabalho e pouca gente para o fazer. Porque é que milhares de pessoas ainda continuam sem eletricidade?

12 fev, 08:25
Técnicos da Redes Energéticas Nacionais (REN) reparam a rede elétrica após a passagem da tempestade Kristin em Marinha Grande, Leiria, Portugal, a 30 de janeiro de 2026. EPA/CARLOS BARROSO

Passadas quase duas semanas da tempestade Kristin, 35 mil pessoas continuam sem energia. Mas "não é estranho" que o processo "demore algum tempo"

Mais de duas semanas depois de a tempestade Kristin ter varrido o centro do país, os trabalhos de restauração da rede elétrica continuam para dar resposta aos cerca de 35 mil clientes que ainda não têm energia nas suas casas.

O último balanço feito pela E-Redes destacava Leiria como o distrito mais afetado, com 26 mil pessoas sem eletricidade, seguido de Santarém, com seis mil. Castelo Branco vem depois, com dois mil e, por fim, Coimbra, com mil clientes ainda sem acesso a energia.

A demora do processo deve-se à complexidade do trabalho, mas sobretudo à sua dimensão “imensa”, começa por explicar à CNN Portugal Jorge Liça, vice-presidente da Ordem dos Engenheiros e especialista em estruturas energéticas.

“Além do trabalho ser complexo, é sobretudo muito volumoso, ou seja, há muito trabalho para fazer”, sublinha, argumentando que o principal problema é a falta de mão de obra qualificada pronta a exercer.

Segundo o responsável, cada país tem um conjunto de pessoas especializadas que se dedica à construção de rede elétrica nova ou à reparação e manutenção da rede elétrica existente. O problema, acrescenta, é que, “numa situação de catástrofe, estes recursos são insuficientes para rapidamente resolver as questões todas, porque há muito trabalho e a quantidade de recursos técnicos especializados é limitada”.

Jorge Liça explica que, em suma, “os recursos disponíveis são poucos e o trabalho é muito grande, portanto, demora o seu tempo".

Há uma "rutura de equipamentos"

“São muitos postes caídos e reparar todos esses postes e circuitos não é uma coisa fácil”, diz José Medeiros Pinto, engenheiro eletrotécnico, reconhecendo a falta de matéria-prima como o outro grande entrave à celeridade do processo.

“Pode haver uma rutura de equipamentos específicos, o que torna tudo mais demorado. Alguns trabalhadores precisam de cadeias de isoladores, cabos específicos, que podem não estar disponíveis logo no momento”, frisa o especialista.

A esta restauração soma-se o trabalho de acerto técnico e de verificação dos equipamentos nas subestações terminais, por si só processo que “demora tempo”, avisa José Medeiros Pinto.

Jorge Liça, por sua vez, defende que o conjunto de materiais em causa “é mais fácil de conseguir”, tendo em conta que só a zona central do país é que foi mais fustigada pelo mau tempo.

“Há armazéns com equipamentos disponíveis em vários pontos do país e até se vai buscar a Espanha e a França. São cabos, acessórios de amarração, isoladores que é preciso recolher, mas isso faz-se rápido”, afirma o vice-presidente da Ordem dos Engenheiros, que volta a apontar a falta de equipas como o maior problema.

Ainda assim, reconhece, são necessários “muitos meios de elevação, gruas, plataformas elevatórias e às vezes até retroescavadoras para fazer novos buracos para instalar novos postes”.

A situação atual pode também abrir uma janela de comparação com o apagão de abril, que deixou Portugal inteiro às escuras, mas Jorge Liça alerta para uma diferença substancial que distancia os dois fenómenos: “No apagão não há dano na rede, portanto não há uma operação de reparação”, mas sim o restabelecimento do equilíbrio entre o consumo e a produção.

Neste caso, adianta o especialista em estruturas energéticas, “há efetivamente danos que têm de ser reparados, postes caídos, condutores quebrados e postes de transformação que ficaram inativos”.

Face à extensão dos danos, cuja reparação terá sido também condicionada pelas depressões Leonardo e Marta, “não é estranho que demorem algum tempo”, salienta o engenheiro José Medeiros Pinto.

Um cenário hipotético sugerido pelo especialista eletrotécnico pode ajudar a entender a dimensão da operação. Se houvesse “cinquenta postes por reparar e dez equipas no terreno, reparariam cinco postes por dia, num total de 20 dias”.

Adaptar a rede elétrica ou alterar a sua natureza?

Numa altura em que o próprio presidente da E-Redes, José Ferrari, admitiu não conseguir garantir uma data para a reposição total da eletricidade, ambos os especialistas garantem que, no que toca à reparação das infraestruturas, o problema da celeridade irá “existir sempre”.

O que pode ser feito a nível da prevenção, defende Jorge Liça, é tornar as redes “mais resistentes e resilientes”. A ideia é partilhada por José Medeiros Pinto, que defende uma projeção de linhas que aguentem ventos até 230 quilómetros por hora, lembrando que “o risco vai estar sempre presente”.

Reforçar as redes aéreas e mantê-las aéreas é um dos caminhos a seguir no plano das soluções, mas há outro: alterar a natureza das próprias redes. Jorge Liça refere-se a enterrar parte da linha nas zonas em que há maior riso, uma hipótese anteriormente levantada pela ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, que alertou para o custo elevado dessa via.

Por enquanto, a solução temporária está nos geradores, de maior dimensão para consumo maior e de pequena dimensão para as famílias isoladas. O vice-presidente da Ordem dos Engenheiros, alerta ainda assim para a falta de instrumentos, que tem deixado parte da população sem luz: “Estamos a falar de dezenas de milhares de consumidores, portanto não há geradores com essa dimensão.” 

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