São dez anos de estudo com um filtros coloridos que permitem uma visão sobre-humana
A cada 40 segundos durante a noite, durante os próximos 10 anos, uma câmara do tamanho de um carro pequeno irá captar imagens incrivelmente detalhadas do céu austral, compilando um panorama em timelapse da evolução intergaláctica que poderá ajudar a desvendar alguns dos mistérios mais antigos do universo.
O projeto histórico, denominado Legacy Survey of Space and Time (LSST, na sigla em inglês), teve início esta terça-feira, segundo o Observatório Vera C. Rubin, a moderna instalação no Chile que alberga a maior câmara digital do mundo, com três toneladas.
Durante os dez anos de estudo, uma série de filtros coloridos darão à câmara uma visão sobre-humana enquanto esta digitaliza o céu todas as noites e cria uma imagem dinâmica de como os objetos celestes - de asteróides a supernovas - se transformam e se movem.
As imagens "ricas em cores" de estrelas em explosão, buracos negros e colisões cósmicas também ajudarão a direcionar a atenção de outros observatórios em todo o mundo, de acordo com um comunicado de imprensa, permitindo que várias instituições trabalhem em conjunto para recolher observações abrangentes de eventos celestes notáveis.
O projeto tem vários objetivos, incluindo a criação de um novo inventário do nosso sistema solar e da Via Láctea, bem como desvendar o mistério da matéria escura observando a luz distorcida de galáxias distantes.
“Hoje, começamos a filmar o maior filme cósmico alguma vez feito”, disse Brian Stone, que ocupa atualmente o cargo vago de diretor da Fundação Nacional de Ciência dos EUA, num comunicado divulgado esta terça-feira. “Este momento reflete décadas de visão, inovação e o poder do investimento federal.”
Dando vida ao universo
Financiado em conjunto pela Fundação Nacional de Ciência dos EUA e pelo Departamento de Energia, o Observatório Rubin, de 800 milhões de dólares, está situado no topo do Cerro Pachón, a 2.682 metros de altitude, no norte do Chile. O céu escuro e o ar seco do local fazem dele um dos melhores locais do mundo para observar as estrelas.
Após o observatório ter captado as suas primeiras imagens no ano passado, a previsão era que o LSST entrasse em funcionamento no início de 2026. No entanto, as verificações demoraram mais tempo do que o esperado.
“A decisão de iniciar oficialmente o LSST foi tomada após um período de otimização do sistema e uma cuidadosa revisão operacional da prontidão técnica, do desempenho do sistema de dados e da validação científica”, disse Željko Ivezić, chefe do LSST, em comunicado. “Fatores importantes que influenciaram esta decisão incluíram a qualidade da imagem, a velocidade efetiva do levantamento, o tempo de atividade e a fiabilidade do sistema, além da precisão da calibração.”
Todas as noites, a câmara do observatório irá captar milhares de imagens, completando uma varredura completa do céu austral a cada poucos dias. Ao longo da sua pesquisa de dez anos, o telescópio poderá regressar ao mesmo ponto no céu noturno centenas de vezes, criando uma imagem dinâmica de como cada região dos sistemas estelares e das galáxias observáveis evolui. O esforço a longo prazo permitirá aos cientistas estudar eventos raros e difíceis de detetar como nunca antes.
“Rubin está a dar vida ao universo, iluminando um tesouro de descobertas: estrelas pulsantes, explosões de supernovas, o registo fóssil de galáxias, pistas para os mistérios da energia escura e da matéria escura, e fenómenos totalmente novos nunca antes vistos”, partilhou a equipa do observatório em comunicado de imprensa.
Através de imagens captadas para ajudar a otimizar o novo sistema, o observatório já detetou 11 mil novos asteróides e registou dezenas de outros novos objetos no nosso sistema solar.
À medida que o timelapse do observatório se desenrola, os investigadores utilizarão inteligência artificial e aprendizagem automática para filtrar os dados e detetar mudanças notáveis ao longo do tempo. Os cientistas esperam que o sistema envie cerca de sete milhões de alertas para sinalizar movimentos interessantes, explosões ou fenómenos notáveis todas as noites.
“Quando o LSST estiver completo, o conjunto de dados final conterá milhares de milhões de objetos com triliões de medições, todos acessíveis através de divulgações regulares de dados”, de acordo com o comunicado de imprensa do observatório. “Esta é a primeira vez que tantos dados astronómicos estarão disponíveis para tantas pessoas, abrindo caminho para novos tipos de descobertas tanto por parte dos cientistas como do público em geral.”
