"Glória" conquistou os portugueses na Netlix. E a seguir "ainda há muitas histórias por contar"

19 dez 2021, 11:00

Foi a primeira série original portuguesa na Netflix, mas não será a última. O criador de "Glória" está satisfeito com as reações e as audiências e não descarta a hipótese de fazer uma segunda temporada

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2021 é o ano de "Glória": esta não foi apenas a primeira série portuguesa da Netflix, foi também a primeira produção portuguesa a liderar a tabela de audiências deste serviço de streaming no nosso país.

A história do jovem engenheiro João Vidal e do seu envolvimento com a população da Glória do Ribatejo e com os funcionários da RARET - um centro de retransmissão da Radio Free Europe usado pelos Estados Unidos, na década de 1960, para transmitirem mensagens anticomunistas na Europa de Leste - estreou no dia 5 de novembro e logo nesse primeiro fim de semana chegou ao primeiro lugar do ranking diário em Portugal, onde sem manteve durante uma semana. Na semana seguinte, "Glória" ainda esteve no primeiro lugar do top. 

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As audiências não são tudo mas Pedro Lopes, o criador de "Glória", não esconde a satisfação pela performance da série e por todo o feedback que recebeu: "As reações foram muitíssimo positivas", diz.

"As audiências da ficção nacional são geralmente dominadas pelas novelas. Esta série conseguiu captar o interesse de um novo público que, normalmente, não vê ficção nacional. Embora seja uma série de época, teve uma adesão enorme entre o público mais novo. O que sentimos é que com "Glória" houve um encontro dos portugueses com a nossa ficção, e isso deixa-nos muitos satisfeitos", confessa à CNN Portugal.

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Como todos os programas da Netflix, "Glória" ficou disponível em todos os mais de 190 países onde existe este serviço. Não é possível saber ao certo quantas pessoas já viram a série portuguesa, mas sabe-se que chegou ao top10 no Luxemburgo e que conseguiu artigos elogiosos no Brasil e nos Estados Unidos.

A Forbes, por exemplo, chamou-lhe "um intenso thriller histórico de espionagem" e considerou-a uma série "de grande qualidade com um enredo intrincado". A crítica sublinha o facto "Glória" não retratar os americanos e os soviéticos como bons ou maus, optando por mostrar "a complexidade da Guerra Fria, ainda mais complicada pela própria história colonial e autoritária extremamente brutal de Portugal".

Pedro Lopes escreveu o argumento de "Glória" e Tiago Guedes (de "Coisa Ruim" e "A Herdade") realizou. No elenco encontramos  Miguel Nunes, Carolina Amaral, Afonso Pimentel, Victoria Guerra, Adriano Luz, Leonor Silveira, Marcello Urgeghe, Pedro Borges, João Pedro Vaz, Maria João Pinho, Tonan Quito, Rita Durão, entre outros atores portugueses. E ainda um grupo de atores estrangeiros, entre os quais Matt Rippy, Stephanie Vogt e Augusto Madeira. 

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Como surgiu a história de "Glória"?

Nascido em 1976, Pedro Lopes cresceu a ouvir as histórias da RARET partilhadas pela família. "Eu sempre ouvi falar da RARET, por isso fiquei muito surpreendido quando percebi que muitos portugueses nunca tinham ouvido falar daquele sítio onde ao longo de quase 45 anos trabalharam cerca de 500 pessoas e que foi tão importante para aquela região", conta. "Filmámos a maior parte da série nas instalações verdadeiras da RARET, o que é um luxo", diz.

Em "Glória", junta-se a história da RARET e das pessoas que ali trabalham com a Guerra Fria, a situação política do país marcada por um ditador, Oliveira Salazar, e uma guerra colonial. Um dos trunfos da série é que a maior parte da ação não se passa em Lisboa, mas na pequena aldeia de Glória do Ribatejo, o que permite ter personagens de diferentes classes sociais, desde governantes a amoladores de facas. É como se aquela terra se transformasse num verdadeiro ninho de espiões, onde agentes da CIA e do KGB se misturam com as gentes do campo.

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A Pedro Lopes interessa-lhe contar "histórias que são desconhecidas do nosso passado recente". "Uma coisa engraçada que acontece com o "Glória" é que gerações diferentes veem coisas diferentes e é uma oportunidade de redescobrir um país e uma história comuns", explica.

Aqui existe o tema da guerra colonial, tratado sobretudo do ponto de vista de um jovem soldado que fica traumatizado com a experiência (mostrando-se também o impacto que isto tem nas pessoas à sua volta). 

Existe o tema totalitarismo, com a consequente falta de liberdade, e a presença constante da PIDE e dos seus métodos de tortura.

Existe, obviamente, a Guerra Fria, com a oposição entre os EUA e os países do leste europeu, mas também o modo como Portugal, país alegadamente neutro, lidava com esta situação. "O que vemos aqui é uma guerra de propaganda, uma luta pelo controlo da informação, era isso que se fazia na RARET. E isso tem ecos com a realidade e com toda a questão das fake news que vivemos hoje em dia", diz Pedro Lopes.

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E depois há outros temas mais sociais, quer seja o retrato de um país "dominado por uma elite e onde havia poucas possibilidade de ascensão social", quer seja a igualdade de géneros, a violência doméstica, as diferenças geracionais ou, mais prosaicamente, os sonhos da juventude e o modo como se viviam as paixões.

As vantagens de trabalhar com a Netflix

"Glória" é uma co-produção da SPi com Netflix e a RTP e que contou com o apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA). "Trabalhar para a Netflix deu-nos um outro músculo financeiro", admite Pedro Lopes. 

"O acesso a um orçamento maior deu-nos acima de de tudo mais tempo, o que nos deu a possibilidade de recuar, de refletir, de os atores ensaiarem, de a direção de arte fazer um trabalho melhor, de a edição poder ser feita com mais calma. Com o tempo ganha-se nos detalhes", explica o argumentista. São esses pormenores que, todos juntos, podem fazer a diferença. 

"Porque nós já sabemos fazer e já o fazemos", sublinha Pedro Lopes - que tem uma longa carreira na escrita para televisão, com créditos em séries como "Conta-me como foi" e novelas como "Alma Coração". "Temos uma indústria audiovisual que está a fazer o seu caminho e, com as condições que temos, estamos a fazê-lo muito bem. Já não há aquele sentimento de inferioridade que antes havia, pelo contrário, há sempre uma procura de fazer melhor, de ir à luta e, por isso, as gerações mais jovens sentem uma enorme confiança."

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O que assistimos, hoje em dia, é a uma mudança na forma como os conteúdos são distribuídos: "Vemos produtos de países que antes não víamos e em línguas a que antes não tínhamos acesso. Isso pode ser um enorme desafio para quem cria ficção, porque estamos a competir globalmente. Mas é ao mesmo tempo muito estimulante".

Por outro lado, as plataformas de streaming permitem um "acesso direto aos assinantes" e onde todos estão em pé de igualdade. "Por isso, o importante é ter qualidade. É contarmos a história que queremos contar o melhor possível", explica Pedro Lopes. 

E o futuro?

Perante o grande sucesso de "Glória", houve logo quem falasse na hipótese de se fazer uma segunda temporada. Pedro Lopes sorri mas não se compromete: "Não sei, sinceramente, se vai ou não haver uma segunda temporada. Neste momento o que nos interessa é levar esta história ao máximo de pessoas." Mas lá deixa escapar: "O Muro de Berlim só caiu em 1989 e a URSS ainda sobrevive, por isso se quisermos ainda há muitas histórias por contar à volta da RARET".

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Uma coisa, no entanto, já se sabe: "Glória" foi a primeira mas não será a última produção portuguesa da Netflix. "Há outros projetos já em curso, de várias produtoras. A Netflix tem uma grande capacidade de reunir talentos de diferentes nacionalidades e está interessada em ter produtos muitos diversos. A porta está aberta, agora temos que saber aproveitar."

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