De despedimento em despedimento, é hora de perguntar: a era de ouro das grandes tecnológicas terminou?

29 jan 2023, 19:00
Google

O setor tecnológico tem sido assolado por vaga após vaga de despedimentos. Um abrandamento na economia mundial está a alimentar esta tendência, embora para os investidores isto não seja, necessariamente, uma má notícia. Já os trabalhadores relatam outro cenário

A indústria tecnológica já estava a dar sinais há vários meses mas, o que até há uns tempos parecia impensável, agora está dado como certo. Após um crescimento notável na última década, as grandes empresas tecnológicas estão agora a contemplar um possível cenário desafiante no futuro. Como tal, as tecnológicas estão a adotar uma política de contenção de custos, o que se tem traduzido em sucessivas vagas de despedimentos.

A saga dos despedimentos já vem desde 2022, mas as sucessivas vagas de lay-offs nas principais tecnológicas só arrancaram no último trimestre desse ano. Listar a totalidade de tecnológicas a despedir trabalhadores em 2023 já representa uma tarefa hercúlea. Só este ano, já vai em 210 o número de empresas com lay-offs (contra 1.040 empresas em 2022), traduzindo-se num total de 67.268 trabalhadores dispensados (159.684 em 2022).

O ano arrancou com o anúncio da Amazon em como a “incerteza da economia” a estava a obrigar a cortes de mais de 18 mil empregos, o maior despedimento na história da empresa. Após a gigante de Jeff Bezos, foi a vez da Google com 12 mil despedimentos (6% da sua força de trabalho), depois a Microsoft com 10 mil (5% da força de trabalho), Spotify com 600 (6%), entre outros. Ainda o mês não acabou e também a IBM já anunciou cortar 3.900 trabalhadores (pouco mais de 1% dos seus trabalhadores).

Contudo, existem algumas 'aparentes' incongruências no seio destes despedimentos. No caso da Meta (dona do Facebook), a empresa anunciou despedimentos em novembro de 2022, após verificar que as suas receitas estavam abaixo do projetado no início do ano.

Já em relação à Microsoft, embora a gigante tecnológica tenha feito despedimentos, esta acrescentou 40 mil novos funcionários no seu último ano fiscal, mais do dobro face ao ano anterior. Além disso, a empresa planeia ainda investir mais de 10 mil milhões de dólares na OpenAI, o grupo por detrás do fenómeno de inteligência artificial, ChatGPT.

Porque estão as grandes tecnológicas em despedimentos?

Para Pedro Lino, CEO da Optimize Investment Partners, a última década foi única em termos de condições de financiamento às empresas, um fator que as tecnológicas souberam aproveitar. A alimentar esta expansão estiveram as taxas de juro baixas e a “tendência estrutural de evolução” da sociedade para um meio cada vez mais digital. Isto é, uma tendência para a digitalização, mas também para o teletrabalho, uma tendência acentuada ainda mais pela pandemia.

Os despedimentos das grandes tecnológicas surgem agora após um período de rápida contratação durante a pandemia, sendo que estas se destinaram a responder a acréscimos de procura “muito rápidos e concentrados”, explica Filipe Garcia, economista da IMF – Informação de Mercados Financeiros. O economista partilha que, de outra forma, não seria possível às tecnológicas dar resposta durante a pandemia sem equipas de maior dimensão, um fenómeno que também levou a “alguma expansão de margens” e perspetivas de negócio positivas.

Agora, o contexto inverteu. Para Filipe Garcia, as perspetivas futuras “já não são tão risonhas”, havendo mesmo lugar a uma quebra na procura das tecnológicas. Por outro lado, o reforço das equipas durante a pandemia permitiu também automatizar uma série de processos.

Já Pedro Lino descreve o atual período como uma fase de consolidação, onde as empresas têm de gerir com mais critério os seus recursos, o que implica uma otimização dos Recursos Humanos; algo que surge num contexto marcado pelo aumento dos juros e uma perspetiva de abrandamento da economia.

Economia abranda e empresas ajustam o rumo

Os despedimentos nas grandes tecnológicas são um dos primeiros sinais mais visíveis de uma desaceleração da economia, bem como do seu agravamento, garante Filipe Garcia. Isto ocorre pois as empresas em questão são “muito rápidas” a sentir este tipo de efeitos económicos, mas ágeis na sua adaptação. Neste sentido, há que ter em consideração que isto representa “uma reversão” do crescimento “demasiadamente” rápido das equipas.

Por outro lado, o novo cenário económico, adverso, levanta receios entre as empresas tecnológicas de que as suas receitas possam diminuir, ou crescer abaixo do esperado inicialmente. Isto, por sua vez, coloca em causa o investimento dos últimos anos, sustém Pedro Lino. Em paralelo, o novo cenário vai também pressionar os custos das tecnológicas, já que o aumento das taxas de juro terá implicações na emissão de nova dívida.

Despedimentos são uma má notícia para os investidores?

Resumidamente, não. Ambos os economistas concordam que o mercado tem reagido de forma positiva a estas notícias, visto lançar um sinal em como as empresas estão preocupadas com a sua sustentabilidade financeira no longo prazo. Estas decisões demonstram esse compromisso.

Para Garcia, o sentimento até pode ser agridoce, pois sinaliza um abrandamento do negócio, podendo isto ser negativo para os acionistas. No entanto, acaba por ser tranquilizador para os acionistas ver proatividade nos ajustes feitos, ficando de lado um cenário hipotético onde as empresas ficariam à espera de perdas para começar a tomar medidas.

Por outro lado, Lino sustenta que, após terem aumentado os custos com pessoal nos últimos anos, estas medidas são agora vistas como positivas a longo prazo, tanto para as empresas como para os acionistas, pois implicam uma contenção de custos.

O peso para os trabalhadores

Embora os investidores não vejam um problema com as recentes e sucessivas vagas de despedimentos, trabalhadores de empresas como a Google foram surpreendidos pela forma impessoal como foram dispensados. Segundo a publicação Business Insider, os trabalhadores da Google foram notificados por email, numa manhã de sexta-feira, em como tinham sido dispensados. Isto fez com que muitos só se apercebessem de tal acontecimento quando os seus cartões de acesso foram recusados à entrada do edifício.

O despedimento em massa da Google abrangeu não só funcionários que acompanharam a empresa ao longo de oito anos, como equipas que, de um momento para o outro, ficaram sem parte dos seus membros. Segundo relatos dos próprios funcionários, os despedimentos foram acompanhados de um reforço nos seguranças destacados para os escritórios, que prontamente escoltaram para fora do edifício os trabalhadores ‘barrados’ à entrada.

Já outros trabalhadores da Google foram surpreendidos enquanto estavam em licença parental. O Business Insider avança que um casal com um bebé de quatro meses foi despedido da Google enquanto um deles se encontrava de licença. Já um outro funcionário alegou ter sido despedido dias antes de entrar, igualmente, em licença.

Alguns membros da chefia não foram sequer informados desta vaga de despedimentos. Ainda assim, a gigante tecnológica continua a contratar, embora os funcionários colocados em lay-off devam candidatar-se externamente, como qualquer outro candidato.

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