Depois da tempestade, os roubos. Como "índios e cowboys", estes vizinhos juntaram-se para proteger os geradores que dão energia à sua cidade

3 fev, 08:00
Reportagem

Alguns indignados com a falta de apoio do Governo, outros irritados com quem quis "lucrar à conta da vida humana dos outros", os moradores da Batalha uniram-se e foram para as matas, noite adentro, proteger os geradores responsáveis pelo abastecimento de água naquela região

A informação causou alvoroço em todo o município da Batalha. “Na noite passada, o roubo de gasóleo de geradores provocou falhas no abastecimento de água”, lia-se num comunicado da Câmara na manhã após a tempestade. Luís Canhoto, 50 anos, estava a tentar arranjar os estragos em casa do pai - um telheiro “que voou” e um portão “que encaracolou” -, quando o leu e decidiu dar um passeio a pé até à cidade para perguntar se podia ajudar. “Disseram-me que precisavam de voluntários para ficar a vigiar os oito geradores” que iam permitindo o abastecimento de água naquela vila. 

Luís voluntariou-se logo, chamou um amigo e pediu ao filho para trazer os amigos do União da Batalha, “miúdos nos seus 20 e tal anos”. Ao todo, arranjou onze e arrancaram essa noite para os pinhais e matas de Pinheiros e Calvaria. “As pessoas andavam preocupadas com os roubos, porque, a seguir à tempestade passar, não havia segurança nenhuma, as casas estavam abertas e, como as estradas estavam impedidas, ninguém conseguia vir ajudar”. 

Carlos Martins, 50 anos, lembra-se de quando o vizinho Luís lhe bateu à porta. “Foi ter comigo à minha casa e perguntou-me se eu não me importava de ajudar”. Respondeu-lhe, conta, “que não me podia recusar”. “Acima de tudo tenho quatro filhos e tenho de dar o exemplo”. Conversou com a mulher e com os filhos e explicou-lhes que, “como o município estava muito desapoiado, pessoas que não sabem o que é o bem comum começaram imediatamente a furtar tudo, desde cobre a alarmes, a gasóleo”. E que “estes roubos afetam comunidades inteiras, queriam lucrar à conta da vida humana dos outros”. 

Ao mesmo tempo, sublinha o osteopata, a decisão de ajudar prendeu-se também com a raiva que sentia pela ausência de ajuda do Estado central e, em particular, pelas imagens, entretanto apagadas, que viu do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, que partilhou nas redes sociais um vídeo que pretendia mostrar o trabalho feito no seu ministério. “Há uma coisa que eu não aceito que é andarem a gastar dinheiro público para fazerem vídeozinhos a atender telefonemas quando nós aqui estamos todos a sofrer”.

Voluntários da Batalha preparam-se para a operação de vigilância de geradores durante 24 horas 

Após uma reunião nos armazéns da Câmara, na primeira noite após a tempestade, Luís e Carlos equiparam-se com coletes, lanternas e deram boleia aos voluntários até Pinheiros. “Estava vento, muito frio, muito muito escuro e não podíamos ter o carro a trabalhar porque estava tudo sem gasóleo”, conta Luís, explicando que tiveram de percorrer cerca de um quilómetro, mata adentro, até chegarem ao gerador. “Não se via nada, aquilo é mesmo mato, não há nada à volta e não havia comunicações, estávamos por nós próprios e, ou bem ou mal, tínhamos de agir”. 

Numa outra mata, o líder dos escuteiros adultos daquela região, Fernando Marques, começava a organizar os cerca de 50 voluntários que vieram para ajudar. Aquela não tinha sido a primeira missão confiada ao médico dentista de 44 anos. Na Batalha, os escuteiros começaram por fazer um levantamento de danos porta a porta, depois veio o abate de árvores partidas e a limpezas de recreios das escolas e, mais tarde, “foi-nos confiada a missão de segurança 24 horas de geradores devido a alguns problemas de roubos no município, maioritariamente por furto de gasóleo”.

Como "índios e cowboys"

Seria uma missão complexa, contudo, sobretudo para garantir a proteção dos envolvidos. “É óbvio que a primeira coisa que temos de fazer é garantir a segurança, por isso começámos por cortar todas as árvores que nos estavam a impedir de chegar aos geradores”. Esses geradores estavam ligados a bombas de propulsão de água que permitiam ter a canalização no município, portanto era importante que nada falhasse”. 

Foi comum também um sentimento de “receio” naquela primeira noite em que os moradores ficaram acordados a noite toda para garantir que a água não voltava a falhar na Batalha. Luís Canhoto explica que, durante o seu turno, os homens colocaram-se nos pontos de entrada da mata e, mesmo perante cabos elétricos e o risco da queda de árvores, “qualquer carro que surgisse era abordado”. Carlos Martins recorda que na altura não pensaram nos riscos, “a prioridade era só servir a comunidade”. “Íamos tentando proteger-nos, o risco de queda de árvores era certo, mas no final de contas éramos uns quantos homens juntos a proteger algo essencial, um bocadinho como se estivéssemos a brincar aos índios e aos cowboys”. 

Voluntários vigiam geradores nas matas de Batalha

Na segunda noite, descreve Luís Canhoto, mudaram a táctica. Deixaram as lanternas no carro e usaram “camuflados e roupas pretas” para não se deixarem ver no meio das árvores. “O objetivo era apanharmos quem andava ali a roubar em flagrante”. Conta que viram alguns carros a passar por lá, registaram as matrículas e, depois, comunicaram as mesmas às autoridades. A GNR e o presidente da Câmara iam também passando por lá periodicamente a tentar perceber se tinham visto alguma coisa de estranho. “Aconteceu, por exemplo, um padeiro, coitado, que estava a fazer a ronda, ser abordado pelas autoridades”, lembra o vizinho Carlos Martins. 

Carlos e Luís estiveram praticamente a semana toda a proteger os geradores durante a noite. Nos últimos dias, a Câmara reforçou as operações de vigilância com seguranças profissionais, pelo que os moradores foram dispensados. Carlos está agora a tentar reparar a chaminé e as telhas que saltaram da sua casa, mas insiste que há quem esteja muito pior. “Soubemos de uma assistente social que andava a bater às portas das casas e encontra, três dias depois da tempestade, uma senhora acamada que só já tinha água e farinha”. 

O exemplo torna mais intensa a indignação que sente. “Isto parece aqueles cenários dos Estados Unidos quando passa um tufão e, do estado social, desvalorizaram”. “Quase sentimos que o Estado encarou isto como se fosse um ‘ventinho’ e ninguém deu a verdadeira dimensão da catástrofe”, desabafa.

Já os escuteiros mantêm-se ativos neste contingente improvisado. “Estas missões ainda não terminaram”, explica Fernando Marques a caminho de um briefing noturno para saber onde empenhar os voluntários - no sábado chegaram perto de 100 vindos de Setúbal. “Além de vigiar os geradores, nós trazemos connosco material para limpar detritos, motosserras para cortar árvores e, tudo o que estava ali em redor, nós vamos ajudando”.

País

Mais País