Sem Internet, telemóveis ou voos, o Irão tenta fechar-se. Isto é o que está a acontecer

9 jan, 13:03

No meio de recados para Donald Trump, que já ameaçou com uma intervenção no país dos aiatolas, as ruas fazem ouvir-se e ver-se, mesmo quando o regime tenta de tudo para que isso não aconteça

As imagens que o regime dos aiatolas não queriam que se vissem chegaram rapidamente a todo o mundo. Objetos a arder e milhares de pessoas nas ruas a protestarem contra o regime, numa nova vaga de manifestações que coloca em cheque a República Islâmica criada em 1979.

Nem o repentino corte de Internet em praticamente todo o país impediu os vídeos amadores feitos nas ruas de cidades como Teerão de chegarem às redes sociais, mostrando que há mesmo descontentamento com a atual situação financeira no país.

Muitas das chamadas telefónicas também não estão a chegar ao país e há várias companhias aéreas a cancelarem ligações, com a esmagadora maioria dos sites de notícias iranianos a darem apenas algumas atualizações.

Veja-se o caso da IRNA, uma das principais agências de informação do Irão, cuja ligação vai dando erro na tentativa de acesso, aparecendo uma mensagem a indicar que o serviço está temporariamente indisponível.

A agência Tasnim, também estatal, ainda vai fazendo algumas publicações no X, mas quase todas para indicar a posição do governo e para criticar os protestos. Não os nega, portanto, mas abafa-os e tenta descredibilizá-los.

Mantendo a narrativa, o aiatola Ali Khamenei acusou os manifestantes de estarem ao serviço dos Estados Unidos e do seu presidente, Donald Trump, que até já ameaçou uma intervenção direta caso continuam a morrer civis.

“Na última noite em Teerão, uma série de vândalos e manifestantes vieram e destruíram um edifício estatal, apenas para agradar ao coração do presidente dos Estados Unidos”, afirmou o Líder Supremo do Irão, que pediu a Donald Trump que “trate do seu próprio país”.

O proclamado líder da revolução diz que os manifestantes estão a atacar propriedade pública, tendo já avisado que Teerão não vai tolerar atos de “mercenários ao serviço de estrangeiros”.

Os protestos, esses, escalaram nos últimos dias, culminando no momento de maior tensão - já se ouviram cânticos de morte ao aiatola e pedidos de regresso à monarquia - desde a morte de Mahsa Amini, mulher morta pela chamada “polícia da moralidade” por não estar vestida, de acordo com as autoridades, da forma adequada.

Percebendo o momento, a oposição tenta capitalizar a revolta, que surge sobretudo a partir dos jovens. Reza Pahlavi, o exilado filho do xá deposto em 1979, pediu através das redes sociais que os iranianos não cedam. “Os olhos do mundo estão postos em vocês. Tomem as ruas”, acrescentou.

Quanto ao que está mesmo a acontecer, e embora o regime iraniano tente escondê-lo ao máximo, as imagens que vão sendo tornado públicas, algumas até já pelas televisões estatais, mostram autocarros, carros e motas a arder, tal como estações de metro ou agências bancárias.

A acusação principal vai contra a Organização Popular Mujahedin (MKO), uma fação da oposição que se fragmentou logo em 1979.

De acordo com a agência Reuters, que relata uma reportagem de um jornalista para uma televisão estatal, o cenário na cidade portuária de Rasht é “como uma zona de guerra”, com “todas as lojas destruídas”.

Tentando lidar com a situação, o regime iraniano está a adotar uma estratégia dupla, concedendo que há razões para descontentamento com a situação económica, mas condenando a violência com que esses protestos se têm efetivado.

O problema, na lógica de Teerão, é que estes protestos surgem numa espécie de cocktail explosivo, com o Irão enfraquecido internacionalmente, nomeadamente depois daquilo a que Donald Trump chamou de Guerra dos 12 Dias, em que Israel e Estados Unidos infligiram graves danos à estrutura nuclear iraniana.

Em paralelo, as várias sanções globais ao programa nuclear, que estão em vigor desde setembro, deixam o país ainda mais isolado, o que fomenta o descontentamento de uma grande franja da população que há muito pede uma abertura do regime.

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