REPORTAGEM • PARTE 1 || Quatro semanas depois da tempestade Kristin, a região de Leiria voltou a mexer-se e a trabalhar, mas o regresso ainda é mais frágil do que parece visto da rua. Em Vieira de Leiria, a Bollinghaus Steel recompõe-se entre turnos, humidade e estruturas arrancadas, sem despedir e já a pensar em contratar, na Praia da Vieira Jorge Ribeiro mantém o Telheiro aberto entre areia, tábuas e máquinas avariadas porque fechar é perder de vez. Pelo meio, acumulam-se geradores, seguros, peritos, crédito, atrasos e uma pergunta que atravessa fábricas, restaurantes e escritórios: quanto custa voltar a pôr uma região de pé quando o tempo do desastre corre sempre mais depressa do que o tempo dos apoios?
Ao fim da manhã, a Marinha Grande está a trabalhar. Vê-se nos parques quase cheios junto às fábricas, nas carrinhas de serviço, no entra-e-sai de trabalhadores à porta dos pavilhões, nos empilhadores que voltaram a circular, na forma como o trânsito já se organiza sozinho mesmo quando um semáforo continua apagado, e é precisamente essa aparência de normalidade que obriga a olhar melhor para as margens, para os topos, para as traseiras dos edifícios. A tempestade ainda está ali, só que já não aparece no plano principal. Está nos troncos empilhados nas bermas, nos galhos cortados em montes escuros, em chapas dobradas que ainda se veem no alto de alguns pavilhões, em muros remendados, em vedações torcidas, em portões empenados, em sinais de uma violência que passou primeiro pelo teto e só depois desceu ao resto.
A cidade recompõe-se por fora e continua a recompor-se por dentro, e isso percebe-se melhor quando saímos dela e descemos para Vieira de Leiria, onde o caminho ainda é uma pequena aula prática sobre o que significa um mês depois. A rede falha em troços, os mapas deixam de ser fiáveis, aparecem equipas de telecomunicações em gruas encostadas aos postes, com cabos ainda baixos nalgumas estradas, há desvios, há troços cortados, há pinheiros partidos a meio, eucaliptos vergados, madeira empilhada à espera de recolha. Voltamos a fazer uma coisa simples que o telemóvel quase apagou da rotina, encostar, baixar o vidro, perguntar por onde se passa. A tempestade continua também nos percursos, no tempo extra, no caminho que já não é o de antes.
É por esse caminho, entre desvios, cabos ainda baixos e árvores partidas, que se entra na Bollinghaus Steel, em Vieira de Leiria, e a fábrica aparece logo como uma coisa ferida, mas em movimento. O nome continua na fachada, mas à volta há coberturas arrancadas, estruturas metálicas abertas, chapas torcidas, perfis espalhados, estantes puxadas para o exterior, pátios transformados em campo de destroços. A ponte rolante laranja, com “POÇO 5t”, atravessa o enquadramento como uma peça que ficou suspensa no meio do vento. A conversa com Ivo Ribeirinho e Isabel Marques, diretores-gerais da unidade, faz-se no edifício de escritórios, o que resistiu e ainda assim ficou marcado, com escoras, remates por fechar, baldes, água em pontos do chão e um cheiro húmido que não larga o ar. No exterior, o que voou está empilhado e separado para limpeza. No interior, a ordem dos dias ficou definida logo ali, primeiro as pessoas, depois a segurança, depois a proteção do que ainda podia ser salvo, depois a energia, depois a produção.
Naquela madrugada havia equipas dentro e é por aí que Ivo começa, antes dos seguros e antes das contas. “A tempestade apanhou-nos a todos um pouco de surpresa. Quando cheguei aqui, no outro dia de manhã, vi a destruição de todos os edifícios, árvores caídas, uma destruição massiva.” O primeiro impulso não foi ir às linhas nem medir chapa caída, foi procurar quem tinha passado ali a noite. “Aquilo que mais me preocupou foi realmente dirigir-me aos colegas e perguntar se, durante a noite, tinha havido alguma ocorrência, algum acidente, porque a nossa prioridade é proteger logo os nossos.” O que lhe contam ainda entra na conversa com o susto inteiro, telhados a colapsar, chuva a entrar, equipamentos desligados à pressa, o turno recolhido no refeitório até o vento abrandar. E o primeiro alívio coube numa frase curta, daquelas que mudam uma manhã inteira. “Felizmente, no meio da desgraça, foi a primeira boa notícia que tive, não tínhamos sofrido nenhum acidente.”
Os dias seguintes foram menos de reconstrução do que de contenção, sempre com chuva, sempre a tentar impedir que a água ganhasse mais terreno. Ivo recua a esse arranque e põe a decisão no plural dos dois. “Foi uma decisão instintiva, minha e da Isabel, começar a tentar limpar isto.” Com os técnicos da manutenção e com outros trabalhadores que puderam ficar naquele primeiro momento, começaram a vedar coberturas e a proteger quadros, motores e equipamentos, porque ainda ninguém sabia quanto tempo a fábrica iria ficar sem condições para operar. O trabalho arrancou nesse dia e não parou. Ivo mede esse arranque numa frase curta: “Foi mais do que uma semana. Todos os dias”. Isabel fecha a medida do esforço sem mudar de tom: “Inclusive ao fim de semana”. A energia só regressou dez dias depois e, nessa primeira fase, regressou a gerador, o que permitia muito pouco para uma fábrica desta dimensão.
A gerador, a Bollinghaus conseguia manter viva uma parte da unidade, mas não a parte decisiva. Isabel explica a sequência de forma clara, quase pedagógica, como quem está habituada a traduzir uma cadeia industrial para quem a vê de fora. “A atividade principal ficou em causa, porque não conseguíamos pôr a laminagem a trabalhar. E é essa atividade que depois nos permite trabalhar nos acabamentos. Sem laminagem, dificilmente conseguimos colocar material no cliente.” A média tensão chegou mais tarde e chegou por uma solução provisória, depois de a linha normal, vinda da Marinha Grande, ter ficado destruída. Ivo recorda esse remendo como parte da sobrevivência daquelas semanas, um ramal alternativo via Pombal, montado com pressão da empresa e apoio local, autarquia, junta, contactos com a E-Redes, tudo ao mesmo tempo para encurtar dias que estavam a custar demasiado.
É nessa prudência técnica que se mede o presente da Bollinghaus. Ivo coloca a unidade “nos 60% a 70%”, não por falta de encomendas nem por hesitação, mas porque ainda há oscilações e há risco real em cada arranque. “Temos linhas em que, em caso de corte energético, perdemos todo o material que está em linha. Temos que ter algum cuidado.” A frase parece simples, mas resume uma fábrica inteira. Trabalhar mais devagar, aqui, não é hesitar, é evitar perdas em cascata. É pôr menos material em processo até terem confiança plena na estabilidade da alimentação elétrica, porque voltar de uma vez e perder de novo seria repetir o prejuízo dentro da recuperação.
Ao lado dessa gestão técnica está a gestão humana, e ela pesa tanto como qualquer cobertura arrancada. São quase 300 pessoas na unidade de Vieira de Leiria e, em muitas famílias, a Bollinghaus não pesa apenas num ordenado. Pesa em dois, às vezes em mais do que uma geração. Ivo não enfeita essa responsabilidade. “A responsabilidade social é bastante abrangente.” E isso entrou logo no primeiro dia, quando perceberam que tinham de falar com os trabalhadores sem ainda terem respostas fechadas para tudo. Havia colegas a ajudar na limpeza e havia colegas aflitos com as próprias casas, também com água, também com danos, também sem saber por onde começar. “Quem pudesse ficar connosco, ajudando em algumas tarefas de limpeza, ficava, e deixámos que os colegas que estavam mais aflitos com as suas casas fossem acudir às famílias.” Ao primeiro e segundo dias, a ansiedade já era emprego e salário, e a empresa começou a estabilizar o discurso, a dar margem e chão. “Ao terceiro dia, eles começaram a perceber que a Bollinghaus vai continuar.”
Essa continuação não apaga o impacto do que aconteceu e Ivo fala disso com uma lucidez rara nestas conversas, porque não fica só na chapa e na máquina. Há uma fase de adrenalina que ainda segura muita gente de pé, mas depois vem a quebra. “Prevemos que vamos ter algumas situações dos colegas, que se calhar depois, quando isto tudo passar, vão ter ali eventualmente algumas quebras.” O que ele nomeia é isso mesmo, quebra anímica, e a resposta já está a ser pensada em paralelo com a retoma industrial. “Vamos reforçar o apoio psicológico”. Porque uma fábrica não volta só com energia e telhado, volta também com pessoas capazes de regressar ao ritmo depois de terem visto aquilo.
Na frente financeira, a primeira resposta foi acionar o seguro assim que regressaram as comunicações, porque também aí a tempestade cortou o básico, telefone, internet, contacto. Isabel fala em prejuízo já com escala, mesmo ainda em apuramento, porque a conta não é só o que se vê partido. “Estão na casa dos milhões, sim, se considerarmos efetivamente as perdas de exploração.” Entram os danos materiais, entram os dias parados, entra a produção que não saiu, entram os atrasos que se acumulam numa empresa que exporta quase tudo. Ao contrário de muitas empresas da região, a Bollinghaus tem margem financeira para aguentar o primeiro choque, e Isabel assume isso sem rodeios. “A empresa também tem uma estrutura financeira bastante saudável, que nos permite pensar a longo prazo.” É essa base que lhe permite fixar uma frase rara nestas semanas. “Os salários não vão estar em causa.” Ainda assim, a morosidade existe e não desaparece por haver estrutura. “As burocracias acabam por nos provocar estes contratempos”, seja do lado das seguradoras, seja do lado do Estado.
Quando saímos da fábrica, com o cheiro a humidade ainda preso à roupa, voltamos à Marinha Grande para ouvir Susana Santos, vice-presidente da Associação Comercial e Industrial da Marinha Grande. A conversa é uma ponte e um aviso. Ponte entre os casos maiores e o tecido inteiro. Aviso para as microempresas, que resistem pior.
No meio da destruição, há ainda um dado que muda o tom desta conversa. “Apesar de estarmos ainda nesta fase anímica, nós estamos a admitir pessoas.” A opção é clara e é estratégica. “Estamos a aumentar a equipa. Logo que tenhamos condições plenas para trabalhar a 100%, queremos ter a equipa já toda estruturada.” Não é só resistir. É preparar a recuperação sem ficar à espera de que tudo volte ao normal para então começar a contratar. Nisso também pesa a visão do grupo e do proprietário, que veio logo na semana seguinte ver a fábrica com os próprios olhos. A visita não foi apenas simbólica, trouxe uma linha de continuidade quando a empresa ainda estava em modo de urgência. Ivo resume o tom da casa nesta fase com uma imagem simples do que aconteceu quando o proprietário cá veio. “O senhor Härtel é muito otimista. Olhou para isto e disse: ‘Vamos recuperar e vamos seguir com o nosso plano para a frente’.”
A rede internacional ajudou a segurar a outra ponta da crise. Com a área comercial na Alemanha, a comunicação aos clientes foi feita logo de início a partir de lá, e isso deu tempo à fábrica enquanto aqui se tapavam coberturas e se protegiam linhas. “Eles foram compreensivos e entenderam que iríamos ter aqui uma paragem”, recorda Isabel, e Ivo acrescenta que alguns parceiros foram mais longe e se disponibilizaram “para ajudar no que fosse preciso”. Ao mesmo tempo, numa escala mais local e menos visível, a empresa apoiou a junta de freguesia na descarga e carga de telhas que chegavam para a população. Isabel resume esse gesto como uma continuação do que a casa já é. “Disponibilizámos não só a maquinaria, como também os nossos colaboradores para participarem nessa tarefa.” Não entra na contabilidade dos prejuízos, mas entra inteira na história desta fábrica e desta terra.
No fim, a conversa volta ao edifício de escritórios onde estamos e a destruição muda de escala. Já não é só cobertura, chapa ou energia. É o lugar de trabalho deles, os gabinetes, a rotina interrompida. Parte da equipa passou para outro edifício, em espaço aberto, com algumas pessoas em teletrabalho, e Isabel fala deste piso como quem fala de um lugar que ainda ficou preso àquelas primeiras semanas, quando via as funcionárias da limpeza a tirar baldes de água do gabinete e a despejá-los pela janela, todos os dias, numa repetição que a deixou sem coragem para voltar. “A partir de determinada altura recusei-me a entrar aqui.” Depois encurta a história toda a uma frase que pesa mais do que qualquer número. “Tenho 20 anos de casa. Cresci com a empresa também.”
Saímos de Vieira de Leiria com a humidade da Bollinghaus ainda no corpo e regressamos à Marinha Grande para ouvir Susana Santos, vice-presidente da Associação Comercial e Industrial da cidade, que faz a ponte entre as grandes estruturas e o tecido mais frágil, entre a empresa que se aguenta com mais fôlego e as dezenas de negócios pequenos que se aguentam por dias. O encontro é num interior envidraçado, com instalações industriais ao fundo, e as imagens da Marinha Grande que acompanham esta parte da reportagem, pinhal vergado, cabos baixos, destroços junto à estrada, trânsito a passar, dão um enquadramento exato ao que ela põe em palavras.
Quando lhe pedimos que volte à primeira semana, Susana Santos corrige logo a expressão, sem dramatizar e sem embelezar. “A primeira semana nem existiu, porque era impossível, porque não tínhamos contactos. Nem nós, nem as pessoas.” E logo arruma a cronologia que se repetiu na região toda. “Só na segunda-feira a seguir é que começámos a ter contacto, quer dos associados, quer nós a fazer esse tipo de tentativa de chegar até aos associados, porque muitos deles continuaram sem comunicações.”
A associação não começou por falar de apoios, começou por contar estragos, porque sem esse retrato tudo o resto seria conversa vaga. “Fizemos um levantamento de cento e muitos associados, nós temos cerca de 500, e fizemos para termos essa informação do nosso lado, porque só aí é que poderíamos depois enquadrar.” O verbo é este, enquadrar, e o que havia para enquadrar era uma sucessão de danos em cadeia, coberturas arrancadas, estruturas partidas, eletricidade em falta, internet em baixo, negócios a gerador, água a entrar, peritagens por fazer, reparações travadas, prejuízos a crescer porque a chuva continuou.
Susana Santos insiste num ponto que no terreno aparece muitas vezes em segundo plano e, no entanto, pesa muito, os estragos que só se revelam depois. “Os danos visíveis foram uns, os que não estão visíveis estão a aparecer a pouco e pouco.” Fala dos picos de energia quando a eletricidade volta por fases, dos equipamentos que queimam, de maquinaria que começa a falhar dias depois, de danos em postos de transformação, de prejuízos que aumentaram porque houve empresas impedidas de intervir. “Foram alertadas pelas seguradoras de que tinham de ter primeiro os peritos, e os peritos não chegaram com a celeridade que era necessária, e há sítios onde ainda não chegaram, e por não poderem reparar os danos foram aumentando.”
No que toca a apoios, a frase que resume a região inteira sai sem rodeios. “As medidas existem, mas em termos operacionais ainda não estão a funcionar.” Há formulários, há anúncios, há linhas apresentadas, mas o dinheiro, o efeito útil, a ajuda concreta, essa ainda não chegou a muitas empresas. Susana Santos sintetiza-o numa fórmula seca, de quem está a lidar com processos abertos sem resposta final. “Podemos fazer os pedidos. Contudo, o apoio aos lesados ainda não chegou.” Fala por experiência própria, como dirigente e como empresária, e enumera pedidos feitos para lay-off, isenções e outros mecanismos que continuam sem resposta prática. “Já os pedi, se calhar, há mais de 10, 11, 12 dias, e neste momento não existem resultados.”
Enquanto isso, as empresas gastam. Gastam em combustível, gastam em remendos, gastam em deslocações, gastam em urgências que não podem esperar pela tramitação. “Muitas estão com geradores, com custos elevadíssimos, que não temos noção se vão ser apoiados ou não. Até à data, não. Os consumos são incalculáveis.” E quando entramos na pergunta sobre setores, Susana Santos enumera o que tem visto, comércio, indústria, moldes, plásticos, vidros, um tecido inteiro atingido. Mas quando tenta explicar onde o choque custa mais, corrige logo a escala. “Não é só nas empresas pequenas e médias. É ainda mais abaixo, nas microempresas, nos negócios mínimos, sem tesouraria para aguentar semanas de espera.”
Nas microempresas, a tesouraria é curta, a margem é baixa, o tempo conta mais depressa. Susana Santos não minimiza o impacto nas empresas maiores e até deixa um número que ouviu nessa manhã, “uma única empresa com 12 milhões de prejuízos”, mas o foco dela regressa sempre aos mais pequenos. “Estamos a esquecer-nos dos pequeninos empresários, que são tão ou mais importantes. E que são a maioria desta região.” E acrescenta o que lhes falta no imediato, não apenas linhas de crédito, não apenas dilações. “É preciso que o dinheiro esteja na conta para que as pessoas possam fazer face às despesas que têm no imediato.”
Há uma parte da conversa em que a vice-presidente da associação larga por momentos a dirigente e fala como quem viu muita crise passar por esta região. Fogos, pandemia, outras ruturas. Ainda assim, nesta tempestade encontra qualquer coisa diferente. “Esta foi, garantidamente, a que afetou mais as pessoas, até psicologicamente.” E encontra a palavra exata para o estado em que muita gente ainda está ao fim de semanas de limpeza e reaberturas. “As pessoas ainda estão um bocadinho anestesiadas.” A atividade regressa por partes, as fábricas voltam a ligar linhas, o comércio reabre portas, mas em muitos negócios o que há ainda é rescaldo.
Com essa frase no ouvido descemos à Praia da Vieira, já com o dia a cair. A frente marítima entra numa luz cinzenta, baça, e a areia ainda manda no desenho da estrada, em troços acumulada, noutros a invadir a faixa, noutros a obrigar a prudência. Há espaços fechados, outros ainda rasgados, alguns remendados com madeira, e no meio dessa linha aparece um sinal repetido que chama mais do que um letreiro iluminado. Folhas brancas coladas a madeira a dizer ABERTO. É o Telheiro.
Jorge Ribeiro recebe-nos com a casa meio aberta e meio em reparação, e antes de falar do que perdeu faz uma contagem, quase como quem chama à presença os que ainda estão de pé. “Nós, aqui na praia, se não me falha a memória, somos quatro. É o Telheiro, é o Café Pátio dos Pescadores, é a Esplanada César e é o Barrote.” O resto está fechado, destruído, ou a tentar perceber por onde começar. A estrada cortada de um dos lados da praia pesa mais do que parece num negócio sazonal e de passagem, porque mexe no reflexo de quem chega. “Chegam à praia, viram para cima, para a esquerda, em vez de virarem para a direita.”
A areia, aqui, não é cenário, é trabalho. Jorge conta de uma máquina prometida e de uma espera que ainda não terminou. “Foi prometida uma máquina para tirar [a areia], o que é certo é que até à data de hoje não vi nenhuma máquina aqui a tirar areia.” O espaço mínimo que conseguiu abrir à frente do restaurante foi tirado à mão. “A areia que estava aqui fui eu que tirei da volta da esplanada e limpei, para ter o mínimo de acesso.”
Lá dentro, o Telheiro está numa espécie de presente provisório, com a cozinha ainda marcada pela areia e pela lama, a sala com cadeiras empilhadas sobre mesas, grades e caixas encostadas, cabos e ferramentas a conviver com o que já voltou a funcionar, uma vitrine com vidro partido, madeira a tapar o que ainda não foi reconstruído. Na parede exterior, ao lado da linha de lama, ficou escrito “HELP OLÁ”, um pormenor estranho e exato, como se a própria parede tivesse guardado um retrato do que foi preciso fazer ali, pedir ajuda e avançar ao mesmo tempo.
A tempestade apanhou Jorge fora da Praia da Vieira, de férias, e foi a notícia recebida por telefone que o pôs logo a caminho. “Liguei para a minha mulher e ela disse-me: ‘Se a Bajouca está destruída, a praia também está destruída’.” Quando chegou, começou o trabalho que ele ainda hoje mede por dias seguidos de esforço físico. “Foram 17 dias a fio a tirar areia, vidros, a limpar aqui o estabelecimento. Eu e alguns familiares meus.” O objetivo era abrir no Dia dos Namorados, que naquela casa tem peso, tradição e reservas. “É a marca da casa.”
Abriu, e a explicação de Jorge é uma das frases mais fortes desta reportagem porque não tem figura nenhuma e tem tudo. “A melhor ajuda que pode vir é uma porta aberta, vem um, vem outro, todos juntos ajudamos a endireitar a casa.” O Telheiro tem seis trabalhadores fixos e, ao fim de semana, sobe para perto de dez. Fechar significaria parar a faturação e manter quase todas as despesas. Abrir assim, entre tábuas e máquinas avariadas, é uma forma de ganhar tempo e de segurar o lugar. “Estamos a aguentar com economias, a poupar onde dá, e com a casa aberta para ir fazendo face às despesas. Temos de andar sempre a equilibrar isto, para o prejuízo não ser ainda pior.”
Os apoios e o seguro seguem o seu tempo e Jorge acompanha isso como pode, com uma parte tratada pela mulher e outra ainda por avaliar. “O perito aqui do recheio ainda não veio visitar.” Do lado de fora, a questão dos alumínios está pendente, e a previsão também já faz parte do calendário emocional da casa. “Se correr bem, só para a Páscoa é que temos aqui alumínio.” Até lá, a frente mantém-se entaipada e o restaurante trabalha no modo possível, com luz mais ténue, menos máquinas, mais improviso.
A meio da conversa entra o técnico do gás com bilhas e uma fatura. Jorge pega no terminal, tenta pagar, a rede arrasta o gesto, o multibanco demora a responder e a cena condensa tudo o que a tempestade ainda deixou por resolver, mesmo numa casa que já abriu. O problema não é só o que o vento arrancou, é também a lentidão com que o normal regressa às pequenas coisas.
Quando lhe perguntamos se não seria mais prudente esperar, Jorge responde com uma filosofia de trabalho que vem de trás e que já tinha sido posta à prova na pandemia. “Na nossa filosofia de vida não é. Parado, a gente não faz nada.” E faz logo a comparação entre as duas crises recentes. “Na covid também fui o único que estive aberto. Mas esta é mais dura.” Na pandemia ainda havia forma de vender e adaptar. Aqui houve destruição física, limpeza pesada, equipamento em reparação, areia dentro do restaurante, dias inteiros sem sequer se pensar em serviço.
Nos primeiros dias, o Telheiro não esteve aberto, esteve em modo de sobrevivência. O objetivo era simples e bruto, não deixar perder o que ainda podia ser salvo e ganhar tempo até a eletricidade voltar. Jorge lembra esse período como uma logística de resistência, feita de combustível, arcas e contas por fazer. “Nós temos um gerador em permanência no restaurante. Leva 25 litros e dá para dois ou três dias.” Como um não chegava para segurar tudo, pôs dois a trabalhar em contínuo. “Tive dois geradores aqui a trabalhar diariamente, para manter as arcas e o mínimo.” O resto veio por etapas, primeiro retirar areia e lama, depois limpar melhor, arrumar e voltar a montar um espaço que pudesse receber gente. “As primeiras duas semanas foram mesmo de balde, a tirar areia. Depois veio o resto, o trabalho mais fino.”
Também no Telheiro o futuro já entrou pela porta antes de o presente estar resolvido. Jorge fala de reforçar alumínios, de perfis mais fortes, de vidros que não estilhacem, de uma proteção extra a criar uma segunda barreira de ar, porque o problema deixou de ser uma abstração distante. “As tempestades vão acontecendo mais frequentemente.” A partir daí, Jorge alarga a conversa para fora do restaurante e vai dar aos rios, às valas e aos leitos que, na cabeça dele, ficaram anos sem limpeza nem manutenção. Fala dos guarda-rios que desapareceram, das cheias antigas que a zona conheceu e de uma sensação de repetição que lhe sai sem rodeios. “Não se aprendeu com os erros.”
Saímos da praia já de noite. O Telheiro fica com a frente em madeira, os papéis de ABERTO e a luz de dentro a tocar só o necessário. À distância parece um restaurante remendado. De perto percebe-se outra coisa, uma microempresa a trabalhar antes de estar pronta porque ficar pronta pode demorar mais do que ela se pode dar ao luxo de esperar. Jorge tinha saído para dois dias de férias quando a tempestade entrou na praia e esses dias ficaram ali, misturados com areia, vidros e contas. Quando a conversa chega ao que vem a seguir, acerta o calendário como quem acerta o negócio à vida de casa: “Agora, se tirar alguns dias, é em maio, antes do verão, por causa da escola dos filhos. O verão é para trabalhar”.