Para Idalina, "aquilo foi morte". Quando José chegou, ele assustou-se com o que viu

Tiago Palma , texto e fotos
5 fev, 08:00
Reportagem: Tempestade Kristin em Alvaiázere (PARTE 2)

KRISTIN • REPORTAGEM || Idalina Mendes, 60 anos e osteoporose de último grau desde os 40, estava sozinha em Lagos, Alvaiázere, quando o vento começou a empurrar-lhe a casa. José, também Mendes, estava em Lisboa, veio como pôde porque o caminho que encontrou "era uma miséria, era tudo para um lado e para o outro, por cima da estrada, das casas". E a casa deles está agora a desfazer-se devagar, ainda assim: ofereceram um quarto a um casal cuja casa se desfez toda. Não é caridade, é a comunidade a funcionar por dentro no momento em que tudo o resto funciona mal — e em que a ajuda de fora demora dias a vir. Quando vem

A tempestade deixou o nome de Alvaiázere no chão, como se o vento tivesse decidido que a primeira coisa a cair tinha de ser a palavra.

A placa ficou ali, atravessada por ramos e agulhas de pinheiro, com “Alvaiázer” sem E e à volta o resto do alfabeto da Kristin: madeira partida, troncos tombados uns sobre os outros, casca arrancada a vivo, sinais de trânsito deitados na erva, a encosta a olhar para a vila lá em baixo com aquela serenidade que só aparece depois de uma violência grande. À chegada, além do que se vê há o que se ouve, um rumor insistente de serração, máquinas e mãos a abrir caminho, a transformar árvores em toros, a empilhar o que ontem ainda fazia sombra. A catástrofe começa assim, num gesto simples do vento, deitar ao chão uma palavra inteira e obrigar uma terra a recomeçar pela linguagem.


No centro, a destruição tem forma administrativa e tem pressa. O edifício dos correios ficou completamente destapado e já se reergue, materiais em pilha, andaimes improvisados, a sensação de que a normalidade se monta como se monta um telhado. As telhas voltam aos sítios onde cabem, uma a uma, como se a casa pedisse o encaixe certo. As lonas multiplicam-se e a vila parece coberta por uma pele emprestada. O município tenta fornecer telhas e lonas, mas a ajuda vem com pequenas condições que, na urgência, se tornam quase rituais: é preciso “procuração” da junta, é preciso levar uma telha caída para que se encontre outra nova que encaixe, é preciso medir a lona ao metro, oito metros de largo, e mesmo assim faltam telhas, faltam lonas, faltam braços.

A improvisação entra onde a logística não chega. Há guarda-chuvas em telhados, abertos e presos ao que for possível, um círculo de tecido a fazer de cobertura onde antes havia certezas. Há chapas retorcidas, barracões abatidos, um estilhaço metálico aqui, outro ali, e no meio disto tudo ainda há árvores carregadas de fruto, laranjeiras com as laranjas intactas, como se a natureza tivesse dois calendários, um para o vento e outro para a vida.

No pavilhão desportivo acolhem-se desalojados da Kristin, um abrigo que cheira a transição, gente a dormir enquanto a casa deixa de ser casa. Nas juntas de freguesia do concelho juntam-se idosos com contas na mão e medo nos olhos, gente que quer pagar água e luz mesmo não tendo água e luz, por receio do corte quando tudo regressar. A resposta encosta-os a uma parede invisível: o sistema está em baixo, não se consegue fazer ali. Ao lado, jovens procuram sinal, procuram internet, procuram um traço mínimo de rede para avisar alguém, para trabalhar, para existir, e alguns encontram porque certas juntas têm Starlink e, por momentos, a modernidade funciona como um gerador invisível numa terra às escuras. O quotidiano reorganiza-se assim, entre o receio de uma fatura futura e a procura de um ponto de rede que não caia.

Saímos do centro e seguimos para Lagos, povoação de Alvaiázere que ainda pede um caminho de serra. E quanto mais entramos mais a paisagem mostra a força com que foi tocada, árvores arrancadas, ramos grandes encostados à berma, marcas no asfalto de uma limpeza apressada, cabos frouxos a descerem de postes, negros e enrolados, como cordas largadas a meio de uma fuga. Numa estrada, uma barreira amarela atravessa o caminho e os fios caídos desenham uma espécie de teia no chão, e um veículo passa devagar, a contornar o obstáculo com uma prudência que o vento ensinou.

Em Lagos, a casa de Idalina Mendes e José Mendes tem paredes cor de tijolo e duas portas escuras alinhadas, estores fechados, uma grade branca a separar o quintal da rua. À frente, a calçada está suja de folhas e ramos e pequenos pedaços de telha. Ali, o estrago não é uma fotografia, é um inventário diário.

Entramos e a primeira sensação é o peso da humidade, um cheiro que não se limita ao nariz, instala-se na roupa, no reboco, na madeira. Não há luz. A casa como era ficou interrompida e agora a vida cabe quase toda numa divisão de baixo, uma espécie de salão que se aproxima de cave, o lugar para onde empilharam o que puderam salvar. A sala tornou-se quarto e armazém e corredor, cama montada no centro, sacos e caixas, roupa em cima de tudo, uma mesa com toalha azul, objetos espalhados, um cesto de laranjas pousado como se fosse um gesto de insistência e o resto organizado por urgência, como se a casa tivesse aprendido a caber em si mesma.

Idalina guia-nos por dentro com a atenção de quem aprendeu a andar sem confiar no chão, um passo, outro passo, a procurar onde não escorrega, a andar de bacia em bacia, a ver o que já encheu, o que está a meio, o que pode transbordar a qualquer momento. Em certas divisões, o soalho e as cerâmicas refletem a luz como se fossem espelhos e no chão há alguidares e bacias alinhados para apanhar a pingadeira, recipientes de tamanhos diferentes a fazer de teto provisório. A coreografia é simples e repetitiva, e por isso é brutal: pôr, esperar, ouvir, esvaziar, voltar a pôr, porque a casa agora pede isso, pede vigília.


E é no agora que a voz de Idalina abre a madrugada. Idalina tem 60 anos. Osteoporose de último grau desde os 40, a perna partida, duas operações, e uma mãe com Alzheimer num lar, para onde foi obrigada a levá-la depois de partir a perna. Quando chega à noite da Kristin, a voz não procura metáforas. “Aquilo é morte, para mim foi a morte.” E logo a seguir, sem se proteger: “Só pensei em morrer”.

Nessa noite esteve sozinha. José, marido e militar, 60 também, estava em Lisboa, em Belas. Ela ficou no quarto, do lado da janela, com a casa a mudar de som por dentro, a ouvir a casa a ser empurrada pelo vento. “Fiquei ali estática, sentada na cama.” A porta principal empanou e o medo ganhou forma de ferragem. “Eu queria abrir a porta, não conseguia.” Quando se levanta, já não é a casa de sempre. “Levantei-me e estava ali um rio de água, praticamente.” A água entra direto, sem intervalo, noite inteira, e os barulhos vêm em ondas, lá em cima e cá dentro, chapas a bater, telhas a desencaixar, e depois aquilo que ela enumera como quem aponta para os ruídos, para que não pareçam imaginação. “Era o grelhador, era aquele barracão.” Ela fica ali, sentada, imóvel, porque “uma pessoa não podia sair”. Do outro lado, José tenta fazer o gesto básico de qualquer pessoa: ligar. Só que não há, e a repetição começa aí, como se fosse um refrão feio. “Foi ligar, ligar, ligar.” E a resposta, sempre a mesma, sempre a cair: “Não há comunicações, não há nada”. A ansiedade não fica só em Lisboa. Cresce no tempo que ele demora a chegar.

E cresce também do lado de fora, onde a família está longe. Os dois filhos estão na Holanda. “Os filhos depois também ficam preocupados.” Durante dias, não há maneira. Quando a rede dá um pouco, dá por instantes, dá como se fosse emprestada. “Só consegui ligar para o meu filho ao fim de uma semana.” E quando finalmente conseguem, a conversa fica ali, curta, contida, como se fosse preciso proteger quem está longe do que se vê aqui dentro. “A gente está o mais possível bem.” O sinal aparece onde aparece. Às vezes é preciso sair, ir até onde a rede ainda pega, e voltar, como se falar com os filhos fosse mais uma coisa a resolver na lista das coisas que a tempestade deixou.

Quando José finalmente regressa, a chegada não é épica, é lenta e perigosa. José traz a A13 à boca como quem traz um mapa de obstáculos. “A autoestrada, a A13, era uma miséria.” E depois a enumeração, que tem o ritmo de quem ainda está a ver: troncos, árvores, estradas onde não se passa, e a vila a aparecer como um choque. “Quando entrei aqui na vila até me assustei.” O que o assusta é a escala. “Era eucaliptos, era sobreiros, era tudo para um lado e para o outro, por cima da estrada, das casas.”


José chega na quinta-feira à noite, perto das 22:00, e chega às escuras. “Já não havia luz.” Vê pouco, quase nada. O primeiro contacto com a casa acontece por relato, por boca de Idalina e por fotografias que ela vai mostrando como quem prova o que não dá para acreditar. No outro dia, ainda com a casa a meter água, levanta-se às cinco da manhã e volta para Lisboa porque está em trabalho e não pode faltar. Só na sexta-feira à noite é que regressa para ficar. Com a claridade inteira e a degradação a avançar, a ideia finalmente assenta. “Só comecei a interiorizar isso no sábado.” A partir daí, a frase muda de tom, fica prática, fica dura. “Isto não é só pôr telhas.” A água já entrou, a madeira começa a apodrecer, os móveis puxam humidade para dentro de si e a casa vai-se desfazendo devagar, mesmo quando lá fora parece que o vento já passou.

A casa confirma o que ele descreve. No sótão, o telhado abre-se em falhas por onde entra luz fria, ripas expostas, telhas deslocadas e janelas pequenas a recortar um céu que agora entra na casa. No chão do desvão há objetos pousados à pressa e água acumulada. Noutro canto, um candeeiro de lágrimas, cristais compridos a refletirem a claridade que entra pelas brechas, delicadeza suspensa num lugar ferido, como se ainda existisse um tempo antigo ali dentro e ninguém quisesse mexer nele.

No piso de cima, sobreviveu um pequeno quarto. E esse quarto não ficou para eles. Ficou para um casal a quem alugavam uma das casas antigas que recuperaram ali ao lado, gente que, com o telhado mais ferido e a água a entrar, ficou sem sítio. José encosta a frase ao gesto, sem dramatismo. “Tivemos de os trazer e oferecemos aquele quarto para eles estarem com dignidade, para dormirem, para descansarem.” Idalina segura a regra como quem segura um compromisso. “Continuamos a oferecer.” Não é caridade. É comunidade a funcionar por dentro no momento em que tudo o resto funciona mal.

Eles próprios descem com a casa às costas e fecham-se nesta divisão de baixo, onde se come, se dorme, se cozinha, se espera. E aquilo que ainda há no piso de cima fica a uma distância estranha, quase proibida. Idalina lembra uma outra cozinha, que ficou comprometida, lembra o teto a cair e a frase sai como confissão prática, sem drama. “Olha, nem sei como é que está, porque eu já nem vou lá para cima.”

A divisão de baixo também não é abrigo confortável. Idalina aponta a idade da casa, aponta a forma como o frio entra como se tivesse chave. “Isto é do tempo dos meus pais.” E depois insiste no que se sente, não no que se explica. “Isto tem muita aragem.” O corpo responde como pode, roupa em cima de roupa, camadas que substituem paredes, e a imagem é tão simples que quase dói. “Ando com dois pares de meias, ando aqui com um monte de roupa.”


O gerador entra como valia e como disciplina. José insiste que foi um golpe de sorte. “Tive uma sorte bestial em arranjar um na sexta-feira, quase às cinco horas.” Em Lisboa já não havia nada para trazer. “Estava tudo esgotadíssimo.” Há uma frase dele que explica o interior, não da casa mas do país, melhor do que qualquer análise sociológica. “Está tudo esgotado em todo o lado.” Lonas, oleados, geradores. E mesmo que houvesse, falta outra coisa. “Aqui no interior já nem contamos com mão-de-obra.” Depois vem a imagem que fica, meio amarga, meio fatual. “Isto está completamente deserto.” E quando fala das pessoas que restam, encontra uma definição que mete a idade e o tempo numa só palavra. “A maior parte é da faixa etária dos pré-digitais para cima.”

A água, pelo menos, ainda corre da torneira. José aponta isso como quem aponta uma tábua no meio do resto. “É de torneira, por enquanto.” E repete, como se fosse preciso garantir a frase. “Por enquanto.” A eletricidade é outra história. “Já há luz aqui na iluminação pública, mas ainda não chega à nossa casa.” Frentes diferentes, trabalhos diferentes, o atraso a cair sempre no mesmo sítio. E a preocupação muda de eixo. Não é só ficar sem luz. “Estamos a preocupar-nos é com a água enorme que está a entrar na nossa casa.”

Quando José recua para tentar entender o que falhou, não procura culpados pequenos. Procura padrão. “Desde os incêndios, desde catástrofes que apareceram cá no nosso país, a história repete-se.” E encosta a crítica ao tempo, que é o que custa quando se está com a casa aberta. “É preciso passar dois, três dias, e depois é que aparece alguém a bater à porta.” O resto vem logo, a centralização, os recursos curtos, e a sensação de que a ajuda chega sempre em ondas atrasadas. “Acho que estamos um bocadinho desprotegidos. Um bocadinho não; estamos desprotegidos, estamos esquecidos.”


A ansiedade, em Idalina, não é só uma ideia. É corpo. É dor. A dor vem de trás, da osteoporose e da perna, e vem do que a casa passou a exigir: subir e descer, ir buscar baldes, esvaziar alguidares, andar atrás da água como se a água tivesse relógio. Ela diz isso sem floreados. “Chego à hora do almoço e ou tenho de me deitar ou tenho de ir para um lado qualquer porque eu não aguento, é tanta dor.” Depois vem o resto, o medo a querer mandar mais do que a dor, a vontade de não ter de subir a dose, de não ter de ir buscar mais “calma” em comprimidos, e por isso precisa de sair, nem que seja para tomar um café de máquina, só para distrair. “Mesmo que não seja com tanta intensidade, a pessoa já tem aquilo na cabeça.” E a conclusão fica simples, de sobrevivência. “Se for preciso ir dormir para Alvaiázere, para um lado qualquer, eu vou. Não quero viver isto novamente.”

Há um detalhe que parece pequeno e afinal organiza o quotidiano inteiro: o café. No fim da conversa, eles oferecem café como quem oferece uma pausa numa casa onde tudo é água e espera. Para isso, ligam o gerador apenas o tempo necessário para acordar a máquina. O ruído enche a casa como se fosse uma visita indesejada. O café sai. E a regra vem logo a seguir, dita sem dramatismo, dita como quem aprendeu a contar o combustível como se conta o tempo. “Ligamos só para o café, depois desliga-se logo.” O combustível é contado como se fosse tempo e o tempo aqui é sempre curto.

Quando a conversa fecha, não fecha com moral. Fecha com necessidade. Eles saem para procurar combustível onde houver. Idalina precisa de sair para não ficar ali fechada. A casa fica para trás, empilhada, húmida, vigilante, com os alguidares no chão e a lareira a tentar secar o que consegue, e nós ficamos com a sensação de que a tempestade ainda está ali, não no vento mas na memória e na antecipação.

Lá fora, a vila recompõe-se como pode: lonas nos telhados, filas curtas nas juntas, gente à procura de um pagamento que o sistema não deixa fazer, jovens à caça de rede, o pavilhão a servir de cama. E quando regressamos ao princípio, a placa caída volta a impor-se. “Alvaiázer”, ainda sem E, está no chão, rodeado de ramos, e a palavra já não é só nome. É a porta que empana, a casa que mete água, “um rio de água” a atravessar o interior, o gerador ligado apenas o tempo de um café, um casal separado por dias sem comunicações. E a frase de José fica a bater no resto, simples e dura. “Estamos desprotegidos, estamos esquecidos.”

 



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