O dia de hoje começa com um sabor especial. Ainda em ressaca da apresentação dos novos telefones da Apple, e não só, estamos prestes a ter nas nossas lojas os tão desejados telefones da marca da maçã que atraem multidões mundo fora, pese embora possuírem uma espécie de update da versão do ano passado e este ser quase uma réplica desse modelo, ou seja, aquilo que, na minha opinião, é uma quase réplica de 2024.
Claro que, para o adepto ou fã da marca, ter um processador ligeiramente melhor, um ecrã de 120Hz, entre outras evoluções e não tanto novas características, já justifica o investimento. Afinal, quem é que não gosta de ostentar um iPhone com uma nova posição de câmara(s) na traseira? Um telefone que usa o seu chassis como meio de dissipação de calor? Eu não, e aliás, eu não me entusiasmo com pouco e a prova disso é precisamente a máquina onde estou a criar este conteúdo, um Macintosh SE de 1986 que pertenceu ao meu pai e que me foi oferecida por ele quando comprou em 1989 o LC; vá, pelo menos este tinha muito menos características e capacidades do que o LC, o que justificava a sua compra, mas será que o mesmo se pode dizer do novo iPhone 17?
Devo dizer que hoje não deixei de sentir alguma tristeza com este mais recente lançamento de tecnologia da Apple. Estava à espera de mais, estava à espera de inovação, ousadia, capacidade, e não o que recebemos, que para mim soube a pouco e para os verdadeiros críticos então é simplesmente uma mão cheia de nada; um “facelift” que empurrou as câmaras de X para Y e pouco mais. Será que se vive uma crise em Cupertino? Será este o momento em que não há nada mais que apresentar a não ser mais capacidade de processamento? Mais uns megapixéis? Passar do Bluetooth 5 para o 6? Pois, parece que sim, ou pelo menos é o que já é ressonância no meio, e que ainda muito recentemente questionava a continuidade de Tim Cook, como já apresentava a peça da CNN de Lisa Eadicicco e Clare Duffy.
Não há dúvida de que é notória uma não evolução pragmática da oferta e do conteúdo da Apple, a não ser melhorias subtis e que, claramente, na minha opinião, deveriam ser apenas apresentadas a cada 24 meses. Pessoalmente não as considero justificativas do preço que pedem ou até mesmo da troca de equipamento com 24 meses por um com 1 dia, a não ser quem queira agora ter um iPhone Air, algo que ainda não existia, pelo menos na Apple.
Mas a pergunta que se coloca é: porque parece que a Apple parou de inovar? Não sou eu que o pergunto sozinho, já a Forbes em 2019 o fazia e já se passaram seis anos desde que Greg Petro o escreveu. O que se está a passar? Onde anda o conteúdo com inteligência artificial? Porque é que, tantos anos depois do lançamento destes produtos em Portugal, a Siri ainda não fala Português de Portugal? Pois, ninguém sabe, e é certo que começa a ficar para trás quando comparada com as suas congéneres. Repare-se que a Google está a fazer do Pixel uma verdadeira extensão de um assistente diretamente a partir do nosso bolso! As mais recentes marcas que operam a partir do mercado chinês nem sequer estão à espera do pulso do mercado: a cada ano apresentam produtos com capacidades imensas. Mas será isto um mau presságio?
Eu acho que a questão se coloca precisamente com os timings, pois não há novidades que justifiquem uma superconferência de lançamento com as dimensões épicas das do passado, quando apresentaram coisas inovadoras como o iPod. São simplesmente sinais do tempo, e que o mercado não vai perdoar meus caros; não vai não...
Aliás, as próprias vendas já começam a refletir esta estagnação. A Apple enfrenta uma quebra acentuada em mercados estratégicos, como a China, onde registou quedas superiores a 20% em determinados trimestres, pressionada pela concorrência feroz de marcas locais como a Xiaomi e a Huawei. Ao mesmo tempo, o atraso na disponibilização de funcionalidades de inteligência artificial, o tão falado Apple Intelligence, deixou consumidores desiludidos e a procurar alternativas. Acresce a falta de grandes inovações no hardware desde a introdução do 5G, o que torna cada vez mais difícil convencer os utilizadores a trocar de telefone. O resultado é claro: uma desaceleração que alguns analistas já veem como estrutural e não apenas conjuntural, agravada por um efeito de correção pós-pandemia que reduziu os ciclos de upgrade em massa.
Já a caminho da saída deste nosso encontro há algo que me apraz dar nota: a cibersegurança. E aqui a Apple, este ano, não ficou parada e apresentou o Memory Integrity Enforcement, e pergunta o leitor: o que será o MIE? Eu clarifico: consiste numa camada de proteção que atua como um verdadeiro escudo invisível, que blinda o kernel e mais de 70 processos críticos do sistema contra a ataques sofisticados, incluindo spyware como o famoso Pegasus, que chegou a infiltrar-se nos telefones da Generalitat da Catalunha. A própria empresa não hesitou em classificar esta novidade como “a maior evolução de segurança de memória num sistema operativo de consumo”, e, ao contrário da inovação em hardware que tanto nos desiludiu, neste capítulo Cupertino voltou a mostrar porque continua a ser referência.
No fundo, fica a sensação paradoxal: a Apple já não deslumbra em inovação, mas ainda lidera em segurança, e talvez seja isso que nos diga mais sobre os tempos que vivemos, onde o luxo da tecnologia é cada vez menos novidade e cada vez mais proteção.
Já agora, não posso deixar de sublinhar algo que muitos de nós já sentimos no dia a dia: a Siri continua sem falar português de Portugal de forma adequada, ou melhor, de forma alguma! Em Portugal, a assistente da Apple mantém-se presa ao português do Brasil como variante principal, o que gera inúmeros problemas e muitos mal-entendidos. Muitas vezes, para não dizer quase sempre, não entende o nosso sotaque, falha na interpretação de nomes próprios tipicamente portugueses, não reconhece expressões que usamos no quotidiano e, pior ainda, não consegue lidar com a mistura entre português e inglês, tão comum quando pedimos, por exemplo, no carro: “Siri, toca aquela música que está na playlist de trabalho” ... ou quando pedimos para ligar para picheleiro Zé Manel. Nunca encontra esse contacto.
As queixas acumulam-se há anos em fóruns de utilizadores da própria Apple, onde se critica o facto de não existir uma Siri adaptada à realidade linguística de Portugal. Há relatos de quem tente pedir informações simples sobre localidades portuguesas e receba respostas confusas, ou de quem procure ouvir música nacional e veja a assistente tropeçar por não conseguir identificar corretamente nomes de artistas e títulos. Para agravar, quando a Apple anunciou que o Apple Intelligence iria chegar a novas línguas e regiões, mais uma vez o português incluído foi apenas o do Brasil, deixando de fora qualquer referência a Portugal.
A verdade é que a Google já consegue compreender estas diferenças, mistura línguas com facilidade e adapta-se bem ao português europeu. Por isso, fica a pergunta que se impõe: será que o mercado português é assim tão irrelevante para a Apple? Servimos apenas para comprar telefones e portáteis? Relembro que pagamos por um serviço completo, idêntico ao que é disponibilizado noutras latitudes, mas apenas recebemos parte dele.
Agora mesmo “indo”, se dúvidas houvesse sobre evolução que abordo neste meu raciocínio já extenso, relembro que escrevo estas linhas num velho Macintosh SE de 1986, com o seu processador Motorola 68000 a 8 MHz, 1 MB de RAM e um ecrãzinho monocromático de 9 polegadas metido numa caixa compacta já amarela do tempo. Quando o meu pai o trocou pelo Macintosh LC, em 1989, parecia que tínhamos entrado noutro mundo: processador Motorola 68020 a 16 MHz, 10 MB de RAM, um disco de 40 MB e, imagine-se, cores vivas num monitor separado no formato “pizza box”. Ou seja, na altura a diferença era da noite para o dia; hoje, entre um iPhone 16 e um iPhone 17, a diferença é… segundo muitos, uma nova posição das câmaras.
