Há um novo fenómeno urbano que dispensa introduções: as pessoas já não falam ao telefone — declamam. A chamada telefónica comum transformou-se num espetáculo itinerante, gratuito e involuntário, com sessões contínuas no café, na farmácia, na esplanada, no supermercado. Tudo com projeção vocal digna de espetáculo.
Hoje, qualquer conversa parece começar com a pergunta: “Será que aquele senhor da fila do pão está suficientemente dentro da minha vida?” Se a resposta for “ainda não”, aumente-se o volume. Repita-se o drama. Adicione-se um “ela teve a lata de me dizer aquilo à frente do Jorge, imagina!” e pronto — temos público.
Em tempos, conversar ao telefone era um gesto quase íntimo, um fio invisível que ligava dois mundos separados. Hoje, tornou-se um espetáculo de um só ator, com público sem convite a assistir. Somos apanhados ali – na mesa do café, na sala de espera do médico, na fila para pagar – a conhecer a dieta da cunhada, dita com a eloquência de quem está num tribunal ou num reality show.
O mais estranho é que ninguém parece reparar. Como se gritar partes da própria vida em espaços públicos fosse uma expressão legítima de liberdade. Ou pior: de presença. Grita-se, logo existe-se.
Não se trata apenas de falar alto. Trata-se de marcar território. Há quem use perfume, há quem grite ao telefone. Cada um marca presença como pode.
E porquê? A explicação pode estar menos na audição e mais na existência. No fundo, grita-se porque se quer ser visto. Talvez seja a nova forma de dizer “olhem para mim, eu conto!”. A diferença é que agora contamos tudo, a todos, o tempo todo.
Vivemos uma espécie de extroversão forçada. Uma performance diária onde a privacidade é opcional e o silêncio é visto com desconfiança. Quem não partilha é esquisito. Quem fala baixo é suspeito. Quem usa auriculares é um monge em treino.
Depois, há o subgénero mais temido: a chamada em viva-voz. Uma verdadeira experiência sensorial, onde somos brindados não só com uma voz, mas com duas (ou mais), saídas de uma pequena caixa acústica que parece ter sido desenhada para torturar tímpanos. E sempre, sempre em contextos absurdos — como se fosse perfeitamente natural discutir uma dívida ou uma traição enquanto se escolhe detergentes.
Não só ouvimos quem está a falar — o protagonista da coisa — como também somos brindados com a voz do interlocutor, saída em viva-voz de um telemóvel estridente, num tom abafado e distante. Junta-se o ruído de fundo do local onde o outro está — carros, crianças, televisões, cães, micro-ondas — e pronto: temos uma verdadeira instalação sonora contemporânea.
O mais impressionante é que ninguém parece constrangido. Quem faz a chamada acha normal. Quem está a recebê-la, também. E quem está ao lado — nós, os ouvintes não convidados — ficamos a saber que a Marta vai mesmo fazer o teste de intolerância à lactose, que o Rui voltou a chegar tarde, e que “o médico disse que se for mesmo pedra, sai sozinha”.
Há aqui qualquer coisa de poético. Ou de trágico. Ou dos dois.
É como se estivéssemos todos tão acostumados ao barulho, à partilha compulsiva, à ausência de fronteiras, que falar alto ao telefone — com todos os extras — já não pareça uma invasão. Parece só... rotina. A intimidade dissolveu-se na pressa. A conversa passou a ser emissão.
E quem fala baixo ao telefone? Esses são os últimos românticos. Os que ainda acreditam que as palavras têm temperatura, que o silêncio serve para ouvir. Falam devagar, como quem ainda guarda segredos. São olhados com estranheza. Como quem vive fora do tempo.
Talvez um dia esta febre passe. Talvez voltemos a sussurrar planos e a murmurar desabafos ao ouvido do outro, sem precisar de plateia. Talvez um dia falar ao telefone em voz baixa volte a ser moda. Talvez volte a existir o mistério, o sussurro cúmplice, a frase dita com intenção de não ser ouvida por mais ninguém. Por agora, é esperar. E, enquanto isso, tentar não desenvolver uma perturbação de ansiedade de todas as vezes que alguém atende uma chamada ao nosso lado e começa com aquele clássico: “TOU? `TÁS A OUVIR-ME?”
Sim. Estamos todos a ouvir-te. Infelizmente.