Teatro pária

22 jun, 11:18

No perigoso teatro do momento, Vladimir Putin, líder de uma potência autoritária, quase pária, lá voltou à Coreia do Norte, mais de duas décadas depois da última visita, desta vez para ser recebido por Kim Jong-Un, líder da potência totalitária mais pária do mundo, eternamente obcecada na militarização, à custa de um eterno sacrifício do povo, desprovido de direitos civis, liberdades pessoais e, já que aqui estamos, garantias de alimentação.  Armas pela fome, sempre foi essa a máxima da sacrossanta dinastia Kim, em busca de uma insaciável capacidade de sobrevivência, nuclear naturalmente, contra uns quaisquer invasores que, até hoje, nunca vieram.
 
E em menos de um dia, o último Kim lá conseguiu mais tecnologia para mísseis balísticos que bem aprecia disparar ao sabor do vento, mar adentro, em troca de artilharia para Putin mandar disparar, trincheiras fora, contra soldados ucranianos na guerra que a Rússia escolheu. Uma incrível borla. Para a Coreia do Norte, obviamente. 
 
Foi essa a grave normalização que o homem do Kremlin também escolheu ao regressar a esta terra. No desígnio crónico de olhar o mundo de forma binária, aprofundou uma parceria estratégica com um regime tão imprevisível que, até a China, tem dificuldade em gerir e que, até a Rússia, até há bem pouco tempo, com este mesmo Putin no comando, sancionava. A garantia de defesa mútua em caso de ataque, concedida a um estado reconhecidamente pária pelos seus próprios aliados, não é uma resposta nos mesmos termos a uma das fundações da NATO: é uma aposta de alto risco que apenas revela a vocação global da Rússia cada vez mais reduzida a um quintal de territórios onde Putin ainda se consegue mover. 

Por escolha própria.

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