O Teatro D. Maria II está de volta à sua casa, no Rossio: em setembro, José Raposo será Macbeth

27 jun, 19:00
Pedro Penim apresenta a nova temporada do Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Depois de mais de três anos de obras profundas, o Teatro Nacional D. Maria II está, outra vez, de portas abertas para o público. O diretor artístico, Pedro Penim, apresentou a nova temporada, com muitas criadoras mulheres e a aposta em espetáculos com carreiras mais longas

Pendurados nas paredes, pequenos papéis fotocopiados indicam o bengaleiro e o wc. Na livraria, as novas estantes de madeira estão vazias de livros. Nos espaços de trabalho faltam secretárias e computadores. Ainda se limpam vidros e arrumam-se as últimas caixas. Não, ainda não está tudo no seu devido lugar, mas percorrendo os corredores do Teatro Nacional D. Maria II, é possível sentir o cheiro a novo e a entusiasmo - o teatro volta ao seu edifício no Rossio, no centro de Lisboa, após mais de três anos de obras profundas, e o diretor artístico, Pedro Penim, recebe toda a gente com a alegria de quem recebe os amigos na sua casa. "Finalmente", desabafa. 

Por estes dias, já há ali visitas guiadas, leituras e outras atividades, com entrada livre, num "Prólogo" que serve como uma espécie de ensaio para a reabertura oficial em setembro, e também para permitir que os espectadores comecem a voltar ao edifício, ao mesmo que tempo que, nos bastidores, a equipa apronta os últimos detalhes para o arranque a sério. Esse vai acontecer a 18 de setembro com "Macbeth", peça de Shakespeare encenada pelo próprio Penim, a mesma peça que estava em cena quando um incêndio destruiu praticamente todo o edifício do teatro em 2 de dezembro de 1964, obrigando ao seu encerramento durante 14 anos. 

“Eu sabia que queria abrir com um clássico e estava à procura de várias hipóteses. Quando o Macbeth me apareceu na cabeça, sabendo que há este diálogo com a história do edifício, pareceu-me evidente que teria de ser essa a peça”, explica. “O teatro esteve fechado três anos e meio e vamos abrir com uma peça que está impregnada de maldições e de coisas más, mas eu gosto desse desafio." A “peça escocesa”, como é conhecida, está envolta em mitos e superstições. Para “desafiar o destino e combinar assombração e futuro”, a primeira ideia de Penim era usar a mesma tradução que foi usada na produção de 1964, do poeta brasileiro Manuel Bandeira, mas infelizmente não conseguiram obter os direitos. “Estava tão obcecado com a tradução de Manuel Bandeira que, depois, todas as traduções que lia me pareciam ineficazes para aquilo que já tinha imaginado para o espetáculo. E quase que fui encurralado, por mim próprio, mas fui, para esta empreitada de ter de ser eu a traduzir”, diz o encenador. A empreitada revelou-se “o trabalho mais doloroso” que alguma fez, admite.

Habituado a remontar clássicos do teatro, Pedro Penim confirma que “a encenação será necessariamente uma encenação contemporânea”, mas “o texto é o do Shakespeare, sem dúvida”. “O trabalho a que me propus foi fazer uma tradução absolutamente fiel àquilo que está no original. Um tradutor traz sempre as suas idiossincrasias, isso não há forma de contornar, mas acredito que a tradução que estou a propor é absolutamente fiel ao texto”, explica. Penim já gostava do Macbeth, mas depois de todo este processo, mal pode esperar para começar os ensaios. “É das peças mais ritmadas do Shakespeare e é também das mais curtas. É uma sequência completamente louca de acontecimentos e de mortes, muito rápida, com personagens muito intervenientes, mas ao mesmo tempo aquela dupla de protagonistas muito destacada”, sublinha. 

No papel principal estará José Raposo. “Foi a primeira escolha, muito evidente”, diz o encenador. O ator, bastante popular sobretudo pelos seus trabalhos em televisão e em espetáculos de comédia, fez um “Macbeth”, de Heiner Müller, em 2011, com encenação de Mónica Calle, mas, na verdade, esta é a primeira vez que enfrenta o texto de Shakespeare. “Para ele será um grande desafio e está muito entusiasmado também”, diz Penim. “Eu já trabalhei muito com o José, é uma pessoa que eu adoro, tenho uma grande proximidade com ele e é um ator que, para mim, tem uma coisa que era absolutamente fundamental de encontrar neste Macbeth, que é o facto de ser muito popular, mas ao mesmo tempo ter uma capacidade de ser também um ator de texto e um ator erudito.”

“Macbeth” ficará oito semanas em cena. Penim propõe-se apostar em carreiras um pouco mais longas do que é habitual, algo que considera essencial não só para dar oportunidade ao público que queira vir ver os espetáculos, mas também para os próprios artistas que muitas vezes ficam frustrados com apenas quatro apresentações depois de meses de trabalho. “Tentámos encontrar os espetáculos para a Sala Garrett que possam estar no mínimo seis semanas”, diz. “São espetáculos que têm atores conhecidos ou que, de alguma forma achamos, que são propostas que se adequam a esta aposta nas temporadas mais longas. Nem tudo é possível, como é óbvio. As carreiras mais longas custam mais dinheiro, por isso é preciso encontrar um equilíbrio com outras propostas mais experimentais e estamos a tentar alternar entre uma coisa e outra.”

Visita ao teatro após as obras: no novo espaço de trabalho com jardim de inverno

Obras custaram 15,1 milhões de euros

Antes da apresentação das novidades da temporada, a apresentação das novidades no edifício. À primeira vista, não se vê bem que obras foram estas que custaram 15,1 milhões de euros financiados pelo PRR. Mas não se deixem enganar. As mudanças no sistema de ar condicionado, na Sala Garrett e no átrio, as melhorias na iluminação, as intervenções técnicas (por exemplo, no sistema de som) e toda a remodelação na sala principal vão mesmo a fazer a diferença no conforto, na segurança e em toda a experiência dos espectadores. 

De qualquer forma, como explica o arquiteto Francisco Pólvora, as grandes diferenças serão notadas em primeiro lugar por quem ali trabalha: em vez de gabinetes esconsos, sem janelas, improvisados num corredor, grande parte da equipa do teatro ganhou um novo espaço localizado na antiga sala de cenografia, com um open space e gabinetes envidraçados na nova mezanine, salas de reuniões, copa e um jardim de inverno - a joia da coroa desta intervenção, que trará uma melhoria incomensurável nas condições de trabalho.

Abriram-se janelas e fizeram-se escadas onde antes havia paredes, melhoraram-se acessos e elevadores, o teatro ganhou uma nova sala de ensaios e uma galeria para exposições, houve uma intervenção de fundo no sistema mecânico do palco (que permite que o palco rode e abra, dando aos encenadores e cenógrafos uma série de opções criativas).

E já nem estamos a falar do básico em qualquer intervenção - limpeza profunda, pinturas e restauros, por dentro e por fora. O principal teatro do país está de cara lavada, como há muito não o víamos, e até ganhou um letreiro, com o seu nome inscrito na fachada, algo que, inacreditavelmente, não existia.

Fachada da entrada principal do Teatro Nacional D. Maria II - agora com uma inscrição com o nome no topo 

Muitas mulheres, espaço aos novos, espaço aos antigos: um teatro que quer ser de todos

"O teatro não fechou, só o edifício é que esteve fechado, nós continuámos a trabalhar", sublinha Rui Catarino, presidente do Conselho de Administração do TNDMII, na apresentação da próxima temporada, lembrando que desde janeiro de 2023 a programação do teatro continuou, apresentando-se noutros teatros da cidade e também pelo país. "Voltamos a casa, mas trazemos o país todo dentro", diz, deixando claro como este período de itinerância influenciou toda a equipa e deixou sementes que se espera que possam florescer nos próximos anos.

Com um orçamento para a programação que ronda os 2 milhões de euros, a nova temporada do TNDMII começou a ser desenhada ainda durante o ano de 2024. “Na verdade, tínhamos outras datas possíveis de reabertura que, entretanto, não foi possível cumprir. Mas já tínhamos este desenho, não só de permitir que para a Sala Garrett possam vir espetáculos textos clássicos e textos de referência, mas de encontrar também um trabalho com as várias comunidades”, explica o diretor artístico. “Parece-me que o Teatro Nacional continua a ser responsável por criar condições para que essas comunidades sintam aqui um espaço de segurança para se apresentarem, porque infelizmente estamos num tempo em que isso não é de todo garantido. Por isso acho que há uma necessidade grande de tentar criar este equilíbrio entre aquilo que é expectável que o Teatro Nacional continue e deva fazer, nomeadamente tratar a memória e recontextualizá-la à luz do nosso tempo, e ao mesmo tempo continuar a ser um teatro de futuro.”

Olhando para a programação apresentada, vislumbram-se algumas linhas principais, a começar pela presença de muitas criadoras mulheres, entre as quais Keli Freitas (com um projeto participativo com pessoas migrantes), Beatriz Batarda (com a encenação de “A Cantora Careca”, de Eugène Ionesco), Sara Barros Leitão (com o seu último espetáculo, a partir das "Suplicantes", de Ésquilo), Sara Carinhas, Joana Craveiro, Zia Soares. "Por um lado, é intencional, por outro lado acho que faz jus ao que está a acontecer, teremos nomes muito relevantes da cena contemporânea portuguesa", explica Pedro Penim. "Sabemos que não estamos ainda propriamente num tempo de equidade, entre homens e mulheres, o teatro não é imune a esse desequilíbrio, por isso acho que é de justiça elementar que o Teatro Nacional de Dona Maria II possa refazê-lo."

O espetáculo de despedida da companhia Cão Solteiro, um ciclo dedicado a Lígia Soares, o espetáculo "O Fantasma de D. Maria II", com texto de Hugo van der Ding e encenação de Mónica Garnel, e o novo espetáculo de Mário Coelho, "Ajoelha-te e diz-me que me amas", são alguns dos destaques desta temporada, onde também sobressaem as parcerias com outras instituições - Teatro do Bairro Alto, CCB, Festival de Almada, Alkantara, entre outros - que permitirão trazer a Lisboa algumas companhias estrangeiras. 

Pedro Penim fala depressa, sem parar, anunciando, entusiasmado, quer a publicação da obra completa de Gil Vicente (serão cinco volumes, dois já nesta temporada) quer o projeto "Trust - Truth on Stage", uma parceria com a Divergente, que junta teatro e jornalismo. No Teatro Nacional, tal como o imagina, há lugar para isto tudo, e muito mais. Agora, tem pressa para abrir as portas e mostrar ao público todo o trabalho que tem sido feito.

“Voltámos a um Rossio irreconhecível”, comenta Pedro Penim. “Não só arquitetonicamente, porque houve muita coisa que de facto se alterou, como se tornou também numa zona em que, durante o dia, está completamente superpovoada por turistas e durante a noite, às vezes, até é perigoso de se andar na rua. E isso é triste de se observar, porque o Rossio devia ser um espaço nobre da cidade, um espaço de festa, onde as pessoas se encontram, onde os lisboetas vêm ter quando saem do trabalho. Espero que o regresso do Dona Maria possa contribuir para que essa dinâmica se possa ir estabelecendo a pouco e pouco e que possa devolver a dignidade a esta praça.”

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Artes

Mais Artes