KRISTIN • REPORTAGEM || Maria Adélia Lopes conta os dias sem eletricidade como quem conta feridas: "Oito". Em Maçãs de Dona Maria, Alvaiázere, a noite dela e a noite do filho Ricardo, 39 anos, é acendida por um candeeiro a petróleo porque não há eletricidade para iluminar a escuridão de outra maneira, é há oito dias que a chuva bate num telhado remendado que aguenta como pode, é há oito dias que sopa é o que há, "é o que tenho". Na madrugada da Kristin, o vento cresceu até parecer “um animal” e ela acendeu velas benzidas de Fátima. Para acalmar o pânico, pensou nas "memórias felizes" com um outro filho dela, 26 anos, um filho que já não vive, morreu em França. "Há quem esteja bem pior do que eu", diz Maria Adélia Lopes
O asfalto está vermelho.
Chegamos já de noite, fim de tarde que escureceu antes do tempo, e a chuva cai com força sem grande vento, uma cortina grossa que se sente mais do que se ouve. O caminho obriga a desvios, há restos de árvore serrados e ainda a invadir metade da berma, e quando os faróis recortam mais além vê-se o que antes era árvore e agora é figura tombada, tronco arrancado pelo meio, a copa no chão como um corpo largado. Nalguns pontos a estrada ganhou pó de telha moída, vermelho, fino, e esse vermelho fica-nos nos olhos como uma prova de que a tempestade não passou, apenas se transformou.
Isto é Alvaiázere e é Maçãs de Dona Maria, é uma estrada secundária de serra na descida e depois corta-se à direita, já a pé, para um caminho estreito que vai dar a duas casas baixas. A da frente, virada para a estrada e para outras casas do lado de lá, quase não sofreu à passagem da Kristin. A outra, mais pobre, tem um telheiro onde se guarda um carro velho e o que se vai juntando ao longo de uma vida, caixas, ferros, sacos, miudezas úteis, o género de coisas que não se deita fora porque um dia ainda podem salvar uma manhã. Quando nos aproximamos, uma carrinha pára e sai de trás um homem que ri alto, um riso inteiro que chega antes dele, e nós perguntamos pela mãe. Encolhe os ombros, responde com honestidade desarmada, “não sei, só cheguei agora”, e o riso volta, atento e tímido ao mesmo tempo, e ele olha-nos com uma espécie de fome, a querer perceber quem somos e o que viemos buscar.
Batemos à janela. Maria Adélia Lopes, 72 anos, abre-nos a porta e deixa-nos entrar com a franqueza de quem já não tem energia para cerimónias. Vemos-lhe primeiro a cara e as mãos, o corpo pequeno a encher o vão, óculos grandes que apanham a luz e a devolvem, uma camisola cor-de-rosa num interior escuro, e depois a voz, direta, sem aquecimento. “Vai fazer hoje oito dias” sem electricidade. A água voltou “barrenta”, mas voltou. O telemóvel ora funciona ora falha, mesmo quando falha pouco falta o resto, a bateria, a tomada.
A sala é cozinha e a cozinha é sala, a luz vem de um único candeeiro a petróleo em cima de uma mesinha, chama amarela dentro do vidro, o resto da casa a existir mais por sombra do que por forma. Só então o cheiro aparece, antigo e teimoso, e fica no ar. Maria Adélia aponta para a panela. “Queres sopa? Que é o que tenho.” Está a ferver água para caldo verde. Ricardo senta-se no sofá de flores ao lado dela, óculos na ponta do nariz, e os olhos vão do candeeiro ao livro aberto no colo da mãe e voltam a nós, e voltam outra vez, como se fosse preciso confirmar que estamos ali. Maria Adélia apresenta-o com a naturalidade de quem cuida e protege. “Ele é especial, anda na CERCI em Penela. Tem 39 anos.” Ricardo sorri muito, ri-se alto quando se ri, e quando não se ri ouve com a respiração audível, como se a atenção fosse um trabalho do corpo, e Maria Adélia faz questão de o puxar para dentro do que estamos ali a fazer, nem que seja por pouco, nem que seja só uma palavra.
Quando a madrugada entra na conversa, entra inteira. Maria Adélia marca as horas com uma precisão que só existe quando se tem medo e não se sabe o que vem a seguir. “Eram umas duas e tal. Comecei a ouvir vento, mas não liguei. Depois comecei a ouvir estrondos, coisas a caírem, levantei-me, não abri portas, tinha medo, tinha aí umas velinhas, fui logo acender. Até às três, quatro da manhã, foi horrível. Eu até pensei, ai, a minha casa agora vai, vou ficar aqui debaixo, vai-me cair a casa.” A luz acabou logo, assim que o vento começou, e o escuro ficou pesado. O ruído era imenso e ela procura a imagem certa e vai dando voltas ao mesmo lugar, até aceitar a comparação que lhe cabe no corpo. “Parecia um animal.” E depois a frase insiste, como se a repetição fosse a única maneira de contar a verdade. “Medo, medo, medo. Senti medo.”
Ricardo entra quando Maria Adélia o chama, acena com a cabeça, aceita a conversa como quem aceita uma tarefa. Perguntamos se teve medo: “Tive”. Perguntamos como era: “Metia medo. Metia medo”. Maria Adélia não o expõe, só descreve o que viu e o que fez nessa noite, aquela forma de estar perto sem fazer barulho. “Ele levantou-se, foi à casa de banho e tornou a deitar-se.” Teve medo, manteve a calma e “tomou medicação”. No fim, ela fecha a casa numa frase só, como quem fecha a porta. “Somos dois. Eu e o meu filho. E olhamos um pelo outro.”
O que salva Maria Adélia de “entrar em pânico” não é coragem de cinema, é biografia. A pior dor da vida já tinha acontecido antes do vento e isso altera a escala de tudo o resto. “A maior dor que eu tive na minha vida foi a morte do meu filho, em França, com 26 anos.” Não faz disso bandeira, faz disso medida. “Eu não entro em pânico. Consegui controlar-me.” Quando explica como, não inventa truques. “Eu fico em silêncio e eu penso.” Pensa nele. Pensa “nas memórias felizes”. E assim, por estranho que pareça, a casa volta a caber dentro do corpo.
Pelo meio, há um detalhe que a traz ao chão, físico, imediato. “Estou sem a prótese de baixo”, avisa, e a fala tropeça um pouco por causa disso. Pede desculpa como quem pede licença, sem dramatizar, e segue.
A fé entra depois, sem pose, com nomes e objetos. “Pedi a Deus, ao Senhor dos Aflitos, que é o nosso padroeiro, e ao São Paulo.” Fala de velas compradas em Fátima, “benzidas”, uma utilizada na madrugada, outra guardada para depois “porque a gente não sabe o que pode vir a acontecer ainda”, e há um instante em que a frase fica quase na fronteira entre crença e relato meteorológico. “Assim que eu acendi essa vela é que começou a acalmar. É verdade, acredite.”
A água, nessa madrugada, não entrou logo. Entrou depois. Na noite a seguir, quando o vento já tinha passado e a casa, cansada, começou a deixar cair o que guardava. Maria Adélia deita-se “às 11 horas da noite” e acorda com água a bater-lhe na cara, ali no quarto. Levanta-se e o chão já está molhado. A cama escapa por um gesto instintivo. “Eu encostei a cama aqui a este lado.” No quarto vê-se a humidade a subir, manchas junto ao tecto, e ela aponta para o alto da parede como quem aponta um sítio do corpo, o lugar onde a casa ficou doente.
O telhado aguenta porque o genro e a filha vieram e fizeram o que era possível. Não vieram logo, vieram mais tarde, e a casa teve de aguentar até aí. As telhas nem sequer vieram de fora. “Nós tínhamos ali no barracão, que tinham sobrado. E calhou porque eram iguais a estas.” No sótão há uma lona e a lona tem de ser tratada como se fosse uma coisa viva. Maria Adélia limpa-a para a água não escorrer escada abaixo até à parte onde vivem, um gesto repetido que substitui a electricidade e substitui a rotina. E ela resume isso sem enfeite: “Com luz, faria certas coisas. Sem luz, farei outras.”
A falta de electricidade estraga comida, “a comida toda, todinha”, e obriga a inventar rotina. A carne na arca, os alimentos, tudo ameaçado. Maria Adélia resolve como resolve uma vida de pouco, com método e sem dramatização. “Tive de cozinhar tudo.” Tempera, estufa, faz carne picada, faz mais para durar mais, e o caldo verde vai para as tigelas enquanto falamos, o vapor a subir sob a luz amarela, o cheiro a petróleo a misturar-se com sopa e com casa. “Faço assim para não estragar.”
O candeeiro não é improviso comprado ontem. Maria Adélia enumera-os como quem enumera heranças. “Eu tenho uns quatro candeeiros.” Um muito antigo, dos pais, já a funcionar mal. Outro igual que deu à filha. Outro sem chaminé. Ainda foi comprar petróleo para este, mas “já estava tudo esgotado”, e mesmo assim ainda tinha “um pedacinho em casa”, o suficiente para os alumiar. À noite, sem televisão e sem telemóvel carregado, ela arranja forma de não ficar entregue ao escuro. “Eu gosto muito de ler.” O que lê, nesses dias, é a Bíblia, “até é uma Bíblia ilustrada” porque as imagens também entretêm quando não há mais nada. Se houvesse luz estaria a ver televisão, ou no telemóvel a jogar, “cartas, damas”, e a lista sai como uma vida normal a ser enumerada para ver se volta.
Há a vida de antes, dita sem épico, mas dita. Maria Adélia trabalhou fora daqui, passou anos em casas de médicos, a ajudar no que era preciso. Fala do “doutor Borges” e do “doutor Arnaut”, nomes largados com a naturalidade de quem serviu com trabalho e não com reverência e que hoje já não servem de rede porque “já faleceram os dois”. Apesar de ter trabalhado em “doutores”, a reforma é pequena, “não chega a 500 e poucos euros”, e a matemática não estica.
Há também a angústia dos filhos. Foram cinco. Um morreu em França. Outro está em França agora e ela não consegue falar com ele. “Não tenho rede, não tenho bateria, não tenho nada.” A filha só conseguiu chegar na sexta-feira à noite. E quando finalmente alguém pergunta o que aconteceu, a resposta resume tudo sem pedir compaixão. “Estamos vivos. Estamos vivos. E ainda há quem esteja bem pior do que eu.”
E depois há o medo que vem depois do medo, não o do vento, mas o de pessoas que aparecem a aproveitar-se. Maria Adélia encurta tudo numa palavra só. “Aproveitam-se.” E explica como: gente que chega “a fazer-se passar por trabalhadora”, “a fazer de conta que vem ajudar” e “depois rouba”. No fim, a regra fica dita como quem fecha a casa. “A gente tem de ter muito cuidado. Tem valores, tem dinheiro e tudo. Eu não abro a porta.”
Quando perguntamos pelo que ainda pode vir, pelo tempo a ameaçar outra vez, Maria Adélia não inventa bravura. “Vem o que vier. Seja o que Deus quiser.” E quando pedimos o segredo do controlo, não há frase bonita, há um método simples e duro. “Eu fico em silêncio e eu penso.” Pensa no filho que partiu. Pensa “nas memórias felizes”. Depois anda pela casa, “para lá e para cá”, a vigiar a humidade, a vigiar Ricardo, a vigiar a própria cabeça.
Saímos e a chuva continua a cair sem vento, como se o mundo tivesse decidido insistir em água. Lá dentro fica o candeeiro a petróleo, a luz curta a fazer sombra nas paredes, e uma vela guardada para quando for preciso, “benzida”, comprada em Fátima, e a lona lá em cima à espera da próxima noite. Ricardo fica com o sorriso pronto, à espera do regresso da luz “para ver televisão, o Preço Certo”. Maria Adélia fica à porta com a frase que serve para tudo, “seja o que Deus quiser.” A casa fecha-se devagar e o cheiro a petróleo fica cá fora um segundo, até ser engolido pela chuva.
Estas pessoas juntaram-se à entrada da mata, vestiram "camuflados e roupa preta": "Objetivo: apanhar em flagrante quem andava a roubar" geradores
"O senhor José Carvalho é o anjo da nossa rua": salvou a casa do padre, a do fadista e a de mais uns quantos. Teve de faltar ao emprego, o patrão "ralhou-lhe"
Nas margens do Mondego teme-se pela vida. "O meu filho pede-me para não o deixar morrer a dormir"
"Aqui ando sozinho": este homem está em cima do telhado e como ele há mais
Um pedreiro aposentado foi onde mais ninguém foi. Carlos impediu duas aldeias de "ficarem encurraladas" na tempestade
Tina "estava sozinha, a amar a Deus", mas entretanto quem lhe apareceu foi "o diabo"