ENTREVISTA || O Teatro Variedades esteve ao abandono durante praticamente três décadas. Essa é uma parte importante da história de um espaço que, em 2024, voltou a abrir portas, adaptado aos novos tempos e com um novo projeto artístico. Como “espaço de liberdade criativa”, define o codiretor Joaquim René.
Assinalam-se agora 100 anos desde a abertura, desde o primeiro espetáculo – “Pó de Arroz”, com o mítico Vasco Santana no elenco. Com o aniversário redondo, chega também uma vasta programação. “Queremos recordar esse passado, dignificá-lo, mas avançando”, resume Joaquim René.
Os olhos estão postos no futuro, numa altura em que o público mostra vontade de encher salas, de participar em algo que só o teatro tem: o aqui, o agora. “Se houvesse mais cinco ou seis teatros aqui no Parque Mayer, esses cinco ou seis teatros teriam programação”, acredita o responsável.
O Teatro Variedades está, finalmente, a fazer justiça ao próprio nome?
O Teatro Variedades sempre fez justiça ao próprio nome. Desde a sua abertura, em 1926, sempre foi um espaço em que se apresentaram todos os géneros de espetáculos. Farsas, operetas, revistas, comédias…
Ainda assim, com o passar do tempo, acabou por ficar associado ao teatro de revista e a um cariz mais popular...
Todo o Parque Mayer fica sempre associado ao teatro de revista. A verdade é que a génese do Teatro Variedades, da sua programação, está no próprio nome. Aliás, quando se deu a reabertura, em 2024, pensámos que caminho poderíamos dar ao Teatro Variedades. Houve um casal, na casa dos 80 anos, que estava aqui no Parque Mayer. Fui meter conversa com eles. Disseram-me: “Aqui era o Teatro ABC, aqui o Maria Vitória, aqui o Capitólio, aqui era o teatro das variedades”. De facto, está lá no próprio nome. Para quê inventar a pólvora?
Mas neste novo projeto, que surge também com o novo edifício, sentiram essa dificuldade em ultrapassar a associação ao teatro de revista? Ou acabou por ser natural, com a entrega das várias propostas culturais ao público?
Acho que foi bastante natural. Houve uma grande procura por parte de artistas que já se tinham apresentado no Teatro Variedades. Tivemos nomes como Marina Mota, Rita Ribeiro, Florbela Queiroz ou António Calvário. Mas, mesmo dignificando aquilo que era a história do Teatro Variedades, acabámos por conseguir diversificar a oferta cultural deste espaço.
É construir um futuro, mas sem esquecer essas referências do passado.
Nunca esquecendo o passado, exato.
E por falar em passado, a propósito dos 100 anos do Teatro Variedades, que vão ser assinalados no dia 8 de julho, o Joaquim foi mergulhar na história deste espaço. Que episódio ou figura mais o marcaram nesta sua investigação?
A figura que mais nos marcou – e eu digo ‘nos’, porque acho que toda a gente lhe ficou com este carinho muito especial – foi a Beatriz Costa. Apresentou-se imenso aqui no Teatro Variedades, teve imensos sucessos. Há uma revista, chamada “Arre, Burro!”, de 1936, em que a Beatriz Costa contracenava com um burro, o Manjerico. O burro acabou por ficar no Parque Mayer e participou em vários espetáculos.
Ainda assim, há vários episódios e várias figuras que são interessantes e que acabaram por ficar associadas ao Teatro Variedades. As pessoas, se calhar, não têm essa noção em relação a algumas. Por exemplo, a companhia da Maria Matos, que associamos ao cinema, apresentou-se durante temporadas inteiras aqui no Teatro Variedades. E a própria Eunice Muñoz também o fez.
É a prova de que o Teatro Variedades chegava a vários segmentos da população…
Na verdade, era aquele teatro onde as pessoas queriam ir. Os artistas queriam apresentar-se no Teatro Variedades.
E hoje, continua a ser assim?
Nós, neste momento, sentimos isso. O Teatro Variedades é um espaço de acolhimento. Recebemos propostas de projetos de todos os géneros. Costumamos dizer que somos um espaço de liberdade criativa. O que nos importa é que os espetáculos sejam bons.
Aproveito essa referência ao acolhimento. São bem conhecidas as queixas das estruturas criativas em relação à falta de apoios, à dificuldade em implementar projetos, à falta de espaços dignos para trabalharem. O Teatro Variedades, sendo uma das casas que acolhe esses projetos, não acaba também por ser um espelho dessa realidade?
Sentimos que, se houvesse mais cinco ou seis teatros aqui no Parque Mayer, esses cinco ou seis teatros teriam programação. Existe uma imensa oferta cultural, imensos projetos interessantes, mas se calhar não existem espaços para acolher tantos acolham. No Teatro Variedades, desde que reabrimos, procurámos combater uma regra que se impôs na maioria dos teatros, que é a de ter duas ou três apresentações. Tentamos fazer espetáculos de temporada, contrariar um pouco essa lógica. No início não foi fácil, porque os próprios artistas já não estavam habituados a este modo de pensar. Tinham algum receio de que o público não aparecesse. Mas, na verdade, quando o espetáculo é bom, o boca-a-boca funciona muito bem. Os espetáculos estão sempre cheios. Não temos propriamente queixas, desde que reabrimos, de falta de público.
Temos assistido a salas de teatro cheias, no Teatro Variedades e não só. Não deixa de ser interessante, num mundo em que vivemos agarrados aos ecrãs. Como explicaria este contraste?
Creio que estamos num momento em que as pessoas querem voltar aos espaços, ao teatro. Os três espaços do Parque Mayer – Variedades, Capitólio e Maria Vitória – têm estado cheios. Lembro-me de um dia em que as três salas tinham espetáculo à mesma hora. Havia uma multidão aqui. Sentimos que as pessoas, cada vez mais, querem vir ver espetáculos ao vivo.
E o teatro tem essa vantagem, que a inteligência artificial parece não ser capaz de substituir, que é o corpo, a presença.
Não substitui. Pelo menos, ainda não encontraram uma forma de a inteligência artificial substituir os atores no palco. Não creio que vamos sofrer desse mal. Talvez alguns textos apresentados venham a ter como autor a inteligência artificial, mas a interpretação em si não.
É verdade que as salas estão cheias, mas também que recebem público mais jovem. Como é que um teatro com 100 anos conquista alguém de 20 a entrar nele, sobretudo quando esse alguém não está convertido, não tem a rotina do teatro?
Temos apresentado espetáculos muito diferentes. E apostado muito nos musicais, aproveitando também o mito de que o Parque Mayer seria a Broadway portuguesa. Mesmo que o musical e a revista tenham estruturas completamente diferentes, há esse mito. Os musicais chamaram muitas pessoas mais novas.
Recordo-me de um episódio interessante que aconteceu no ano passado. Tínhamos um espetáculo do Marco Mendonça – “Reparations Baby!”, uma produção do Teatro Nacional D. Maria II. Logo a seguir, havia um espetáculo, o “Cama para Quatro”, do Carlos Cunha. Houve um rapaz, na casa dos 20 anos, que foi ver o primeiro espetáculo. E, ao aperceber-se de que havia o outro a seguir, comprou bilhetes para oferecer à mãe. Esta mistura de públicos está, efetivamente, a dar frutos.
E é sinal de que o Parque Mayer não morreu, ao contrário do que muitos vaticinaram?
Acredito, muito seriamente, que estamos a começar a escrever uma história em que vamos provar que o Parque Mayer não morreu. O Teatro Variedades, o Capitólio e o Teatro Maria Vitória estão em pleno. Acredito que o Parque Mayer não morreu. Não será o Parque Mayer de há 30, 40, 50 anos, obviamente. A cidade de Lisboa também já não é a mesma. Mas queremos acreditar que estamos aqui no início de uma nova fase, que vamos ter aqui um polo cultural diverso e democrático no centro da cidade.
Tem de ser um polo cultural vivo, não um monumento ao passado, para conseguir escrever uma nova história.
A questão é precisamente essa: não queremos eliminar o que foi o Parque Mayer, que teve uma importância imensa. Queremos recordar esse passado, dignificá-lo, mas avançando. Estamos no século XXI, a realidade é outra, os projetos culturais são outros. Para a frente é que o caminho.
Ainda assim, porque se assinalam 100 anos do Teatro Variedades, olha-se para esse passado. A programação é muito vasta, com visitas guiadas, exposições e um musical, intitulado “VARIEDADES (...como uma ópera bufa erótica e satírica)”, entre outros. Enquanto codiretor, se pudesse convidar alguém de há 100 anos para estar sentado na primeira fila deste programa, quem seria?
Diria, talvez, o Vasco Santana e a Beatriz Costa, que são duas figuras nas quais penso sempre quando penso na história do Teatro Variedades. O Vasco Santana fez parte do primeiro espetáculo que foi apresentado aqui em 1926, a 8 de julho, que era a revista “O Pó d' Arroz”. E a Beatriz Costa, pelas razões que já elenquei. Gostaríamos muito que estivessem aqui – e estarão, de alguma forma. Até porque integram a exposição que vai ficar patente no teatro até agosto de 2027.
E daqui a 100 anos, se alguém estiver a ler esta entrevista, que mensagem gostaria de deixar a essa pessoa? Onde espera que esteja o Teatro Variedades daqui a um século?
Gostava muito que as pessoas olhassem para estes 200 anos de Teatro Variedades, sobretudo estes 100 anos que agora começam, como um palco que foi aberto à cidade, no sentido de acolher todos os artistas que aqui quiseram apresentar-se, como um espaço que o público voltou a acarinhar e ao qual voltou.
E que teatro, enquanto forma de expressão artística, teremos daqui a 100 anos? Até porque o mundo tem mudado a um ritmo tão acelerado. Quando pensa num teatro do futuro, o que lhe vem à cabeça?
Espero que continuemos a ter atores no palco, que continuemos a ter cenários em cena, que o digital não tome conta do que são as artes performativas. Acho difícil que isso venha a acontecer.
