Entre "Margo's Got Money Troubles" e "Euphoria", o OnlyFans virou o enredo favorito da televisão
Na série “Margo’s Got Money Troubles”, Margo, interpretada por Elle Fanning, pinta todo o corpo de verde metálico. O objetivo? Incorporar completamente a sua personagem do OnlyFans, que é uma alienígena terrestre chamada Fantasma Faminto, que oferece nudez ligeira bem como críticas severas aos genitais dos seus subscritores.
Os rendimentos que Margo, uma mãe solteira, recebe deste tipo de trabalho são diretamente destinados ao sustento do seu filho pequeno, depois de ter perdido o emprego que tinha num restaurante – e que não envolvia pessoas excitadas na Internet.
Tal como fez Margo, houve mais de 4,6 milhões de pessoas em todo o mundo a tornarem-se criadoras de conteúdos no OnlyFans — trata-se de uma plataforma por subscrição conhecida por apresentar de tudo, de fotografias para quem tem fetiche por pés a conteúdos explícitos para adultos. Uma década depois da fundação, o OnlyFans está agora também presente na televisão dita tradicional, incluindo em "Euphoria", onde Cassie, personagem de Sydney Sweeney, ascende ao estrelato na plataforma.
A plataforma também tem um papel de destaque no enredo da série "Industry", da HBO - e acabou mesmo parodiada em "Abbott Elementary", da ABC, o programa mais positivo da televisão. Será um sinal de que a cultura americana está a atravessar uma fase de hipersexualização? A resposta mais provável é esta: as pessoas estão a enfrentar dificuldades numa economia americana instável e em constante mudança. As motivações das personagens para entrar - ou pensar em entrar - no OnlyFans podem variar, mas a razão é quase sempre essencialmente a mesma: o mercado de trabalho tradicional não está a funcionar para elas.
Rufi Thorpe, autora do romance que inspirou a série “Margo's Got Money Troubles”, da AppleTV, acredita que o “crescente das dificuldades financeiras neste país” está relacionado com a crescente relevância cultural de uma plataforma como o OnlyFans.
“As pessoas estão desesperadas para pagar a renda. E daí que surja uma cultura em que as pessoas são estafetas da DoorDash, motorista da Uber ou criadoras de conteúdos do OnlyFans”, diz.
Por mais fictícias que sejam as histórias, têm raízes em algumas das realidades que milhões de pessoas enfrentam nos nossos dias.
Uma sondagem da CNN revelou que a maioria dos americanos está pessimista em relação à economia, com os preços elevados e o custo de vida a levá-los a reduzir as suas despesas, incluindo a alimentação. A inflação também está a subir, corroendo os salários dos americanos. Já quem procura emprego têm enfrentado grandes desafios no mercado de trabalho nos últimos anos e na maioria dos sectores. A menos que esteja à procura de emprego na área da saúde — um dos poucos setores que estão a contratar neste momento e uma área em que nenhuma das personagens destas séries de televisão trabalha —, o cenário é bastante sombrio.
Esta realidade económica está a mudar a forma como o trabalho sexual é retratado na televisão. Durante muito tempo, as trabalhadoras do sexo foram retratadas sobretudo como vítimas nas séries policiais. Agora, estão a ser mostradas a recorrer ao OnlyFans para fazer o que é banal, mas crucial, para ganhar dinheiro.
Legitimação versus estigmatização
Thorpe inspirou-se na explosão do OnlyFans durante a pandemia para escrever o seu romance de 2024.
A plataforma permite aos criadores publicar vídeos e fotografias e interagir diretamente com os subscritores — e ficar com 80% dos ganhos, segundo a política de criadores do OnlyFans.
Quem ganha mais de 600 dólares por ano recebe um formulário fiscal, o que, aos olhos de muitos criadores, legitima o seu trabalho, diz Bridget Crawford, professora de Direito na Pace University, que publicou estudos sobre a economia por detrás do OnlyFans. O objetivo destes criadores de conteúdos, segundo ela, é sentirem-se “como qualquer outro trabalhador”.
Pagar impostos sobre os seus rendimentos também ajuda os criadores a terem um historial para que possam alugar um apartamento ou obter um empréstimo – um pensamento que é retratado em Margo, a personagem de Fanning.
Segundo Thorpe, a plataforma é apelativa porque assenta no facto de oferecer trabalho sexual sem qualquer conteúdo físico. Todas as modelos com quem a autora falou durante a sua pesquisa para a personagem Margo entraram na plataforma “pelo dinheiro”.
“Penso que seja essa a principal razão pela qual alguém se torna profissional do sexo”, remata.
Gracie Canaan, comediante e criadora de conteúdos no OnlyFans, que também apresenta o podcast “OnlyFantasy”, da Audible, conta à CNN que faturou quatro mil dólares no primeiro mês, ao oferecer uma “experiência de namorada” – que incluía “nudez em biquíni”, “algumas fotos nua” e interpretação de personagens. No ano passado, Canaan ganhou mais de 100 mil dólares na plataforma – um valor superior a 86 mil euros.
O dinheiro que ganha no OnlyFans é a principal razão para estar nesta plataforma. Ao mesmo tempo, continua a investir na sua carreira de comediante. Também opta por criar conteúdo de uma forma que a faça sentir-se “criativamente realizada”, diz.
“É algo que quero continuar a fazer”, garante. “Sei, pela experiência própria que tive em trabalhos que detesto, que, para continuar a fazer isto tenho de gostar muito. A forma como encontro alegria neste trabalho é sendo criativa”.
Canaan acredita que as histórias e enredos sobre a plataforma acabam por ter impacto cultural neste momento por causa da “incerteza coletiva” na economia, mas também porque passou ser compreendida a razão pela qual “tantas pessoas recorrem ao OnlyFans”.
“Esse estigma foi diminuindo com o tempo”, nota Canaan. “Tornou-se um assunto suficientemente interessante, sem ser tão tabu, como costumava ser”.
Disforia
Chloe Cherry, antiga atriz de filmes para adultos e modelo do OnlyFans que interpreta Faye em "Euphoria", acredita que o OnlyFans se tornou mais aceite na cultura atual devido ao “capitalismo e à deterioração da economia”.
“Não tem nada a ver com empoderamento, com poder ou com algo desse género”, afirmou Cherry numa entrevista à Refinery29, acrescentando que considera a plataforma um “estranho fenómeno dos anos 2020 que, no futuro, nos deixará muito confusos”.
O OnlyFans tem um papel importante na mais recente temporada de "Euphoria", com Cassie a entrar nesta plataforma com a esperança de ganhar mais 50 mil dólares para as flores do seu casamento. Numa cena, faz-se passar por um bebé adulto, o que gerou uma forte reação negativa por parte dos criadores do OnlyFans, que consideraram a cena “problemática”, afirmando que retratar a plataforma como um local que aceitaria este tipo de conteúdo representa um “sério problema”.
O criador de "Euphoria", Sam Levinson, já tinha afirmado ao The Daily Beast que a série tinha como objetivo encontrar uma “camada de absurdo” na jornada de Cassie no OnlyFans, dado que, numa cena, por exemplo, a empregada doméstica a ajudou a gravar conteúdo.
A CNN contactou a HBO e um representante de Sweeney para obter um comentário de resposta às críticas geradas por esta cena.
Um porta-voz do OnlyFans recusou fazer comentários para este artigo, remetendo para os termos de serviço e para a política de utilização aceitável da plataforma. As mesmas referem que o OnlyFans proíbe qualquer conteúdo que envolva menores de 18 anos ou a encenação de papéis relacionados com a idade.
O mito do dinheiro fácil
O OnlyFans é tão omnipresente que até Janine Teagues, a otimista professora da segunda classe interpretada por Quinta Brunson em “Abbott Elementary”, da ABC, pondera a ideia de se registar num site chamado “MostlyFans”, até descobrir que pode perder o emprego. No final, acaba por descobrir que o emprego na escola está garantido, para seu grande alívio.
Na realidade, Janine talvez precisasse de um plano B para o seu plano B. É que o OnlyFans não é apenas dinheiro fácil.
É difícil saber quanto ganha a maioria dos criadores, uma vez que o OnlyFans não divulga estes dados. Os criadores mais populares do site podem chegar a faturar milhões por mês, mas este não é o caso da maioria.
Canaan, criadora de conteúdos para o OnlyFans e apresentadora de podcasts, afirma que, embora não esteja entre as que mais ganham, está a faturar mais com a plataforma do que ganhava no seu emprego anterior numa empresa.
“Estar no mundo corporativo americano e ver tudo desmoronar, e depois perceber que o OnlyFans é, na verdade, mais estável do que aquilo que me ensinaram a acreditar ser a coisa mais inteligente e segura a fazer, é surreal”, diz.
O facto de uma pequena percentagem de criadores se tornarem os mais bem pagos não significa que seja impossível. Talvez seja por isso que tantas pessoas recorreram, ou consideraram recorrer, ao OnlyFans depois de tentarem navegar numa economia que não as suporta, como Margo, Cassie ou Janine.
Afinal, como diz Cassie num dos episódios, “este é o mundo empresarial que temos”.
A HBO, tal como a CNN, pertence à Warner Bros. Discovery.
