REPORTAGEM || A depressão Kristin deixou a Lousã com duas camadas de desastre, a que se vê e a que se percebe tarde: a serra a cair para dentro da estrada e, lá em cima, aldeias inteiras a ficarem fora do mapa. Subimos à procura de Vale Pereira da Serra, anunciado como “a situação mais crítica”, e encontrámos primeiro os cortes, depois as vozes e por fim o método de sobrevivência que não vem de cima: vem de quem mora ali, de quem limpa, de quem reza, de quem insiste
Em cima, a serra tinha uma direcção, tinha ficado com uma estranheza de penteado.
Não por beleza, mais por isto, direcção. Árvores deitadas quase todas para o mesmo lado, encostas com linhas marcadas, como se alguém tivesse passado a mão de uma vez só e deixado o gesto gravado.
Lá em baixo ainda vinha a Lousã, o trânsito a meio gás, o rádio local a meter-se pelo ruído do carro e a frase do presidente da Câmara, Vítor Carvalho, a ficar colada ao ouvido por duas razões: a depressão Kristin não trouxe só chuva, trouxe também “toneladas de lenha” arrastadas da serra ardida, lenha do incêndio transformada em peso e em pancada, uma segunda queda sobre um concelho com agosto de 2025 atravessado na memória.
E, como se isso não bastasse, o aviso que prendeu mais do que todos os números: havia ainda “aldeias isoladas”, tantos dias depois da primeira noite de sobressalto. Mingachos, em Foz de Arouce. E Vale Pereira da Serra como “a situação mais crítica”. “Situação mais crítica” ficou a soar a diagnóstico, não a lugar. Mas fomos procurá-lo. O lugar, Vale Pereira da Serra.
O caminho directo não deixou. Um guarda da GNR encostou-nos com um gesto curto e explicou a razão do corte: “um riacho transbordou” junto ao Licor Beirão. A estrada para o alto estava interrompida ali, onde a Lousã ainda se anuncia por letreiros e rotina, aparece entretanto uma sugestão de quem sabe que o país se faz por alternativas em dias como este: desvio “pela variante”, mais tempo mas chega-se lá.
A subida começou logo com a repetição do estrago, como se a serra estivesse a falar sempre a mesma língua. Árvores tombadas, umas quebradas pelo meio, outras arrancadas pela raiz, lama acumulada como pele nova. Cabos no chão e cabos no ar, vergados sem dignidade, e neles, presos onde calhou, pedaços de metal que já tinham sido teto de alguém. Em certos pontos, a estrada estreita obrigava a escolher onde pôr a roda, como se a berma já fosse uma mentira. Numa curva apertada, um aluimento obrigou a parar. Máquina amarela, coletes, a estrada estreita cortada ali mesmo, sem negociação. Lama e terra a comerem a faixa, a berma já sem promessa, e nós parados, com o corpo todo atento, a ver a máquina abrir caminho para que a estrada voltasse a ser o que foi.
Esperámos. A chuva ameaçava voltar, a vila lá em baixo chovia leve mas sem descanso e o tempo ali em cima era outro, parado por coisa concreta: terra que cedeu. Quando o caminho abriu, subimos outra vez, a contornar restos de Kristin como se contorna uma ferida, devagar para não a abrir mais.
A rede falhava e voltava, falhava e voltava. O telemóvel perdia barras. O caminho ganhava perguntas. O GPS começou a ser de boca. Apareceu uma placa com “Vale” e parecia que era ali, mas era Vale Nogueira. A aldeia surgiu com o ar de sítio onde tudo conhece o nome de tudo e foi ali, na beira do asfalto enlameado, que surgiu Tina. Ou melhor: surgiu primeiro o modo de caminhar, mais passos laterais do que para a frente, braços abertos, o corpo todo a fazer equilíbrio como se ainda estivesse a atravessar vento. O vento ainda empurrava, a chuva já não fazia mossa, e Tina encostou-se ao carro com vontade de falar, como se o que aconteceu precisasse de ser contado antes de se perder.
Tina é “Tina da Piedade”. Nome verdadeiro, Cesaltina. “Ninguém sabe quem é Cesaltina.” Se alguém ali perguntar por ela, pergunta por Tina. No meio daquela conversa que ela puxa para si, entre gargalhadas e sobressaltos, entra a vida sem pedir licença: “Tive dois AVC.” O marido era um nome e um possessivo, “o meu João”. Morreu há cinco anos. Tina não tem reforma e vive da pouca pensão de viuvez, da horta quando a horta existe, de uma casa pequena de uma divisão só, paredes grossas, pedra até meio metro, a sorte que a impediu de levar a chuva para dentro quando o resto começou a voar. Depois o resto vem atrás, em onda, porque Tina fala depressa como caminha, baralha um número, corrige-se, “estou a mentir”, e volta ao fio: Inês, a neta mais velha, fez 28 anos no dia 1 de janeiro, Patrícia é a mais nova, 21, há um bisneto com cinco anos, “o bolinho dela”, e no meio dessa árvore familiar aparece um som guardado, passado de mão em mão, como se a casa ainda tocasse por dentro: “O acordeão foi para a neta mais nova”. Era “o meu João” que o tocava e Tina insiste, como quem deixa um recado simples: “Você devia ouvi-lo tocar, ao meu João”.
Quando a conversa encosta à noite, encosta com força. Tina vive sozinha e essa solidão não é ideia, é quarto. A frase sai inteira, com a estranheza própria de quem fala de Deus como coisa do dia: “Estava sozinha, a amar a Deus, e Ele veio toda a noite a chorar”. Logo a seguir vem a outra camada, a que ela repete como se ainda a estivesse a ouvir: “Aquilo parecia o diabo”. O vento não deixava nada quieto, fazia o teto bater, fazia as chapas bater, fazia a casa parecer um sítio emprestado. Tina ficou ali, “a amar a Deus”, e ao mesmo tempo com medo, “com medo”, a noite inteira, como quem não tem para onde ir. E quando tenta explicar o que era esse barulho, volta sempre à mesma palavra, “chorar”, como se a chuva e o vento fossem uma coisa só, Deus a chorar por cima da serra e o diabo a passar por cima da casa.
O frio vem a seguir, como vem sempre, porque as tempestades não são só vento e água, são a casa a ficar menos casa. Tina não tem lareira, não tem nada que lhe aqueça no inverno e diz uma frase que é um inverno inteiro num corpo: “A cama é que é a minha vida de inverno”. Depois, sem vergonha fingida: “Estou na cama como um perro”. É duro e é simples. E é assim que ela vive.
A meio da conversa chegaram técnicos da rede eléctrica. Casacos de trabalho, mãos frias, a pressa prática de quem anda há dias a remendar o país. Ali ainda não havia luz. Tina queixa-se. Um atira que vem da Figueira da Foz e que lá foi pior. Outro responde que é da Covilhã e que pior do que chuva é a neve. Tina ri-se. Tina diz que os conhece. Eles olham-se, como quem confirma entre si, e respondem o mesmo: nunca ali estiveram. Por um instante, a aldeia faz uma comédia breve em cima de uma falha séria: sem eletricidade e sem rede estável, toda a gente se agarra a quem passa, a quem trabalha, a quem pode ouvir.
Tina tinha um destino naquele dia e esse destino não tinha graça nenhuma. “Vou ver o terreno”, diz, e depois explica o que esse terreno é: a horta. “A horta de onde como.” O cunhado avisara que uma derrocada levara aquilo e, com aquilo, levara parte da estrada, cortando o acesso a Vale Pereira da Serra. Perguntámos se podíamos ir. Tina abriu caminho com um “sim” simples. Oferecemos boleia por causa do vento e do chão escorregadio. Tina respondeu “é já ali”, mas foi indo à frente do carro, a indicar com a mão para onde apontar, como quem guia por dentro um lugar que conhece desde criança.
A estrada estreitou até deixar de ser alcatrão. Árvores tombadas bloqueavam o olhar. Cabos eléctricos cruzavam a paisagem como linhas de tensão visível. Um poste pesado pendia, preso numa árvore frágil, e a imagem fazia doer porque era demasiado peso apoiado em demasiada fragilidade. A berma, nalguns pontos, já era promessa quebrada: o caminho cedia para uma ribanceira que descia até outra linha de vale. Tina repetia a regra do sítio com uma clareza que ali vira sobrevivência: apontar o nariz para a frente. “Sempre para a frente do seu nariz.”
Chegámos à horta e não havia horta. Havia uma nova geografia feita de terra caída, massa escura e fresca que descera de cima e cobrira o que antes era plantado. “Botava lá batata, botava lá fava, botava lá feijões.” O verbo vinha do tempo em que aquilo respondia. Agora, “esbarreirou tudo”. A água que nasce ali continuava a correr, fina e teimosa, como se o lugar tentasse manter uma função mínima. Tina lamenta-se mas não chora. Olha, mede, aponta. “Agora também já não estou com saúde.” E, ainda assim, está ali, como se a presença fosse a última coisa que não cede.
Osvaldo Serra chegou de enxada. É o cunhado. “Cinco anos mais novo que o meu João e o meu João já morreu há cinco.” Tina nem o reconhece logo, depois reconhece, comenta a maneira como ele anda, “ele é um boneco”, e ele entra na conversa como entra no terreno: direto. “Isto faz-me revolta.” A revolta tem alvo e tem medida. “Cinco minutos de máquina bastavam.” Osvaldo repete o minuto como quem repete prova. Conta que foi a uma sessão de Câmara há um mês, avisou, pediu, ofereceu-se para indicar o sítio exato onde uma máquina devia abrir valeta lá em cima. Não vieram. Ontem, com a enxada, “numa hora”, tirou água dali. E a frase volta, martelo: “Cinco minutos de máquina bastavam”. Cinco minutos entre uma horta e um nada.
E depois começa a apontar com a enxada como quem desenha um mapa em cima do barro. Fala da estrada lá em cima, da valeta que devia ter sido aberta, do caminho da água que se podia ter conduzido para não vir “por aqui abaixo”. Fala do que ofereceu antes, com a frase dita como compromisso e como acusação: “Eu ofereci-me para ajudar, para cá trazerem uma máquina”. Volta à sessão de Câmara, volta ao aviso, volta ao “mandem-me lá uma máquina que eu estou lá e digo o que é que se passa”, como se a repetição fosse a única forma de deixar rasto num lugar onde, diz ele, ninguém veio.
Ele distingue vento e chuva como quem distingue dois culpados. O vento, diz, levou barracões noutro lado e dobrou árvores lá mais abaixo. Ali, o que fez isto foi a água e a terra. A terra “tomou” as árvores.
Mas isto não é água da chuva só, não assim. Aponta para a mina, para a água que “nasce ali”, para um lugar antigo que conhece de menino, e insiste que ontem, sozinho, “numa hora”, desviou água com a enxada, aquilo que, na cabeça dele, a Câmara fazia em cinco minutos com uma máquina. Perguntamos quem limpa o resto, perguntamos quem é que agora vai tirar as árvores e a terra, perguntamos quem resolve. Não responde. E quando olha para o poste tombado e para os fios a fazerem força noutros postes, volta a mudar o tom, já não é uma revolta, é aviso: “Você não passa ali”. A serra fica estreita e o caminho vira risco.
Apesar de tudo, Tina insistia no alto. Queria levar-nos até Vale Pereira da Serra e, pelo caminho, ia lembrando que vive lá quase ninguém. Osvaldo fica de enxada. Subimos devagar porque o caminho continuava a ser interrompido por qualquer coisa — lama, pedra, um tronco, um fio. Só não era pior porque ele, Osvaldo, “tem limpado o que consegue para libertar os poucos”. A certa altura ouvimos cães antes de vermos gente. Latidos na curva, olhos de vigia atrás de rede, e depois o alto a abrir com três, quatro casas, quase todas fechadas, uma sensação de lugar suspenso: há estrada, há casas, há serra, mas falta a parte humana a circular entre tudo isso.
Tina não assiste ao que acontece a seguir. Fica para trás, no caminho, e o alto fica mais quieto.
A placa do alojamento aparece como último sinal de vida organizada: Pera da Serra – Turismo no Espaço Rural. Ligámos para o número de telefone que está na porta. A eletricidade ainda não tinha voltado, mas por momentos o telefone funcionou, como se a serra abrisse pequenas janelas para o resto do país. Marisa atendeu. Marisa Barata.
Dentro, a luz é a do gerador e a da bruma. Lá fora, a serra mostra o desenho do vento: árvores deitadas na mesma direção, encostas marcadas, uma força que não precisa de voz. Vê-se Lousã lá em baixo, no último plano, quase lembrança de cidade.
Marisa fala do lugar como quem fala de casa e de trabalho ao mesmo tempo. Era casa de família antiga, acrescentada ao longo de gerações, convertida em alojamento. O telhado levantou, houve infiltrações, e a parte mais alta foi a mais atingida. Painéis fotovoltaicos voaram e partiram, alguns foram parar longe, “uns bons 12 metros”, e ainda quebraram janelas no vizinho. Marisa não foge ao medo, usa a palavra sem enfeite: “Tivemos muito medo, muito, muito”. Depois tenta explicar e vem outra palavra, mais funda: “uma angústia muito grande” por perceber “como pequeninos nós somos” quando aquilo acontece. E a sensação, dita como sai, sem pose: a natureza “puxou o tapete” ou nós “puxámos o tapete à natureza.”
Herlânder Rodrigues fala pouco, está por lá, mas está por todo o lado no trabalho. Na oficina, a máquina, as mãos, a serra, o barulho de reparação a substituir o barulho do vento. No terreno, a necessidade de cortar, de limpar, de improvisar, de esticar lona que faça de telhas, de apanhar o que voou “para não ficar por aí a fazer de perigo e de lixo para os outros”. Herlânder é presença de gesto, não de discurso, e isso, no alto da serra, conta como método. Não o ouviremos mais.
Fala da segunda noite sem vento mas com chuva a acumular, as terras encharcadas a cederem, a curva a abrir, e a sensação de cerco que não é metáfora: “Estávamos cercados, isolados e cercados”. Não era só um poste tombado. Eram árvores no caminho, terra onde devia haver estrada, fios a atravessar a passagem, a serra a fechar por todos os lados. O cerco só se quebrou mais tarde, à força de mãos locais, Osvaldo e gente de Vale Nogueira a limpar e a cortar, a abrir um corredor onde antes havia bloqueio.
A conclusão dela é prática, não é bonita. “Não há meios para tudo, ninguém vem cá acima.” E por isso têm de “pôr as mãos à obra”. Não há heroísmo nisso. Há falta de alternativa. Em baixo, ribeiras e rios recebem tudo ao mesmo tempo, populações ribeirinhas precisam de ajuda, e as zonas altas ficam para o fim. Em cima sobra o que há, quem está, quem sabe cortar, quem sabe abrir.
Marisa fala também de quem vive mesmo ali. Seis pessoas “mais ou menos”. Vizinhos mais idosos, família longe. Um casal com bebé teve de sair a pé para casa de familiares por falta de electricidade. O alto, que costuma ser procurado por ar e distância, virou lugar onde tudo depende de coisas básicas: um poste inteiro, um fio que aguente, uma máquina que chegue. Antes de nos despedirmos, Marisa volta ao que fica para depois do susto, sem enfeitar: “Vamos tentar ter uma rotina normal de trabalho e de esperança”. E, na oficina, Herlânder mexe óleo na máquina de cortar madeira, como se a serra também precisasse de voltar a funcionar por dentro.
Na descida, o chão mexe outra vez. A terra que levou a horta de Tina cedeu mais. A estrada voltou a estar cortada. Coletes, máquinas, o país a reabrir o mapa à mão. Esperámos, avançámos.
Tina reapareceu no fim, já em Vale Nogueira, como se a conversa tivesse ficado pendurada e precisasse de um último nó. Volta a Deus quando precisa de nomear o que não controla. “Se voltar a tempestade? Isso aí Deus é quem sabe.” Volta ao acordeão do marido, ao som guardado num objeto que agora é de Patrícia. “Como ele tocava, como tocava bem: o meu João.” Tina não chora. Fala veloz como caminha. Sorri aberto. E é essa mistura — lapso e insistência, riso e medo — que a tempestade não levou, que fica no corpo, mais do que a lama, que fica connosco quando descemos.