A tecnologia é algo que me fascina profundamente, e prova disso é que não perco nenhum dos grandes eventos internacionais — claro, daqueles para os quais consigo efetivamente tirar tempo para visitar. A Web Summit não é exceção. Aliás, para mim, que sou orador da Web Summit nos temas de Tecnologia e Inovação, Cibersegurança e IA, este é, entre os eventos internacionais, aquele de que mais gosto, sem perder a necessária visita a Lisboa ou ao Catar para poder ver tudo de perto.
O quê?, pergunta o caro leitor. Tudo, respondo eu. Gosto de tudo o que tenha LEDs, luzes, bits e bytes e que, na verdade, possa servir mais do que se servir de nós. É difícil, mas elas, as empresas, andam por cá, na sua maioria.
É no meio do furacão da Web Summit, entre calcadelas, encontrões e a ocasional entorna do café por cima do Nuno, que encontro tempo para falar com malta com metade da minha idade, e acreditem, eu ainda sou um tipo novo! Mas, acima de tudo, o que mais gosto, para além de querer saber como resolvem os problemas do antigamente, até porque antigamente é tudo o que é de ontem e o ontem é já no século passado, é perceber como olham para esses problemas com os olhos do amanhã.
São estes jovens que sabem bem o que não gostam e, por conseguinte, o que não gostam acaba por ser aquilo a que nós nos habituámos só porque sim, ou porque tinha de ser, e eles não. Eles querem mudar o processo. Reparem, não é assim tão difícil, e a minha conversa com a Cristina Ferreira, há momentos, mostrou isso mesmo. Como se muda o inacessível a partir do seu interior? Perguntei-lhe também porque vem à Web Summit e se tem tempo para ver as start-ups. E tem, tem sim senhor. Mas mais do que isso, aqui ou no Brasil, a Cristina quer dar conteúdo humano à tecnologia — essa que às vezes nem eu percebo e que certamente a maioria acha que é apenas máquina.
Digam lá se não é uma boa missão? Eu tenho a certeza que é. E devo dizer à Cristina que sim: tal como eu, que tenho a missão de descomplicar o técnico para que todos compreendamos a tecnologia, dar-lhe coração, alma e sentido humano como ela o disse, é mais do que necessário, é essencial.
É neste evento que mais reconheço pelo mundo fora, o local onde mais vejo vontade de fazer a diferença. Claro que muitos questionam a qualidade do evento, a sua real necessidade e o que pode fazer por nós, para além das receitas de turismo. Muitos acham que nada sai dali, mas estão profundamente enganados ou desinformados. A Revolut saiu dal, a Uber também, e são empresas que usamos diariamente.
Também a GitLab, para nós, os mais geeks, ou até a Stripe, a conhecida forma de usar um cartão de crédito para as nossas queridas encomendas online, e tudo isto de forma segura. Mas não termina por aqui; há várias outras empresas, milhares e milhares, que de pequenas se fizeram grandes e tudo isto a partir de 1 metro quadrado na Web Summit.
Este ano, e à boleia da Inteligência Artificial, deixámos de usar a expressão apenas como rótulo para colocar em cima de qualquer coisa nova. Temos, finalmente, soluções verdadeiramente inteligentes, que recorrem a múltiplas tecnologias para nos aproximar da simplicidade das tarefas do dia a dia.
Mais do que repetir chavões, começamos a ver empresas que aplicam a Inteligência Artificial para nos servir melhor, de forma prática e tangível. Start-ups como a CiberNudge, por exemplo, que utiliza esta tecnologia para criar conteúdos de sensibilização em cibersegurança dentro das empresas, combatendo o desinteresse natural pela formação em contexto de trabalho, uma tarefa tão necessária quanto desafiante.
É este o caminho que vale a pena seguir: o da tecnologia que educa, simplifica e serve. O da inovação que não se limita ao “novo”, mas que procura ser útil, ética e, acima de tudo, humana. Contudo, nem tudo é um mar de rosas. Apesar do exemplo anterior estar ligado ao mundo da cibersegurança, este tema continua a ser secundário, e isso preocupa-me imenso. Estamos a dar novos mundos aos mundos, novos conteúdos para aprender, e nem sequer sabemos estar ciberseguros.
Mas não é tempo, neste meu texto, de falar das coisas que são preocupantes, mas sim das que são oportunidades. E não posso deixar de dizer que fico genuinamente contente por ver que Portugal não está isolado nesta ideia de ser uma espécie de unicórnio da inovação e da tecnologia.
Tanto como país, como cidade, temos uma visão clara do que queremos. E vamos à Web Summit com essa convicção. Vieram o Fundão, Santarém, Lisboa, Açores e Vila Nova de Gaia com o InovaGaia, todos com o mesmo propósito: dar aos seus inovadores um pequeno espaço nos seus stands para mostrarem ao mundo o que estão a fazer nas suas regiões, com o apoio da comunidade, quando nem sequer conseguem ainda pagar o seu espaço no evento. Brilhante.
Entre tanta luz, palco e código, o que realmente fica é a certeza de que o talento português não é exceção, é regra. O futuro da tecnologia não será decidido apenas em Silicon Valley, mas também aqui, nas nossas cidades, nas nossas universidades, nos nossos centros de inovação. Cabe-nos garantir que esta energia não se perde quando as luzes da Web Summit se apagam. Entretanto amanhã é um dia novo e cá estarei novamente para vos relatar o que vejo de inovador.