O problema não é o telemóvel. Três hábitos que podem dar mais sentido à sua vida

CNN , Madeline Holcombe
6 jun, 16:00
Tecnologia
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Como usar menos o telemóvel pode ajudar a encontrar mais propósito

No início da ascensão das novas tecnologias ligadas à internet e aos smartphones, os especialistas em marketing prometiam que estes dispositivos reduziriam as tarefas mundanas do quotidiano, deixando mais espaço para aquilo que realmente importa.

Isso poderia significar relações pessoais, projetos criativos e a contemplação das grandes questões da vida.

O problema é que as pessoas se habituaram a recorrer aos dispositivos para reduzir a dificuldade em todos os aspetos da vida, o que pode afastá-las ainda mais de um sentido de propósito, afirma Arthur Brooks, professor de liderança pública na Harvard Kennedy School e professor de gestão na Harvard Business School. (Brooks deixará Harvard em julho para assumir uma cátedra na Universidade Vanderbilt.)

“Sempre que a tecnologia substitui as coisas que verdadeiramente queremos no nosso coração, piora a nossa vida”, afirma. “Mas se for um complemento, é realmente muito bom.”

No seu novo livro, “The Meaning of Your Life: Finding Purpose in an Age of Emptiness”, Brooks explora porque é que tantas pessoas sentem uma falta de sentido na vida e o que fazer para cultivar propósito e realização pessoal. A forma como usamos smartphones e tecnologia digital pode ser um fator determinante para ajudar — ou impedir — esse sentimento de significado, diz.

“A resposta não é deitar fora o telemóvel. Quer dizer, tudo bem se quiser — pode atirá-lo ao mar e ir viver para um mosteiro, mas a maioria de nós não vai fazer isso”, observa Brooks. “Na verdade, precisamos dos nossos telemóveis, mas eles devem ser ferramentas.”

O mais recente livro de Brooks, "The Meaning of Your Life: Finding Purpose in an Age of Emptiness". (Allison Lau/CNN)

Problemas complexos vs. problemas complicados

Para compreender melhor o uso dos smartphones e das redes sociais, pode ser útil distinguir problemas complexos de problemas complicados, explica Brooks. Pode parecer que significam a mesma coisa, mas a nuance é importante.

“Os problemas complexos são fáceis de compreender e impossíveis de resolver”, afirma. “Os problemas complicados são difíceis de resolver, mas podem ser resolvidos e, quando isso acontece, ficam resolvidos para sempre.”

Construir um arranha-céus, por exemplo, é complicado. É preciso aprender muito, ser preciso, seguir muitos passos e resolver inúmeros problemas. Mas existe uma solução. E ter as ferramentas certas — que agora podem incluir inteligência artificial — pode ajudar a concluir esse projeto.

Já perceber como construir uma relação amorosa duradoura ou o que significa ser um bom amigo não são propriamente problemas com respostas definitivas. Estas questões complexas, sublinha, são aquelas com as quais devemos debater-nos repetidamente, ganhando compreensão mas nunca chegando a um destino final.

São precisamente estas questões complexas que as pessoas deveriam explorar mais para encontrar maior significado, nota Brooks. Mas também são aquelas para as quais a tecnologia parece oferecer atalhos que, na realidade, não funcionam.

Um exemplo disso são as redes sociais. Prometiam combater a solidão ligando as pessoas, lembra Brooks. Mas a investigação mostra que passar mais tempo online pode agravar o isolamento. Um estudo publicado em maio sugere que usar redes sociais não fortalece as ligações humanas e pode deixar as pessoas ainda mais sozinhas.

“A solidão piorou, porque a solução complicada nunca resolve o problema complexo”, argumenta.

Agora, segundo Brooks, existe uma situação semelhante com a inteligência artificial. Será uma ferramenta poderosa ou um calmante perigoso que finge satisfazer necessidades humanas enquanto continua a deixar as pessoas vazias?

“A IA é incrivelmente complicada. Pode retirar problemas complicados da sua vida e dar-lhe tempo. Como vai usar esse tempo? Se o usar em experiências complexas do coração humano, nas partes da vida que envolvem amor e fé, nas coisas misteriosas, nas coisas que realmente trazem significado, vai sair vencedor. Mas se usar IA para tentar resolver os seus problemas complexos, transformando-a no seu amigo, amante ou terapeuta, vai tornar a sua vida muito pior.”

As experiências digitais não são a realidade e nunca poderão reproduzir todas as nuances que compõem a experiência humana.

“Nunca será possível simular o significado da sua vida”, garante.

Arthur Brooks em Nova Iorque, a 2 de abril de 2026. (Allison Lau/CNN)

Aceite o tédio, precisa dele

Se alguma vez teve a sua melhor ideia no duche ou passou uma longa viagem a refletir sobre os paradoxos da vida, provavelmente já percebeu porque é tão importante passar tempo longe do telemóvel — e com um pouco de tédio.

Um smartphone, com o scroll infinito das redes sociais, é um dispositivo anti-tédio. E embora isso possa parecer apelativo, evitar o tédio de forma constante é um enorme obstáculo para sentir realização pessoal, afirma Brooks.

O tédio dá ao cérebro a oportunidade de entrar no chamado “Default Mode Network” [Rede de Modo Padrão], um estado de descanso desperto e desfocado que permite à mente vaguear. É nesse momento que começamos a sonhar acordados ou a pensar nas grandes questões da vida.

“Precisamos de ser melhores no tédio. Precisamos de ser atletas de elite do tédio, porque quando conseguirmos isso, vamos sentir que a nossa vida é mais profunda e significativa”, assegura Brooks.

Combater cada momento de tédio do dia agarrando imediatamente no telemóvel interrompe o tempo passado no nosso mundo interior. E fazê-lo acaba por criar uma sensação ainda maior de vazio e aborrecimento na vida, acrescenta.

Três formas de usar melhor a tecnologia

Brooks segue três regras no uso da tecnologia que, segundo ele, ajudam a manter os dispositivos como ferramentas em vez de os deixar afastá-lo de um sentimento de propósito.

A primeira acontece logo ao acordar.

Durante a primeira hora do dia, tenta manter-se afastado do telemóvel. Para algumas pessoas e profissões isso pode não ser totalmente possível, reconhece, podendo ser necessário verificar um email ou agenda. Mas depois disso, o telemóvel é guardado.

“E então essa hora é sua para tudo aquilo que quer fazer: dar um passeio, ler um livro, conversar com o seu marido, falar com amigos, fazer as coisas que realmente devem começar o seu dia, como exercício físico, rezar, aquilo que é importante para si”, indica. “Essa é a primeira hora do dia.”

Outros especialistas concordam que começar o dia a fazer scroll não prepara ninguém para um bom dia.

Passar diretamente do sono para o scroll pode ser uma transição difícil: está a começar o dia exposto à luz azul, que pode influenciar o cortisol — a principal hormona do stress — além de conteúdos potencialmente stressantes como más notícias, exigências profissionais ou discussões políticas nas redes sociais, explicou anteriormente à CNN a psicóloga Charlotte Armitage, do programa britânico "Be Device Wise".

Escolher priorizar atividades que fazem a pessoa sentir-se bem é uma excelente forma de acumular emoções positivas para arrancar o dia, afirma Pamela Rutledge, diretora do Media Psychology Research Center, uma organização independente sediada na Califórnia.

O passo seguinte para Brooks é afastar o telemóvel durante as refeições. Os pais frustram-se quando os filhos passam o jantar agarrados ao telemóvel, mas as crianças muitas vezes apenas imitam os adultos.

Reunir-se à mesa é uma oportunidade importante de ligação humana. Mesmo que o telemóvel esteja virado para baixo na mesa ou guardado no bolso, o cérebro sabe que pode surgir uma notificação ou a possibilidade de desviar a atenção para um vídeo engraçado.

E as pessoas precisam profundamente desses momentos regulares de conexão, diz Brooks.

Por fim, ele guarda o telemóvel uma hora antes de dormir.

Tal como acontece de manhã, a luz e o conteúdo do telemóvel podem ser perturbadores, mas neste caso prejudicam o sono, explicou anteriormente à CNN a médica Shalini Paruthi, professora adjunta de medicina interna e pediatria na Faculdade de Medicina da Universidade de St. Louis e porta-voz da Academia Americana de Medicina do Sono.

“Idealmente, uma rotina de deitar inclui desacelerar, relaxar e ajudar o cérebro a passar de um estado de atividade intensa para um estado mais calmo e preparado para adormecer. Ter um telemóvel ao lado da cama torna demasiado fácil pegar nele e começar a fazer scroll.”

Além de melhorar a qualidade do sono, afastar o telemóvel no final do dia cria espaço para passar tempo com as pessoas e atividades que realmente importam, observa Brooks.

“Só isso — primeira hora, refeições, última hora — vai mudar a sua vida”, conclui.

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