Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

"Não basta proibir ou limitar o uso dos ecrãs". Manter as crianças longe dos telemóveis começa no comportamento dos pais 

11 set 2025, 08:00
Telemóveis e smartphones (Getty)

Os rapazes ficam mais agressivos e impulsivos e as raparigas mais depressivas e ansiosas. Este é o impacto que o telemóvel pode ter no seu filho. No dia em que se faz o regresso às aulas no primeiro ano letivo com proibição do uso de telemóveis em alguns ciclos, ouvimos especialistas sobre o impacto das tecnologias no desenvolvimento dos jovens

A utilização excessiva e precoce do telemóvel pode estar a prejudicar a saúde mental do seu filho, neto ou sobrinho. Margarida Crujo, pedopsiquiatra, explica à CNN Portugal que “o abuso precoce de ecrãs tem implicações negativas na saúde mental das crianças, nomeadamente dificuldades no desenvolvimento da linguagem, isolamento e dificuldades na socialização, na adesão às rotinas, como por exemplo a do sono, implicações na atenção, entre outros”.

Mas o exemplo tem de vir de cima, sublinha a especialista. Margarida Crujo refere que “frequentemente, o tempo que as crianças passam online tem uma relação direta com o tempo que as figuras de referência passam online e com a quantidade de aparelhos eletrónicos existentes em casa”. Acrescenta ainda que “é essencial” ter atenção aos sinais que as crianças podem apresentar. É fundamental “estar atento, assim como disponível, aberto ao diálogo e ao entendimento cabal do outro”.  

“Aos pais não basta proibir ou limitar o uso dos ecrãs. É necessário sermos uma alternativa atraente para os nossos filhos, para que a relação connosco possa ser mais apetecível que uma relação descontrolada com um aparelho eletrónico”, frisa Margarida Crujo.

Os sintomas mais frequentes do uso descomedido dos ecrãs variam entre géneros: “mais sintomas depressivos e de ansiedade nas meninas, mais sintomas de impulsividade e de agressividade nos rapazes”. Esta diferença deve-se à forma como os ecrãs são utilizados. “Os rapazes, de alguma forma, tendem a preferir jogar videojogos, e as raparigas tendem a ocupar mais tempo nas redes sociais”, esclarece a pedopsiquiatra.   

Ainda assim, a psiquiatra da infância e da adolescência sublinha que estas distinções são generalizações e que “verdadeiramente importante é olharmos para cada criança ou adolescente individualmente, independentemente das suas características de género”. As diferenças resultam de fatores biológicos, psicológicos e sociais, mas também das experiências individuais de cada jovem.  

A especialista reconhece as vantagens dos ecrãs, desde o acesso à aprendizagem até à criatividade e socialização, mas insiste que tudo depende do equilíbrio: “o uso de telemóvel, computador ou consolas deve inserir-se na rotina normal das crianças, adolescentes e famílias, sem que os prejudique. O adormecer, o acordar, o ir para a mesa, o ir para a escola ou para a atividade extracurricular não podem deixar de se concretizar no tempo próprio pelo uso dos ecrãs. Se tal acontecer, o equilíbrio não está presente”, resume.

O papel das escolas  

Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de estabelecer regras claras que permitam às crianças crescer de forma saudável. “Existem muitas vantagens, pelo que é essencial estarmos focados numa perspetiva integradora da digitalização, em detrimento de uma abordagem maniqueísta, do tudo ou do nada”, defende Margarida Crujo. 

A pedopsiquiatra considera que o caminho a seguir não é o da proibição total, mas o da integração equilibrada: “Teremos que, conjuntamente, continuar a pensar no tema e a organizar-nos enquanto sociedade para chegarmos a uma utilização progressivamente mais equilibrada do mundo digital”. O papel do Governo é necessário pela falta de regulamentação, deve “ter a função fundamental de introduzir diretrizes que possam ser comuns a todos.” 

Tito de Morais e Cristiane Miranda, fundadores do projeto Agarrados à Net, afirmam que existem diversos estudos que apontam para os malefícios do uso de telemóveis em contexto escolar, mas também há investigações que defendem o contrário. Tito de Morais diz que “se quisermos ser cientificamente rigorosos, temos que ver os dois lados da moeda".    

“A proibição dos telemóveis é uma solução que não é solução, porque as crianças vão continuar a ter acesso aos dispositivos”, sublinha Cristiane Miranda. Tito de Morais acrescenta que ambos os fundadores são “contra a imposição de uma proibição de cima para baixo, que seja imposta pelo Ministério para as escolas cumprirem,” salientando que tal medida ignora as vozes dos “principais interessados”, que neste caso são os alunos.   

40% é culpa das redes sociais 

Um estudo da Sapien Labs constata que o uso de smartphones pode ser altamente prejudicial na saúde mental de crianças e jovens, sobretudo quando acontece demasiado cedo. A organização norte-americana baseou-se em dados de mais de 100 mil jovens, dos 18 aos 24 anos, provenientes de 168 países.  

Quanto mais cedo uma criança tiver um telemóvel piores vão ser os indicadores de bem-estar e de saúde mental no início da idade adulta. É esta a principal conclusão do maior estudo internacional sobre o tema.  

As redes sociais e o uso precoce das mesmas são responsáveis por 40% do impacto negativo na saúde mental dos adolescentes. Perante estes dados, os autores do estudo defendem a imposição de medidas semelhantes às que já existem para o álcool e tabaco, como por exemplo os limites de idade. 

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Saúde Mental

Mais Saúde Mental