REPORTAGEM || O corpo de bombeiros em Pataias, Leiria, foi surpreendido por um casal de refugiados sírios que trouxe três travessas de mandi de frango antes de verem com os próprios olhos os estragos que a tempestade fez na sua quinta. Perto dali, um reformado salvou a mulher ao empurrar com os ombros uma janela projetada pelo vento
Ainda tinham sobrado alguns pernis do Motochurrasco da semana passada, mas, como Juliana Santos explica, manter uma operação de logística sem eletricidade e comunicações para dar refeições a centenas de bombeiros é “muito complicado”. No quartel de Pataias, em Leiria, têm apenas um gerador a funcionar e duas arcas frigoríficas, com iogurtes, restos de frango e canja de galinha, para alimentar toda a operação. “A comida começa a estragar.” Suspira.
É hora de almoço e Juliana anda a mil. Dentro da cozinha tem a sogra a ajudá-la, lá fora, a cortar as árvores da estrada e a dar apoio à população, tem o marido, que está no terreno desde o primeiro dia. “Ele passou logo cá a noite, nós ficámos sozinhas em casa e aquilo foi um bocado assustador. A nossa casa teve alguns danos no telhado, mas pronto, o espírito é 'primeiro estão os outros e só depois estamos nós'”.
No canto do olho, nota uma cara conhecida. Um jovem bombeiro, com uma cicatriz ainda por sarar no nariz. Prefere não ser identificado, mas depois de ouvir as palavras de Juliana apresenta-se apenas como Pedro. “A minha mãe está em Lisboa e não sabe onde é que eu estou.” Há lágrimas que os dois tentam conter. “O que eu quero mesmo é agradecer a toda a gente porque eles têm as casas todas estragadas e vêm para aqui cuidar de nós. Esse nariz vai ficar bom, vais ver”, responde-lhe Juliana, apontando para a ferida causada a cortar árvores. É essa a prioridade dos bombeiros agora, tirar os troncos da estrada e desobstruir os cabos elétricos - sem isso não volta a haver luz.
Até agora apareceram 350 bombeiros, polícias e militares para almoçar. Fala-se de um cenário “muito horrível”. As mesas e as cadeiras de plástico estão montadas e por lá passou o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz. Quando está a sair, cruza-se com um casal que fala muito pouco português. Trazem três travessas de inox, vários garrafões de água, papel higiénico e duas caixas cheias de bananas. Recebe-os Márcio Cristo, adjunto de Comando daquela corporação. “Eia, tanto comer. Graças a Deus, estávamos a pensar o que íamos comer”, agradece, enquanto os encaminha para dentro do pavilhão e admite que não têm recebido muitos alimentos nestes dias.
“É tudo o que podemos fazer para ajudar”, respondem Alan e Ramia Ghunim, que acordaram às 06:00 para cozinharem mandi de frango com cenoura e fizeram 129 quilómetros até chegarem ali. Contam que têm uma quinta perto de Pataias, em Pisões, onde fabricam mel e colhem azeitonas. “Plantamos, irrigamos e cultivamos ao fim de semana e depois trazemos de volta para Lisboa.” Na capital, em Moscavide, têm um restaurante de comida caseira síria, chama-se Tayybeh. Prometem voltar amanhã com mais mantimentos.
Cai uma carga de água, mas Alan e Ramia não ficam para almoçar. Metem-se no carro e guiam até à Quinta Damasco. No caminho até lá, contam que não era o sonho de nenhum deles abrir um restaurante. Aliás, riem-se quando se coloca essa questão. “Somos os dois engenheiros informáticos, mas com a guerra tivemos de recomeçar.” Refugiados da Síria, chegaram a Portugal em 2015, onde começaram a trabalhar numa empresa de catering até terem dinheiro suficiente para arrendar o espaço do restaurante. “Depois veio a pandemia e mais uma vez tivemos de recomeçar.”
Alan é daquelas pessoas que sorriem quando está nervoso e foi com um sorriso nervoso que parou o carro ao pé de uma árvore que esborrachava a entrada para a sua quinta. A solução é saltar por cima da vedação, caminhar entre restos de eucaliptos e troncos de oliveiras, e correr até um conjunto de colmeias em madeira e aço. “Eram oito”, conta, já só restam quatro. “São criaturas fascinantes”, diz ao chegar a um pequeno pátio dizimado pela queda de pinheiros e pelo resvalar de um ribeiro que da noite para o dia “cresceu pelo menos meio metro”.
"Parece que um gigante pisou todas estas árvores"
“Está totalmente devastada, vamos ter de reconstruir novamente”, diz, enquanto olha para Ramia e aponta que irá demorar meses até que a situação seja remediada. Alan chega a sugerir fazê-lo sem ajuda, mas a mulher lembra-o de que nunca aprendeu a usar uma motosserra. “Além disso, entre materiais e gasolina, não temos dinheiro para o fazer.” Os dois regressam a Lisboa pouco depois para ainda conseguirem servir jantares no restaurante. Quase a chegar à autoestrada, Alan olha para o pinhal. “Não há explicação, parece que um gigante pisou todas estas árvores.”
Do outro lado do pinhal, Fernando e Celeste Ferreira empunham uma esfregona ao pé de uma loja repleta de cacos de vidro. “Olhe, o vento partiu os dois vidros, mas pronto, a loja também estava vazia e só servia para arrumações”, conta Celeste, explicando que seria pior se os vidros de casa se tivessem partido também. “Tinhas morrido, a violência que era”, diz o marido, Fernando, que ficou duas horas a empurrar a janela com o ombro para que ela não fosse projetada para dentro de casa.
Não era uma janela qualquer. “Era uma sacada que ia até ao chão.” Às quatro da manhã, acordou com o som do vento. “Tenho 76 anos, nunca vi nada parecido com isto”. Os cremones da parte de cima do vidro soltaram-se e Fernando só teve tempo de tirar a mulher da cama e de se atirar contra a janela. “A janela chegava a deslocar-se 10 centímetros.” Explica que, naquele momento, Celeste foi ao rés-do-chão buscar um martelo e uma chave de fendas para desmontar os cremones e conseguir defender-se melhor.
A empurrar a janela, Fernando conta que via o pinhal a desfazer-se numa agressividade misteriosa. “Como é que estas árvores todas seguidas racham ao meio? Se fossem arrancadas do chão era normal, mas partir assim não há explicação.” Fernando continuou a segurar até às 06:45, mais ou menos a hora em que o vento acalmou. Quando se lhe pergunta se se aleijou: encolhe apenas os ombros.
Pior ficou a loja de ferramentas que abriu quando se mudou de Coimbra para cá. Não tem janelas e a água percorre livremente o chão. “Isto também tem só servido de lixeira”, diz, explicando que, em tempos, teve a ideia de a recuperar para fazer dela um T1. “Sabe que mais? A tempestade motivou-me para pegar na obra.”