Depois, quando o barulho abrandou por instantes, Aida Encarnação saiu à rua "quase em camisa de noite" só para confirmar que a casa ainda estava de pé — e agora teme que a casa ceda por dentro, "não temos água, não temos luz". Reportagem na estrada para Pedrógão Grande, onde a tempestade parecia "um fim do mundo" e "não veio ninguém ajudar" — e se nos incêndios puseram logo a luz "num dia ou dois" e havia comunicação, agora não, agora "é muito pior", é "uma calamidade, é uma coisa louca"
O vento, em Pedrógão Grande, não tirou só telhas. Tirou a ideia de tecto.
Chegámos à vila e o primeiro impacto foi esse, uma normalidade que se mantém ao longe e se desfaz quando nos aproximamos. Eucaliptos inclinados, dobrados como quem cedeu por um instante e ficou preso nesse gesto. Árvores velhas arrancadas com a raiz inteira à mostra, barro aberto como ferida recente. Algumas ainda por cortar, outras já serradas em troços e empilhadas nas bermas para que a estrada volte a ser estrada. Há ruas de laranjeiras com o chão cheio de laranjas, queda e desperdício ao mesmo tempo. Há ruas com telha partida, laranja de barro, e telhados meio despidos, casas que parecem ter perdido uma camada de pele.
O que pesa mais vê-se menos. Falta rede, falta contacto, falta luz. O pouco que existe vem de geradores pequenos, em cafés e restaurantes abertos que seguram uma rotina mínima. Há luz suficiente para um balcão, há um rádio ligado, e isso chega para o mundo não desaparecer. Mesmo aí, o assunto regressa sempre ao mesmo ponto, a primeira madrugada, o barulho que acordou quem dormia e impediu quem estava acordado de voltar a dormir.
Fomos procurar histórias no centro e acabámos a fazer o mapa como se fazia antes, por boca. Um trabalhador da autarquia, de impermeável fluorescente, apontou-nos o caminho sem dramatização, como quem indica uma saída de emergência. Descer, em direção à barragem. “Lá em baixo está mau.” E fomos descendo por uma estrada feita de desvios, porque há árvores no chão e há cabos no chão e, de repente, o asfalto exige cuidado. Chovia miúdo, por vezes sem parar, e o brilho da chuva tornava tudo mais nítido, mais recente, como se o estrago ainda estivesse a acontecer.
Pelo caminho, casas com árvores tombadas no pátio, sobre muros, sobre partes da construção. Postes inclinados, fios elétricos baixos, a rede toda no chão, a obrigar o país a desviar-se e, às vezes, a passar por cima do próprio sistema nervoso. Muitas dessas casas estavam fechadas, algumas com grades nas janelas. Chamávamos, esperávamos, e o silêncio respondia. Campainhas sem corrente. Portões que não abrem. Um vizinho explicou, num tom prático, sem teatro: são emigrantes, não estão, e não vão estar tão cedo. A tempestade encontrou também esse vazio.
Lá em baixo, junto à barragem, o café estava destruído. O espaço onde se parava e se falava do dia estava aberto como uma caixa partida. A barragem, cheia, indiferente. À volta, quase ninguém. Um casal estrangeiro a passear cães, sorriso leve, “bom dia”, como se a paisagem fosse apenas paisagem. A cena ficou a doer por contraste, porque ali a natureza continuava inteira e a vida humana estava partida.
Voltámos a subir e o som mudou para serra e motor. Trabalhadores do município cortavam árvores e empilhavam troncos na berma, reabrindo o mapa à mão. Um deles deixou a indicação que depois ouviríamos repetida: “Procurem a Graça, lá é que a pancada foi maior”. E antes de chegar à Graça, a zona industrial já mostrava porquê. Pavilhões desmantelados, coberturas onduladas como papel, estruturas silenciosas sem ninguém à volta, como se o vento tivesse passado e levado também o turno. Vimos números de telefone em cartazes presos a grades, promessas teimosas num concelho que, naquele momento, tinha precisamente o telefone fora do corpo.
A Graça apareceu como antigamente se encontravam lugares, perguntando pelo caminho. E, quando chegámos, a tempestade deixou de ser cenário e passou a ser gente.
Fernanda não diz apelido nem a idade que tem ao certo, Fernanda é mãe e tem um filho já adulto, Fernanda estava no armazém onde trabalha, onde guardam cereais e farinhas. Um sítio que devia ser seco e fechado e seguro. O que se via era o céu por dentro. O telhado aberto em vários pontos, as traves expostas, mantas de isolamento rasgadas a pender como roupa esquecida no alto. No chão, cacos de telha, metal torcido, poeira. Um portão dobrado para dentro, como se tivesse levado um corpo inteiro. E um detalhe de absurdo calmo, no meio do estrago, a aldeia a insistir em continuar: ovelhas a atravessar o armazém entre paletes.
A noite vinha-lhe à boca com uma hora e uma palavra que não era exagero, era memória: “A partir das quatro, quatro e meia mais ou menos, começou o pesadelo”. Acordaram com “os fortes ventos” e depois começaram “a ver as coisas a voar”. De repente, a imagem crescia: “Víamo-los, os nossos telhados a voar pelos ares”, não era só o dela, eram os dos vizinhos, era a aldeia inteira a perder cobertura ao mesmo tempo. O conselho para quem ligava apavorado repetia-se nestas casas quando já não há controlo possível. Ficar. “Manter portas e janelas fechadas e nunca tentar abrir”, para que o vento não entre e transforme a casa num corredor. Do outro lado da linha estava a cuidadora da patroa, de 89 anos, a ouvir o cenário de dentro de casa. A resposta saiu como regra: “Nem eu posso sair para vos socorrer, nem vocês podem sair de casa para nada”.
Na manhã seguinte, “foi um trauma”. Telhados deslocados, peças fora do sítio, a corrida para tapar antes que a água entrasse. E quando lhe perguntámos o que custa mais, não foi só a chuva. Foi o corte. “Nem fixo, nem móvel, nem internet, nada.” A frase saiu seca e repetida, como quem confirma o que já sabe. “Estamos incontactáveis.” O filho, segundo Fernanda, “trabalha nas redes”. Saiu ontem de manhã, “às 7:15, 7:20”, e só entrou em casa hoje “às 7:45”, depois de uma noite inteira a reparar avarias. Fernanda não o conseguia contactar. Emociona-se ao recordar. E conta também o diagnóstico do filho: não esperar energia “por menos de oito dias, ou mais”, porque “os estragos foram grandes”.
Foi Fernanda que nos apontou a rua do lado, a descer no fim da avenida. “Virem à direita.” E ficou para trás, no armazém de onde o céu se observa.
Durante a descida, a Graça tornou-se íntima.
Maria Adelaide vinha a subir devagar, de boné com as netas estampadas, óculos, bengala numa mão, guarda-chuva fechado no braço, como se a chuva fosse o problema menor. Aida Encarnação estava à porta, mais parada, e chorava de cada vez que voltava à madrugada. Aida tem 74 anos e dá-nos logo o essencial, sem vitimização, quase como ficha clínica. Foi operada a uma perna e não pode “fazer força”. O marido tem 77, diabético. Caiu naquele caos e depois ficou “a tremer, a tremer, a tremer”.
A madrugada, para elas, não tem meteorologia. Tem barulho e medo. “Isto foi um fim do mundo”, repetido como se precisasse de se ouvir. E, naquela hora, passou-lhe pela cabeça: “Nós morremos aqui”. Depois, quando o barulho abrandou por instantes, “saímos à rua quase em camisa de noite”, só para confirmar que a casa ainda estava de pé. “Ouvíamos as chapas a bater”, “as chapas a bater e a bater”. Telhas a voar. Um estrondo grande. A chaminé caiu e abriu buraco. A cozinha virou um lugar de espera da água. “Tenho a cozinha com bacias”, “tenho lá mais cinco bacias a aparar água.” Cozinhar, só “assim mal”. E, por baixo do resto, a placa da cozinha ficou rachada. É isso que as assusta agora, como se a casa pudesse ceder por dentro. E por cima da água e do frio, o corte total. “Não temos água, luz.” O marido foi ligar um gerador “lá atrás” para aquecer a sala e para que um rádio pudesse, de vez em quando, lembrar-lhes que o mundo ainda existia.
Maria Adelaide vive sozinha. Acordou com o estrondo e com telhas a voarem por cima do telhado. Nesse mesmo dia, antes do temporal, alguém lhe tinha feito um trabalho na chaminé, uma pedra colocada para proteger a casa, como uma pequena promessa de segurança. O vento tratou de a desmentir. Foi contra a casa, derrubou a pedra, fez “um estrondo tão grande” que ela ainda o ouvia no corpo. O medo obrigou-a a mudar de quarto. Fugiu do lado de madeira para o lado de placa. “A gritar sozinha, como uma maluca.” Ficou acordada até de manhã.
Quando se entra dentro da casa de Aida, as palavras encaixam nas coisas. A cozinha com azulejo branco e barra decorativa, o armário com a vida arrumada, e no chão os alguidares coloridos, verdes, azuis, vermelhos, alinhados como se fossem móveis. A água vira ocupação. Enche, despeja, enche, despeja. À porta, um cortinado de contas plástico e uma placa que anuncia “Vivenda Ramos”, como se a casa tivesse nome próprio e a tempestade tivesse entrado numa biografia.
Perguntámos por ajuda, se a houve. A resposta veio com a simplicidade que dói. “Não veio ninguém.” Um carro de bombeiros passou sem parar. A resposta, essa, veio de nomes próprios e de vizinhos. Um amigo que prometeu voltar à tarde para pôr telhas e voltou. Um homem que “faz funerais” e tinha telhas iguais e deu algumas para tapar o que faltava. É assim que uma casa não cai, por telhas emprestadas.
E no meio de tudo, o refrão que regressa, mais duro do que a água. Não é só perder telhados. É perder ligação. Maria Adelaide comparou com 2017 sem precisar de levantar a voz. Nos incêndios, “num dia ou dois puseram logo a luz” e havia comunicação. Agora não. Agora “é muito pior” porque “os postos de luz estão todos partidos” e “os cabos estão todos no chão”. Aida, com respeito pelo fogo, não quis dizer que isto foi pior em tudo, mas ficou o que sentiu: “Nunca tive tanto medo. Senti terror, terror mesmo”.
Enquanto falávamos, carros passavam e ninguém parava. A rua, naquele dia, era corredor. Só perto do fim um carro parou, porque Maria Adelaide fez sinal e obrigou-o a parar, como se a aldeia também precisasse de mão para travar o mundo. Foi uma conversa breve, de lamento. Depois seguiram. Seguiríamos também.
Já de volta à avenida, quase no fim, encontrámos um homem baixo e curvado, passos curtos e inseguros, a tentar arrastar uma chapa de telhado maior do que ele. Em cima, presa e mal presa, outra placa pendia sobre cabos eléctricos. Dissemos-lhe para não mexer, ele parou, olhou para cima, olhou para nós e aceitou, como quem aceita uma evidência.
Chamava-se Albano Rodrigues, tem 80 anos, a casa é dele e, encostado à casa, o lagar. “Não é cooperativa.” Emprega três pessoas. “Quatro pessoas comigo.” Trabalhou 44 anos em França e voltou com uma reforma pequena.
A noite foi sem cama. “Nem à cama fui.” O barulho não deixava, “as coisas a bater no vento”. Teve medo. “Tinha.” E explicou o medo sem adornos: “Uma calamidade. Uma coisa louca”. Mais tarde encontrou a imagem certa: “Parecia um tremor de terra”. E o tempo, nesses momentos, estica-se, “foram duas horas, três horas, mas parece que foi um dia inteiro”.
Entrámos no lagar e a água estava onde não devia estar. No chão, um brilho frio. Por cima, feridas de chapa e céu. A luz incidia-lhe vertical. Mas havia uma coisa que a tempestade não levou. O cheiro. Mesmo cheio de água, o lagar guardava aquele cheiro antigo, gordo e vegetal, a azeitona e a borra. Cheiro de colheita e de trabalho. Um cheiro que insiste, mesmo quando a máquina pára.
Falou do corte como parede: “Nem havia luz, nem havia água, nem havia coisa nenhuma”. E ainda agora, “ainda hoje não há”. Depois veio a outra falta, a que nos apareceu em todas as portas: “Não há comunicação com ninguém”. Nem para pedir socorro. “O telefone não chama ninguém, ninguém responde.” Notícias, só “pelos vizinhos.” Perguntámos se alguém tinha passado por ali, bombeiros, polícia, Proteção Civil, alguém. “Não houve ninguém aqui.” Viu um carro passar, olhar, seguir. “Olharam para ali mas não pararam.”
E quando a conversa chegou ao dinheiro: “Posso arranjá-lo, o lagar, se me ajudarem. E se não me ajudarem, fica como está.” Quem ajuda. “O Estado.” Fez uma pausa curta. “É por isso que pago impostos.” Outra pausa. “Todos os anos lhe pago impostos.”
O resto, para já, é esperar.
No fim, levou-nos até aos olivais junto à casa. O campo estava húmido, a encosta verde, e algumas oliveiras tinham ramos partidos, outras arrancadas. Perguntámos quantas. Encolheu os ombros como quem tem terra em vários lados: “Tenho em diversos lados, por terreno uma média de 60”. Perguntámos quantas se perderam. Não quis ir ver. “Praticamente não vou sair daqui ao tempo que faz.” E depois, como se o que faltava dizer fosse o mais difícil, largou a frase sem olhar para nós: “E tomara eu esquecer”.