Uma mensagem de Portugal para o homem mais rico do mundo: “Não faz qualquer sentido diabolizar o teletrabalho”

2 jun, 22:41
Conta de Twitter Elon Musk (Foto: Getty/ Chesnot)

Elon Musk mostrou-se implacável com o teletrabalho. Terá algum fundamento?

Conhecido por ser um patrão rígido e por não se poupar a polémicas, Elon Musk voltou mostrou-se implacável com o teletrabalho: o diretor da Tesla enviou um email aos trabalhadores no qual afirma que “o teletrabalho já não era aceitável”. Depressa a divulgação do texto gerou críticas mas Musk não se intimidou: à pergunta "o que diria às pessoas que pensam que ir para o trabalho é um conceito antiquado?" o empresário respondeu que "deveriam fingir que trabalham noutro lugar". Numa altura em que há cada vez mais empresas a adotarem regimes de trabalho remoto ou modelos flexíveis, Musk, o homem mais rico do mundo, parece estar no polo oposto. Mas com que fundamento?

Ricardo Ferraz, economista investigador no ISEG e professor na Universidade Lusófona, é perentório: “Não faz qualquer sentido diabolizar o teletrabalho”. Em declarações à CNN Portugal, o especialista ressalva que o diretor da Tesla é quem conhece melhor a realidade da empresa e "lá saberá", tendo “sempre o poder de acabar com o teletrabalho”. No entanto, continua, “não é por ele considerar que o teletrabalho não é verdadeiramente trabalho que isso passa a ser lei” nem é "por ter aparentemente corrido mal na Tesla" que isso se verifique noutras empresas. 

De resto, Ricardo Ferraz lembra que estas declarações surgem depois de a Tesla ter apresentado lucros recorde em 2021: a fabricante de automóveis elétricos registou lucros de 5,5 mil milhões de dólares (cerca de 4,8 mil milhões de euros), o que representa um crescimento de mais de sete vezes face ao verificado em 2020.

O especialista nota que "diversos artigos científicos publicados" realizados por causa da pandemia evidenciam os benefícios do teletrabalho, quer para os funcionários quer para as empresas. Acrescenta que há também um relatório da OCDE, divulgado há cerca de seis meses, "no qual são abordados os temas da produtividade e do teletrabalho" e que esse relatório refere que "o teletrabalho pode trazer menos deslocações e menos distrações", o que favorece a produtividade dos funcionários.

"O teletrabalho começou a ser uma imposição dos governos mas acabou por trazer vantagens para famílias e empresas. É possível termos trabalhadores a viver no interior do país e a trabalharem para empresas em Lisboa, onde os preços são proibitivos para a maioria dos cidadãos."

No caso português, o teletrabalho pode, por isso, ser uma estratégia para dinamizar o interior.

Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística dizem-nos que em Portugal há cerca de 510 mil trabalhadores em teletrabalho. Antes da pandemia, algumas empresas, sobretudo tecnológicas, já tinham funcionários em trabalho remoto, mas com a covid-19 estar à distância tornou-se uma obrigação. Isto forçou muitas empresas a readaptarem-se e a criarem novos modelos de trabalho nos confinamentos. Em muitos casos, os novos regimes vieram para ficar. 

Foi o que aconteceu na consultora Doutor Finanças, onde os funcionários podem escolher um regime de trabalho flexível, consoante as suas necessidades e preferências. "Temos um modelo de trabalho flexível. Hoje posso ter 100 trabalhadores em teletrabalho, amanhã posso ter menos", explica Irene Rua, diretora de recursos humanos da Doutor Finanças.

"Se me perguntar se eu imaginaria que este era o modelo que achava que ia vigorar, eu digo de caras que não", sublinha a responsável. Mas a verdade é que vigorou. Mais: Irene Rua diz que com o teletrabalho os funcionários são igualmente produtivos e até têm maior disponibilidade para as tarefas.

"Acho que os resultados têm corroborado. As pessoas têm sido igualmente produtivas porque não têm de se sujeitar a longas filas de trânsito - podem ter um equilíbrio efetivo entre a vida pessoal e laboral e por isso têm outra disponibilidade para o trabalho."

Ricardo Ferraz sublinha que as declarações de Musk, "sendo um empresário ouvido em todo o mundo", podem passar "um sinal errado", quando as evidências apontam outras conclusões. "Há empresários que podem ir atrás, mas há evidências que mostram que o teletrabalho tem benefícios", frisa.

A aposta no teletrabalho é uma tendência para o futuro e esse futuro pode também trazer uma semana de quatro dias. De resto, Portugal quer ser pioneiro nesta matéria e vai começar a testar o modelo. O Governo anunciou que vai desenvolver com os parceiros sociais a realização de um estudo no qual serão definidos requisitos e condições para os projetos-piloto sobre a semana dos quatro dias.

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