Nunca é tarde para impor regras sobre o tempo de ecrã. Eis o que dizem os especialistas
NOTA DO EDITOR | Kara Alaimo é professora de Comunicação na Fairleigh Dickinson University e aconselha pais, alunos e professores sobre a gestão do tempo de ecrã. O seu livro "Over the Influence: Why Social Media Is Toxic for Women and Girls — And How We Can Take It Back" foi publicado em 2024.
Já sabe que os especialistas recomendam que as crianças e os adolescentes não tenham os telemóveis no quarto durante a noite. Mas, se for como a maioria dos pais, isso continua a acontecer.
Agora, uma nova investigação dá aos pais uma boa razão — e também um bom argumento — para mudar essa realidade.
As crianças e adolescentes que utilizam ecrãs nos quartos durante a noite acabam por usá-los mais e apresentam níveis mais elevados de utilização problemática dos ecrãs um ano depois, conclui um inquérito nacional realizado junto de quase 8.000 jovens entre os 12 e os 14 anos, publicado em junho na revista médica Acta Paediatrica.
Além disso, os jovens que utilizam ecrãs no quarto durante a noite têm maior probabilidade de serem vítimas de ciberbullying e também de praticarem ciberbullying, segundo um segundo estudo publicado também no final de junho na revista Journal of Adolescent Health. Ambos os trabalhos recorreram aos dados do Adolescent Brain Cognitive Development Study, o maior estudo nacional de longo prazo sobre a saúde e o desenvolvimento cerebral das crianças nos Estados Unidos.
As taxas mais elevadas de ciberbullying entre os jovens que utilizam o telemóvel durante a noite podem explicar-se pelo facto de os pais supervisionarem menos o tempo de ecrã quando os filhos estão no quarto, afirma Jason Nagata, professor associado de Pediatria na Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e principal autor dos dois estudos.
Uma das limitações da investigação é que foram os próprios jovens a reportar os casos de ciberbullying, pelo que poderá existir um número ainda maior de situações do que aquelas que admitiram nos questionários, acrescenta Nagata.
Os investigadores concluíram ainda que os jovens passam um tempo surpreendentemente elevado ao telemóvel quando deveriam estar a dormir. Em média, utilizam-no durante quase uma hora entre as 22:00 e as 06:00 nas noites de escola, sendo que a maioria está ativa entre a meia-noite e as 04:00 durante os dias úteis.
Tanto a Academia Americana de Pediatria como especialistas, entre os quais a própria autora deste artigo, recomendam há vários anos que os pais não permitam que os filhos durmam com o telemóvel no quarto. No entanto, estes novos estudos oferecem argumentos adicionais para fazer cumprir essa regra, defende Nagata.
O mais importante nestas investigações, sublinha, é mostrarem que determinadas práticas parentais podem melhorar a forma como os jovens lidam com os ecrãs.
Guarde os ecrãs durante a noite
Os pais podem não conseguir limitar o uso dos ecrãs em todos os momentos, reconhece Nagata. Mas a hora de deitar é um período "particularmente importante" para o fazer.
"O sono é absolutamente fundamental", afirma. "A maioria dos adolescentes não dorme o suficiente e essa falta de sono pode afetar a saúde mental, a saúde física e muitos outros aspetos. Se tiver de escolher as batalhas que vale a pena travar, limitar o uso dos ecrãs no quarto à hora de deitar pode ser uma das mais importantes."
O ideal é deixar os telemóveis fora dos quartos, aconselha Nagata. Se isso não for possível, a segunda melhor opção é desligá-los durante a noite.
Como evitar grandes conflitos com os filhos? Anna Seewald, psicóloga em Princeton, no estado norte-americano de Nova Jérsia, e apresentadora do podcast Authentic Parenting, recomenda conversar com eles sobre os benefícios do sono para o desenvolvimento do cérebro, a saúde mental e o bem-estar de toda a família. Seewald, que não participou na investigação, sugere também ler artigos e ouvir podcasts com os filhos sobre a importância de dormir bem.
Faça das refeições momentos sem ecrãs
A investigação concluiu ainda que os jovens que utilizam ecrãs durante as refeições têm maior probabilidade de serem vítimas de ciberbullying. Uma possível explicação é que deixam de aproveitar esses momentos para conversar com os pais ou outros cuidadores sobre o que se passa nas suas vidas.
"As refeições são uma oportunidade para perceber como está toda a família", refere Nagata.
O mesmo estudo verificou também que as crianças e adolescentes que comem enquanto olham para ecrãs tendem a ganhar mais peso. "Quanto mais distraídas estiverem em frente aos ecrãs enquanto comem, maior é a probabilidade de comerem em excesso ou mesmo sem terem fome", indica.
Em vez disso, Seewald sugere criar um local comum onde todos deixam os telemóveis durante as refeições — incluindo os pais.
Quando falar da ideia de afastar os telemóveis da mesa, não coloque o foco naquilo que está a retirar, aconselha a especialista. "Apresente as refeições sem ecrãs como uma forma de nos sentirmos mais ligados uns aos outros, e não como um castigo. Assim, é mais fácil ter as crianças do nosso lado."
Para tornar esses momentos mais agradáveis, a psicóloga recomenda utilizar cartões com perguntas para iniciar conversas, partilhar aquilo por que cada um está grato, falar sobre o melhor e o pior momento do dia, jogar pequenos jogos ou contar anedotas.
"Quando as crianças pegam no telemóvel, estão a tentar satisfazer uma necessidade emocional essencial: sentir ligação, pertença, serem vistas, valorizadas ou apreciadas", explica.
"Se conseguirmos responder a essas necessidades em casa, através da proximidade, da dança, da música, do riso e da conversa, elas deixarão de sentir tanta necessidade de recorrer ao telemóvel."
As crianças seguem o exemplo dos pais
A investigação concluiu ainda que um dos principais fatores que prevê um uso problemático dos ecrãs por parte das crianças é precisamente o comportamento dos pais. Quanto mais tempo os adultos passam em frente aos ecrãs, maior é a probabilidade de os filhos fazerem o mesmo um ano depois e desenvolverem sintomas de dependência ou um uso das redes sociais que pode gerar conflitos.
Por isso, tanto Nagata como Seewald defendem que uma das melhores estratégias passa por dar o exemplo.
Sabe onde a regra de não usar telemóveis durante as refeições nem sempre é cumprida? Na casa de Nagata e também na da autora deste artigo.
O marido de Kara Alaimo é médico de urgência e trabalha muitas noites e fins de semana. Quando ele está de serviço, a autora mantém o telemóvel em cima da mesa para o caso de conseguir fazer uma breve videochamada com a família.
Também Nagata esteve de prevenção no fim de semana anterior à entrevista. Conta que recebeu chamadas durante o jantar e explicou aos filhos que estava a ajudar outras crianças doentes, e não a ver vídeos nas redes sociais.
Por isso, quando for mesmo necessário quebrar as regras, o importante é explicar porquê, aconselha.
Dar o exemplo nem sempre será fácil. Mas a boa notícia é que guardar os telemóveis durante a noite e durante as refeições parece melhorar significativamente a relação das crianças e adolescentes com os ecrãs.
E, provavelmente, também ajudará muitos pais a dormir mais descansados, sabendo que estão a proteger os filhos dos efeitos negativos da tecnologia.
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