"A grande dor de José Eduardo dos Santos era ter os filhos desavindos": Isabel e Tchizé, o que as une e as separa

14 jul, 07:00

Funeral do antigo presidente angolano já levou Tchizé a dizer que se Isabel estiver presente nas cerimónias em Angola "vai ser vista como uma grande traidora"

O funeral de José Eduardo dos Santos pode ser um ponto de rutura entre as duas filhas mais velhas do antigo presidente de Angola Tchizé e Isabel. Segundo o semanário Expresso, Isabel dos Santos admite a possibilidade de se deslocar a Angola caso lhe seja dada a garantia de que pode entrar e sair do país sem qualquer encontro com a justiça angolana. A resposta de Tchizé dos Santos surgiu em entrevista à CNN Portugal, na qual afirmou que, se tal acontecer, a irmã “vai ser vista como uma grande traidora, vai ser igual a João Lourenço”.

Este desencontro entre ambas não começou aqui: o jornalista angolano Nelson Francisco Sul lembra à CNN Portugal palavras de José Eduardo dos Santos, que terá dito que "prestou mais atenção à união do país do que à união dos filhos”. “Tirando o aniversários ou em casos de doença, eram poucos os encontros entre os filhos”, acrescenta. Também Benja Satula, advogado e professor na Universidade Católica de  Angola, realça este ponto, lembrando que "não tinham negócios, não faziam férias juntos e deveriam ser poucas as vezes que toda a família se reunia”. “Há um texto que coloquei a circular que mostra que a grande dor de José Eduardo dos Santos era ter os filhos desavindos", diz Benja Santula, advogado e professor na Universidade Católica de Angola.

Breve currículo de ambas

Nelson Francisco Sul, correspondente da Deutsche Welle e do semanário Expresso, esclarece que os holofotes tendem a centrar-se mais vezes em Isabel e Tchizé por dois motivos: "São mais velhas e entraram muito cedo no mundo dos negócios". 

Tchizé nasceu em 1978, em Luanda, com o nome Welwitschea dos Santos. É filha de Maria Luísa Abrantes e tem nacionalidade angolana e portuguesa, que recebeu ao casar com Hugo Pêgo de quem se divorciou em 2015, 13 anos depois da união.

Já Isabel dos Santos nasceu em 1973 em Baku, no Azerbaijão, tendo nacionalidade angolana e russa. É a segunda filha mais velha de José Eduardo dos Santos e a mãe é Tatiana Kukanova, uma geóloga russo-angolana que chegou a ser colaboradora da Sonangol. Após a separação dos pais, nos anos 80, Isabel foi viver com a mãe para Londres, no Reino Unido, onde se formou em engenharia eletrotécnica. Casou com Sindika Dokolo, em 2002, tendo este morrido enquanto fazia mergulho no Dubai em 2020.

Se Isabel optou por enveredar pelo mundo dos negócios, Tchizé foi parte ativa do MPLA, partido angolano pelo qual foi deputada, tendo sempre estado ligada, em simultâneo, à comunicação social e ao mundo do audiovisual. Ao longo dos anos, Tchizé dos Santos fundou a versão angolana da revista Caras, foi a primeira mulher presidente de um clube de futebol angolano - do Benfica de Luanda -,  assumiu a gestão da TPA, canal angolano do Estado, e foi uma das responsáveis por duas novelas angolanas que estiveram nomeadas para os prémios Emmys.

Isabel também chegou a ser membro do "jet set angolano", sobretudo por via do restaurante Miami Beach, que abriu na ilha de Luanda. Foi assim até ao dia em que preteriu o controlo do estabelecimento pela gestão de empresas com maior volume de negócios. Chegou a Portugal pela mão do empresário Américo Amorim, como acionista da Amorim Energia. Ainda assim, “quando entra em Portugal já era milionária”, como explica o jornalista Nelson Francisco do Sul.

Isabel dos Santos chegou a Portugal em 2005, através da Américo Energia, de Américo Amorim.

Isabel dos Santos e Américo Amorim foram acionistas do BIC Angola, idealizado por Fernando Teles, em 2005. Seguiu-se o banco BIC Portugal, em 2007, e a entrada para a ZON, que posteriormente se transformou na NOS, após a fusão com a Optimus da Sonae.

Tanto Isabel como Tchizé dos Santos chegaram a ser investigadas pelo Ministério Público por eventuais crimes de colarinho branco relacionados com a justiça angolana. Tchizé chegou mesmo a estar acusada em Portugal pelos crimes de branqueamento de capitais, mas a decisão acabou por ser anulada pelo juiz Ivo Rosa, em 2021.

Tchizé rejeita, Isabel pondera, mas tudo depende da justiça angolana

E chegamos à polémica em torno das cerimónias fúnebres de José Eduardo dos Santos: por serem ambas pessoas de interesse para a justiça de Angola, temem ficar retidas - ou ser detidas - no país após o funeral. Como explica Nelson Francisco Sul, “em Angola não há dúvidas, todos estão solidários com as irmãs”, acrescentando que “as irmãs estão sob pressão do Estado, da Procuradoria-Geral da República e do Ministério Público - está tudo em cima delas”, realça o jornalista angolano.

“Acho que o presidente João Lourenço está com um capital político muito baixo. Na opinião pública e na rua, ouve-se que José Eduardo dos Santos morreu e foi João Lourenço”, diz ainda Nelson Francisco Sul.

O advogado Benja Satula considera provável que "o funeral vá ocorrer em Angola", enaltecendo que os filhos "não vão ignorar o facto de que o povo tinha um grande amor por José Eduardo dos Santos e que não haverá outro lugar que não Angola para expressar esse apreço”.

Para Nelson Francisco Sul, "o corpo só deve regressar a Angola se as irmãs quiserem", lembrando que seja qualquer for a decisão dos tribunais espanhóis há sempre a hipótese de recurso e de o processo se arrastar por algum tempo - "e se isso acontecer serão perseguidas pelo Estado”, garante.

"Com exceção de uma das filhas, acho que todos vão estar presentes, incluindo a engenheira Isabel dos Santos”, garante Benja Satula. Que explica de onde vem a desavença entre Tchizé e João Lourenço: "A Tchizé esteve no Parlamento, o João Lourenço esteve no Parlamento. Cada um tem um código genético próprio. Provavelmente deve-se ao facto de a Tchizé ser a única dos filhos que esteve envolvida na política. A Tchizé lidou com estas pessoas no Parlamento, tem uma perspetiva diferente da dos irmãos”.

Questionado sobre se a antiga deputada do MPLA Tchizé dos Santos e antiga membro do Comité Central poderá estar a tentar executar uma manobra de assalto ao poder de Angola, Nelson Francisco Sul sublinha que “a família dos Santos vai continuar a ter poder na política angolana". "Pode não ser nenhum dos filhos, mas acredito que talvez um neto um dia regresse à política."

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