"É uma sensação muito estranha estar dentro de casa e ver que o telhado está a ir embora"

29 jan, 20:13
Figueiró dos Vinhos

Cercados e com um sentimento de abandono, os moradores de Figueiró dos Vinhos lamentam terem ficado “esquecidos”. O vento abriu telhados, inundou casas e muitos, especialmente idosos, continuam isolados sem conseguir pedir ajuda ou procurá-la. Nem o cemitério foi poupado. “Aquilo parecia a guerra”

A estrada para Casal dos Bufos está travada em três sentidos por troncos, raízes e telhas que não deixam descobrir o asfalto. No caminho, o silêncio é apenas cortado pelo vento, por um ocasional condutor em marcha-atrás e por Noé, que, desorientado, dirige-se às oliveiras do seu terreno. Depois de uns breves minutos, volta para dar más notícias à mulher, Irene. “Está o relvado todo tirado, arrancaram-se tudo.” Mas as notícias mais graves estavam onde Irene se encontrava, em casa. 

“Ponha aqui a sua mão. Está tudo molhado. O quarto, a sala, o chão… Se vocês puderem, acudam-me”, diz Irene, 80 anos, no interior da pequena habitação. A água ainda escorre e ouve-se o tilintar da chuva a bater nos azulejos da cozinha e nos alguidares deixados na casa de banho. “Com esta ventania ficámos sem telhado”, explica Noé enquanto sobe por umas escadas até chegar ao sítio onde houve aquele telhado. “Foi na noite de anteontem, o vento levou grande parte das telhas e ainda não conseguimos falar com ninguém para o arranjar.” 

Noé e Irene não podem sair dali. Nenhum dos dois pode conduzir, os vizinhos que ainda têm estão na mesma condição e, em todo o distrito, não há uma chamada que se consiga fazer. “Não consigo falar com ninguém”, soluça Irene, dirigindo-se para o quarto, “nem com os meus filhos”. “Não sei o que vai acontecer... Olhe, eu tive de dormir assim, num canto da cama, porque isto era só água.” 

Noé e a mulher, Irene, à entrada de casa em Casal dos Bufos 

A poucos quilómetros dali, em Figueiró dos Vinhos, há a notícia de que alguém conseguiu fazer uma chamada. Foi o presidente da Câmara, Carlos Lopes. Um pedido de ajuda feito através do telefone satélite dos bombeiros. “Estamos cercados”, disse. Carlos Lopes não dorme há 20 horas. “São tantas pessoas desesperadas, é tanto sofrimento, tanta destruição de habitações. Não conseguimos largar.” Faz uma pausa a cada palavra enquanto se dirige para uma sala no quartel de bombeiros, onde o número de casos urgente sinalizados já vai para lá dos 60. 

A preocupação nota-se também no rosto de Jorge Martins, o comandante dos Bombeiros. Conta que desde as cinco da manhã de quarta-feira o concelho ficou com os acessos todos cortados pelo rasto de destruição causado pela queda de árvores, placas de sinalização e cabos elétricos. “O objetivo foi, inicialmente, libertar todas essas vias para as pessoas irem trabalhar, mas também para socorrer quem necessitasse e também para que as pessoas pudessem ir ajudar familiares.”

A expressão de ansiedade de Jorge Martins muda entretanto para frustração. As horas foram passando, cada vez mais habitações iam sendo danificadas pelo vento e pela chuva e, refere, “as atenções estavam todas viradas para Leiria, ou Pombal, mas aqui nesta parte  pouco se falou”. “São muitas pessoas isoladas que precisam de cuidados rápidos. Sentimo-nos muito desapoiados, hoje felizmente houve pressão do presidente da Câmara.”

“Aquilo parecia a guerra”

“Deu-me a sensação de que ficámos esquecidos e de que ninguém cá chegava”, conta, do outro lado da rua, Albino Coelho, 54 anos. Fuma um cigarro, está abrigado no toldo de um dos poucos cafés que ainda mantinham as portas abertas. “Por não termos comunicação, não conseguimos entrar em contacto com ninguém e, ao mesmo tempo, não aparecia cá ninguém.” 

A noite, refere, “foi terrível”. “A minha casa ficou sem telhas, caiu a chaminé, está a chover em casa”, conta Albino Coelho, angustiado por não saber quanto tempo vai demorar até a normalidade ser reposta - algo que pode durar semanas. Diz que primeiro caiu a luz em casa e que só depois se apercebeu de como não havia rede para pedir ajuda. Eram três da manhã, olhou lá para fora e viu a escuridão. 

Decidiu não sair de casa. A intenção era proteger-se a si e à família da queda de uma árvore ou de qualquer outro objeto - afinal, perto dali existiam camiões abalroados no IC8 apenas pela força do vento. Mas o simples ato de ficar gerou nele algo que ainda agora lhe causa terror. “É uma sensação muito estranha estar dentro de casa e ver que o telhado está a ir embora.” Depois de dizer isto, afasta as beatas do cigarro. 

“O trauma ainda cá está”, continua, “só o som das telhas a bater me faz despertar à noite”. “Com a idade que tenho, acho que nunca passei por uma coisa assim. Em 2017 foi muito complicado, mas esta noite foi terrível.” Pouco antes, passava de pick-up Arlindo Dinis, professor universitário e presidente da união de juntas dali. “O cemitério ficou completamente destruído”, avisa. 

Desde manhã que Arlindo Dinis tem corrido as freguesias à procura de quem precisa de ajuda. Tinha encontrado uma idosa cujo teto “lhe caiu pela sala de estar”. “Foi o desespero total.” Arlindo Dinis tem “crianças assustadas em casa”, mas também sítios para onde ir. “Aqui à volta é árvores a cair, caixotes pelo ar, enfim, tenho quase 50 anos e nunca vi tal coisa.” Esta sexta-feira devia entregar exames em Tomar mas, como este estado de coisas, não sabe “como vai ser”.

Ali perto há um jardim e um cemitério. A chuva e o vento não dão tréguas mas há quem fique a olhar para o estrago. No jardim municipal, Alcindes da Conceição, reformado de 64 anos, tenta lutar com o guarda-chuva contra as rajadas. Também ele ficou com o telhado “bastante desfeito”. Teve medo. “De madrugada faltou a luz e ouviu-se um barulho tun, tun, tun. Bem, quando vou à janela vejo telhas pelo ar, árvores a cair. Quem é que não tem medo?, porra, aquilo parecia a guerra. Não me lembro de nada parecido, esta foi mesmo a pior de que me recordo.” 

Alcindes da Conceição no Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos

Alcindes vai caminhando com esforço mas não parece tirar os olhos de uma árvore em específico, uma estendida no chão. “Era ali que brincava quando era miúdo e que me abrigava da chuva. É triste, a vida está difícil e com isto ainda fica pior. O que é que podemos fazer? Só aguentar.”

Quando regressa a casa, Alcindes cruza-se com um cantoneiro da Câmara. Tinha vindo do cemitério, onde, à entrada, os restos de uma telha continuam cravados no muro que já é apenas tijolo. “Nem os mortos têm descanso”, ouve-se. No fundo, um enorme cipreste agiganta-se, esmagando a lápide de um casal. O mármore está destruído, a cruz partida a meio e deixada no passeio, mas as rosas, encarnadas e brancas, lá ficaram. 

Destruição no Cemitério de Figueiró dos Vinhos

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