À CNN Portugal, os autarcas das zonas mais afetadas pela tempestade explicam como a recuperação da normalidade no seu território será um processo árduo e lento. "Há gente que não tem luz, não tem comunicações, nem sequer consegue levantar dinheiro no multibanco para fazer as compras que precisa para se alimentar"
Entre os autarcas dos concelhos mais afetados pelo comboio de tempestades que tem afetado o território português, há a noção de que há um caminho lento e árduo até que se possa recuperar a normalidade. A começar pela eletricidade. Em declarações à CNN Portugal, o presidente da Câmara Municipal de Leiria sublinha a lentidão do processo. “No caso da eletricidade, temos cerca de 20 mil contadores energizados, o que pode representar uma população superior a 20 mil pessoas”, afirmou, lembrando que o concelho tem cerca de 130 mil habitantes e 80 mil contadores, “o que significa que estamos a um ritmo muito lento”.
A persistência dos cortes de energia tem efeitos profundos no quotidiano das populações. “De ontem para hoje foram energizados mais mil contadores, o que significa mil famílias, ou seja, milhares de pessoas”, explicou o autarca, classificando a situação como “dramática”. Para ilustrar o impacto, apelou a um exercício de empatia coletiva: “tivemos a experiência do apagão que durou doze horas; agora é preciso imaginar o que é viver sem eletricidade durante dez dias”, sublinhando que a privação prolongada de energia agrava significativamente as condições de vida.
Depois da fase mais crítica, a resposta no terreno avançou para um conjunto de intervenções imediatas destinadas a repor condições mínimas de funcionamento do concelho. Segundo o autarca, “foi sobretudo uma operação de limpeza e de desimpedimento das vias de comunicação, foi a primeira tarefa”, um trabalho que se revelou particularmente exigente devido à dimensão dos estragos. “Todo o material de árvores de grande porte foi totalmente partido ou tombado, estamos a falar de toneladas enormes”, afirmou, sublinhando o envolvimento não só da proteção civil e dos bombeiros, mas também da população local, sobretudo nas aldeias mais isoladas.
Paralelamente, a prioridade passou pelo restabelecimento do abastecimento de água, fortemente condicionado pela falha energética. “Houve um trabalho muito direcionado para o fornecimento de água, que passou por energizar todo o sistema que colapsou”, explicou, lembrando que, sem eletricidade, foi necessário recorrer a soluções de emergência. “Tivemos de arranjar geradores, alguns nossos, outros alugados, para que o sistema de água funcionasse para o concelho todo e chegasse a casa das pessoas o mais rápido possível.”
À medida que a extensão da destruição se tornou mais evidente, a resposta alargou-se à vertente humanitária. “A partir do momento em que percebemos que o concelho estava totalmente destruído, num cenário de guerra, foi preciso avançar para a recolha de bens alimentares”, relatou. A ajuda destinou-se não apenas às necessidades imediatas, mas também às semanas seguintes, já que “muita população mais carenciada irá passar por dificuldades.
Já a presidente da Câmara Municipal de Alcácer do Sal, Clarice Campos, sublinhou que só agora, com a descida das águas, começa a ser plenamente visível a dimensão da destruição. “Agora que as águas começam a baixar e vamos apercebendo o impacto e da destruição que trouxeram, sabemos que temos um trabalho enorme para reerguer a nossa terra”, afirmou, destacando que esse esforço exigirá o envolvimento coletivo. Apesar da tragédia, disse sentir “em cada pessoa uma esperança e uma vontade de ajudar a reconstruir”, algo determinante para o futuro do concelho.
"Há gente que nem sequer consegue levantar dinheiro no multibanco" para comprar alimentação
Questionada sobre se teria sido possível retirar a população mais cedo, Clarice Campos rejeitou essa leitura, sublinhando a rapidez com que a situação evoluiu. “Não, a questão não é essa, nós não poderíamos ter retirado as pessoas mais cedo de casa porque isto foi, da primeira vez, de uma rapidez incrível”, explicou, descrevendo a realidade da subida da água de forma abrupta. Na segunda ocorrência, garantiu, a autarquia já estava preparada e atuou dentro das possibilidades existentes: “começámos a retirar as pessoas que podíamos retirar naquele momento, encerrámos as escolas, enviámos os trabalhadores da Câmara Municipal, encerrámos os serviços municipais”.
Mas ninguém estava preparado para a velocidade com que a cidade ficou submersa “Em poucas horas eu estava na Câmara Municipal, que fica na zona baixa da cidade, e quando saí já tive que sair por uma parte mais alta porque já tínhamos água em toda aquela zona”, relatou. Segundo Clarice Campos, “aquilo que podia ter sido feito foi feito”, mas as horas seguintes revelaram-se particularmente críticas, com a água a inundar rapidamente as localidades.
Para Luís Miguel Albuquerque, presidente da Câmara Municipal de Ourém, a situação atual é muito diferente da vivida nos primeiros dias após a passagem das tempestades, quando o concelho ficou “completamente bloqueado”. “Temos cerca de mil quilómetros de estradas no concelho e cerca de 80% ficaram totalmente bloqueados. Nem uma bicicleta conseguia passar”, afirmou, descrevendo um cenário de isolamento quase total.
Onze dias depois, Luís Miguel Albuquerque reconhece avanços significativos na resposta imediata, em linha com o que foi relatado pelos outros autarcas. “As estradas totalmente obstruídas foram desimpedidas logo em um ou dois dias, por força de uma atividade muito musculada dos nossos serviços e de todos os corpos de bombeiros que nos vieram ajudar”, explicou. No abastecimento de água, a situação está praticamente normalizada: “temos 99% da população já abastecida com rede de água”. No entanto, tal como em Leiria, a eletricidade continua a ser o principal problema estrutural.
Segundo o presidente da Câmara de Ourém, os números oficiais não refletem totalmente a dimensão da crise energética. “Temos cerca de 6 mil pessoas ainda sem luz, num concelho com cerca de 50 mil habitantes”, afirmou, acrescentando que esse valor é, na realidade, superior. “Há muitos postos que continuam inoperacionais, o que significa que há muito mais pessoas que não têm efetivamente luz.” A situação tem impactos diretos no quotidiano das populações: “há gente que não tem luz, não tem comunicações, nem sequer consegue levantar dinheiro no multibanco para fazer as compras que precisa para se alimentar”.
Luís Miguel Albuquerque sublinha que as autarquias fizeram tudo o que estava ao seu alcance, mas enfrentam limitações que extravasam o plano municipal. “Não é aceitável que, passados 11 dias, haja pessoas sem luz no concelho”, afirmou, acrescentando que as explicações dadas pelas entidades responsáveis não são suficientes para as populações. “As pessoas não se contentam com explicações, querem ação, querem pessoas no terreno”, disse, reconhecendo, ainda assim, que “ninguém estaria preparado para uma devastação como esta”, que atingiu de forma particularmente severa a Zona Centro.