As redes sociais costumam apresentar imagens perturbadoras. Contudo, é possível minimizar a exposição a estes conteúdos
NOTA DO EDITOR: As opiniões manifestadas neste artigo são apenas da respetiva autora. A CNN tem divulgado o trabalho da “The Conversation”, que é uma colaboração entre jornalistas e académicos, para disponibilizar análises e comentários sobre as notícias. O conteúdo é produzido em exclusivo pela “The Conversation”.
Quando os conteúdos explícitos se tornam virais, como o recente tiroteio que matou Charlie Kirk, poderá parecer impossível proteger-nos de ver coisas que não consentimos. Contudo, há medidas que podemos tomar.
As plataformas de redes sociais foram projetadas para maximizar o nosso envolvimento, não para proteger a nossa paz de espírito. As principais plataformas também diminuíram, durante o último ano, os seus esforços de moderação dos conteúdos. Tal significa que os conteúdos ditos perturbadores podem chegar até si, mesmo que nunca tenha feito a escolha de os ver.
Todavia, não é obrigado a ver todos os conteúdos que aparecem no seu ecrã. O facto de querer proteger o seu estado mental não significa que esteja a evitar ou a negar algo. Como investigadora, que estuda maneiras de contrariar os efeitos das redes sociais na nossa saúde mental e no nosso bem-estar, acredito que é uma forma de salvaguardar o espaço necessário para se manter envolvido, empático e eficaz.
Porque é que isto importa
As investigações mostram que uma exposição repetida a conteúdos violentos ou perturbadores pode aumentar os níveis de stress, intensificar a ansiedade e contribuir para sentimentos de impotência. Estes efeitos não se dão apenas no curto prazo. Com o tempo, acabam por corroer os recursos emocionais dos quais dependemos para cuidar de nós mesmos e dos outros.
Proteger a sua atenção é um gesto de cuidado. Libertar a sua atenção de conteúdos prejudiciais não é uma forma isolamento. É antes uma forma de recuperar a sua força criativa mais poderosa: a sua consciência.
Tal como acontece com a comida, nem tudo o que está em cima da mesa tem de ser comido. O leitor não comeria algo estragado ou tóxico pura e simplesmente porque lhe foi servido. Do mesmo modo, nem todos os conteúdos que surgem nas suas redes sociais merecem a sua atenção. Escolher o que consumir é uma questão de saúde.
Embora possa escolher o que guarda ou não nos armários da sua cozinha, a verdade é que, muitas vezes, acaba por ter menos controlo sobre o que lhe aparece nos ecrãs. É por isso que adotar medidas intencionais para filtrar, bloquear e estabelecer limites se torna tão importante.
Passos práticos que pode adotar
Felizmente, há formas simples de reduzir as hipóteses de se confrontar com vídeos violentos ou perturbadores. Aqui estão quatro recomendações:
1. Desative a reprodução automática ou limite o conteúdo considerado sensível. Note que essas configurações podem variar conforme o dispositivo, sistema operativo ou verão da aplicação.
2. Use palavras-chave como filtro. A maioria das plataformas permite silenciar ou bloquear palavras, frases ou “hashtags” específicos. É algo que diminui as probabilidades de aparecer conteúdo explícito ou violento no seu “feed”.
3. Faça uma curadoria do seu “feed”. Deixe de seguir contas que costumam partilhar imagens perturbadoras. Em alternativa, siga contas que lhe tragam conhecimento, sentimento de pertença ou alegria.
4. Defina limites. Reserve períodos sem o telemóvel durante as refeições ou antes de dormir. Há investigações que comprovam que fazer pausas intencionais reduz o stress e melhora o bem-estar.
Recupere o seu poder de decisão
As redes sociais não são um território neutros. Os algoritmos em que assentam foram projetados para manter a nossa atenção, mesmo que tal signifique dar escala a conteúdos prejudiciais ou sensacionalistas. Assistir de forma passiva a esses conteúdos só serve os interesses das empresas de redes sociais. Escolher proteger a sua atenção é uma forma de recuperar o seu poder de decisão.
A vontade de acompanhar tudo em direto pode ser forte, sobretudo durante momentos de crises. Contudo, escolher não assistir a todas as imagens perturbadoras não pode ser visto como um ato de negligência. É autopreservação. O ato de desviar o olhar protege a sua capacidade de agir com um propósito. Quando a sua atenção é sequestrada, a sua energia transforma-se em choque e indignação. Quando a sua atenção está estável, pode escolher onde investi-la.
Você, leitor, não é impotente. Cada limite que estabelece – seja desativar a reprodução automática, filtrar conteúdos ou selecionar o que lhe aparece no “feed” - é uma forma de controlar o que entra na sua cabeça. Estas ações são a base para ser capaz de se conectar com outras pessoas, ajudar os outros e trabalhar para alcançar mudanças significativas.
Mais recursos
Sou diretora executiva do Post-Internet Project, uma organização sem fins lucrativos que se dedica a ajudar as pessoas a lidarem com os desafios psicológicos e sociais da vida online. Com a minha equipa, concebi a intervenção PRISM, assente em evidências, para ajudar as pessoas a gerir o uso das redes sociais.
O nosso programa, assente em investigação, enfatiza o poder de decisão, a intenção e o alinhamento de valores como chaves para o desenvolvimento de padrões mais saudáveis de consumo de conteúdos. Pode experimentar o processo PRISM por si mesmo, com recurso a uma aula online, que lançarei através da Coursera em outubro de 2025. Pode encontrar o curso procurando pelo meu nome na plataforma. É gratuito e destina-se a pessoas com 18 ou mais anos.